ARTIGO: Michael Burry ainda está errado. E o tempo está provando isso
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Michael Burry ampliou suas apostas baixistas, incluindo ações de empresas como Tesla e Nvidia, mas continua errado em sua análise. Apesar de ter previsto a crise do subprime em 2008, sua repetição de alertas nos últimos 18 anos não se sustenta.
Ele confunde fabricantes de tecnologia com provedores de infraestrutura, ignorando que empresas como Google e Microsoft, que operam data centers, estão prosperando. Burry não considera a crescente demanda por capacidade de processamento e a pressão de custos que afeta os fabricantes de chips.
Enquanto ele vê exuberância irracional em investimentos em IA, a realidade mostra que a demanda por infraestrutura está aumentando.
O Brasil, com sua matriz energética limpa e custos operacionais baixos, pode se beneficiar dessa transição, tornando-se um protagonista em IA e infraestrutura. A análise de Burry revela oportunidades para quem possui vantagens estruturais, não para os que estão mal capitalizados.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Eu já escrevi sobre Michael Burry uma vez. Voltei a escrever porque ele voltou a apostar, e apostou mais alto. Não é mais apenas uma posição contra Nvidia e Palantir. Agora há uma cesta que inclui Tesla, Nvidia, Caterpillar, Applied Materials e o ETF de semicondutores SOXX, com puts roladas para março de 2027. É a maior aposta baixista dele desde que deixou de gerir capital de terceiros, após encerrar o registro da Scion Asset Management no fim de 2025.
E eu vou dizer o que precisa ser dito: nesse caso, Burry continua completamente errado.
Não falo de fora. Sou gestor de fundos em uma casa com mais de R$ 38 bilhões sob gestão. Tenho posições diretas em infraestrutura de IA no mercado financeiro e em projetos reais de economia real no Brasil. Leio cada relatório, cada trimestre, cada dado. Estou com skin in the game dos dois lados. E é justamente por isso que posso dizer, sem eufemismo: ele acertou o diagnóstico e errou o paciente.
O respeito e a discordância. Burry previu a crise do subprime americano em 2008. Shorteou os mortgage-backed securities quando Wall Street inteira ria dele. Tem meu respeito irrestrito por isso.
Mas respeito não é concordância. E há um detalhe incômodo: entre 2008 e hoje vão 18 anos. Ele acertou uma vez, de forma espetacular, e passou quase duas décadas repetindo o mesmo alarme. É o relógio quebrado que acerta a hora duas vezes por dia. Acertar 2008 valeu a fortuna que valeu. Mas 18 anos avisando que o teto vai cair não é previsão, é postura. Você entende o que eu quero dizer.
O próprio Alex Karp, CEO da Palantir, resumiu melhor do que eu conseguiria: as duas empresas que Burry shorteou primeiro são exatamente as que mais ganham dinheiro. Shortear chip e ontologia, disse Karp, é uma escolha difícil de defender.
Primeiro erro: Burry confundiu o fabricante de carro com a praça de pedágio. A tese do tokenmaxxing é real. Empresas mandam funcionários queimar tokens para coletar dados, treinar modelos proprietários e montar rankings internos. Essa fase é temporária. Quando acabar, a demanda pode comprimir. Mas para quem?
Os laboratórios de modelo, como OpenAI, Anthropic e xAI, são os fabricantes de carros. Se a demanda por tokens comprimir, eles sofrem. Amazon, Microsoft e Google são a praça de pedágio. Não importa se você passa de Ferrari ou de Honda. O pedágio cobra. E quanto mais barato o modelo fica, mais viagens acontecem, mais pedágios são pagos.
Os dados provam isso em tempo real. O Google processou 1,3 quadrilhão de tokens por mês no terceiro trimestre de 2025, mais de 20 vezes o volume de um ano antes. A Microsoft processa mais de 100 trilhões de tokens em um único trimestre, cinco vezes mais que no ano anterior. A margem operacional do Google Cloud, que durante anos foi um ponto de dúvida, chegou perto de 33%. Isso não é projeção. É o número divulgado em resultado corporativo.
Burry está short nos fabricantes de carros e não percebeu que está apostando contra a praça de pedágio ao mesmo tempo.
Segundo erro: ele construiu uma tese de demanda e ignorou a oferta. Os custos industriais voltaram a pressionar o mundo. Na Coreia do Sul, o índice de preços ao produtor fechou maio de 2026 com alta de 8,5% em base anual, a maior desde julho de 2022, puxado por insumos industriais, energia e componentes ligados à manufatura. Nos Estados Unidos, o PPI subiu 6,5% em 12 meses no mesmo período. É um fenômeno global de custo de produção.
Samsung e SK Hynix, duas das maiores fabricantes de memória do mundo, operam sob pressão crescente de custo, capacidade e demanda. Do outro lado, a necessidade de energia para data centers americanos segue em trajetória de forte alta, com estimativas apontando expansão relevante da carga ao longo da década.
Burry está short nos fabricantes de carros e não percebeu que está apostando contra a praça de pedágio ao mesmo tempo
Quando Burry vê o anúncio de cerca de US$ 520 bilhões em novos investimentos coreanos e diz que é o começo do fim, ele lê exuberância irracional. Eu leio a confirmação de que o mundo está em guerra por capacidade de processamento, e que quem tem energia barata e infraestrutura assegurada está do lado certo da história.
E aqui os Estados Unidos estão amarrando as próprias pernas. Até o fim de junho de 2026, 116 municípios americanos já haviam imposto moratórias locais a data centers. Nova York aprovou a primeira moratória estadual de IA do país, ainda à espera da assinatura da governadora. Sanders e Ocasio-Cortez propuseram uma moratória federal. Projetos bilionários vêm sendo bloqueados ou atrasados por oposição local. O capital de infraestrutura de IA está sendo empurrado para fora dos Estados Unidos por decisão política, no exato momento em que a demanda explode.
O Brasil tem uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo. Existe infraestrutura de data center no país com energia contratada, travada por questões regulatórias temporárias, a uma fração do custo americano ou coreano, e sem a guerra de moratórias que trava a expansão lá fora. Isso não é torcida. É aritmética. Quando a compressão que Burry prevê acontecer, e ela vai acontecer em parte, o capital não desaparece. Ele migra para onde operar custa menos. Sempre foi assim.
Terceiro erro: o múltiplo sem o contexto do crescimento. Burry diz que o setor negocia a 16 vezes a receita, 65% acima da média de 200 dias, em níveis de 2000. Tecnicamente, os números estão certos.
Mas em 2000 não existia um quadrilhão de tokens sendo processados por mês. Em 2000 não havia infraestrutura de IA respondendo por uma parcela tão relevante do crescimento de lucro do S&P 500. A Goldman Sachs projeta que os beneficiários de infraestrutura de IA responderão por cerca de metade do crescimento de lucro por ação do índice em 2026. Múltiplo alto com crescimento real e acelerado não é a mesma coisa que múltiplo alto com crescimento imaginário. Essa diferença é tudo.
O dado que Burry não citou. O Financial Times publicou um estudo com quase 22 mil empresas americanas. As que investem mais pesado em IA estão contratando mais rápido que as concorrentes. O emprego de nível inicial também cresceu. A automação ainda está na fase de expansão de capacidade, não de substituição em massa.
De um lado, Burry diz que é o começo do fim. Do outro, o homem que construiu a AWS diz que vai faltar gente. Eu sei de qual lado estou. E tenho posições que provam isso
E Jeff Bezos, fundador da Amazon, que opera a maior praça de pedágio do mundo, disse que a IA deve criar escassez de trabalhadores, não o desemprego. A tecnologia amplia a produtividade humana e abre espaço para novas atividades.
De um lado, Burry diz que é o começo do fim. Do outro, o homem que construiu a AWS diz que vai faltar gente. Eu sei de qual lado estou. E tenho posições que provam isso.
O que Burry acertou, e o que ele errou. Acertou o diagnóstico. A fase de exuberância é real. Vai ter compressão. Alguns ativos vão sofrer. Quem chegou tarde, se endividou demais e não tem vantagem de custo operacional vai pagar caro.
Mas ele errou o paciente. Quem vai sofrer são os laboratórios de modelo mal capitalizados e os operadores de data center sem vantagem estrutural. Quem vai ganhar é quem é dono do pedágio, quem tem energia barata assegurada, quem construiu infraestrutura física com disciplina e visão de longo prazo.
O propósito deste artigo é rebater Michael Burry. Mas o que ele revela, no fim, é o tamanho da oportunidade para o Brasil, não apenas para se tornar um protagonista global em IA, mas também para construir um grande legado de infraestrutura em geração e armazenamento de energia, transmissão de dados e tudo mais que cerca e abastece um grande data center.
Eu coloco meu nome nisso. A conta chega.
Walter Maciel Neto é CEO da AZ Quest Investimentos, gestora independente com quase R$ 40 bilhões sob gestão.