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CEO da Multiplan diz que insegurança pesa mais que a inflação e tira até 20% das vendas à noite

Por Redação 04 de agosto de 2026 10 min de leitura


A falta de segurança pública nas cidades brasileiras já afeta diretamente o consumo. No varejo, o impacto está na redução do número de pessoas circulando à noite nas ruas e, portanto, gastando menos. Este cenário, hoje uma das maiores preocupações dos brasileiros, já afeta inclusive a gigante dos shoppings Multiplan.

Em entrevista ao NeoFeed, o CEO da Multiplan, Eduardo Peres, afirma que a falta de segurança pública tem resultado na diminuição do movimento nos corredores de seus centros de compras a partir das 19 horas, especialmente no Rio de Janeiro.

Segundo o empresário, essa situação causa uma redução potencial de 15% a 20% nas vendas, nas três últimas horas de funcionamento dos shoppings.

“Não há uma cidade em que a gente ande tranquilo hoje. É um mal que aflige o país e vai atrapalhando o desenvolvimento. Percebo isso muito nos shoppings, principalmente os mais afastados, como o ParkJacarepaguá e ParkShopping Campo Grande”, afirma Peres.

Institutos de pesquisa têm mostrado que segurança pública hoje está entre os principais temas apontados pelos brasileiros que precisam ser enfrentados pelo poder público.

Pesquisa divulgada na segunda-feira, 3 de agosto, pelo Instituto Nexus/BTG Pactual traz que, para 19%, saúde é o maior destaque negativo do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, seguido por segurança, com 18%, e baixo crescimento da economia, com 12%. Foram 2.002 entrevistas em todos os estados.

Para o CEO da Multiplan, é necessário que o assunto seja tratado de forma consistente pelos candidatos a presidente, que, na visão dele, precisam apresentar um plano para mudar este cenário.

“Esse assunto impacta na vida de todo mundo muito mais do que economia. Conviver com inflação é ruim, mas não é horrível. Quem tem filho, fica muito preocupado. O problema de segurança está na rotina do brasileiro hoje. E isso é muito ruim. É inescapável que este assunto seja discutido durante a eleição”, diz Peres.

Mesmo com este impacto provocado pela insegurança, o volume de vendas dos lojistas dos 20 shoppings da Multiplan cresceu 7,7% no segundo trimestre, sobre a mesma base do ano anterior, e alcançou R$ 6,8 bilhões.

Com taxa de ocupação de 96,2%, a companhia alcançou inadimplência líquida negativa de -1,2% no trimestre. Para o CEO da Multiplan, no entanto, este resultado não tem relação com uma possível melhora da economia.

“É o lojista que não quer ficar inadimplente, no lugar que pode salvá-lo. É uma prioridade para ele. É também eficiência da companhia, que melhorou os seus processos. Não é reflexo da economia”, afirma Peres.

Neste sentido, o empresário diz que a companhia só voltará a pensar em construir novos shoppings quando o cenário econômico for extremamente positivo, “com um crescimento de 5% a 6%”.

Até lá, o caminho será de seguir fazendo revitalizações e expansões das atuais unidades. Entre 2023 e o segundo semestre deste ano, a companhia já aportou R$ 1,7 bilhão nesses ciclos. Há planos de novas expansões até pelo menos 2028.

O lucro líquido da companhia no segundo trimestre foi de R$ 427,4 milhões, alta de 61,7% sobre o resultado alcançado no segundo trimestre de 2025

No acumulado de 2026, as ações MULT3 registram alta de 6,2%. Em 12 meses, a valorização é de 13,5%. O valor de mercado da Multiplan é de R$ 14,6 bilhões.

Acompanhe, a seguir, os principais trechos da entrevista:

O que explica o resultado de crescimento da Multiplan no segundo trimestre, mesmo com o cenário macroeconômico desafiador?
Temos conseguido isso, apesar do país. Nos últimos 20 anos, o Brasil não melhorou. A gente andou para trás. Lá atrás, a nossa bolsa valia US$ 1 trilhão, e a americana valia US$ 7 trilhões. Hoje, a gente segue valendo US$ 1 trilhão [R$ 4,86 trilhões], só que a dos Estados Unidos vale US$ 80 trilhões. Isso dá a noção de como ficamos para trás. É uma constatação apolítica.

E por que andamos para trás?
Regra demais, muita burocracia. Cada cidade tem uma lei. Temos 5.600 municípios. Cada um tem uma legislação. E o governo continua gastando muito e mal. Se o governo dá mais dinheiro [em programas sociais] do que educação, qual é a resposta? Além disso, não há uma cidade em que a gente ande tranquilo hoje. São Paulo e Rio de Janeiro estão assim. É um mal que aflige o país e vai atrapalhando o desenvolvimento. O turista, na hora de escolher o destino, pensa nisso. Ninguém se beneficia da violência. Se as cidades fossem mais seguras, você teria as pessoas mais dispostas a sair de casa.

A Multiplan sente este impacto?
Sim. No Rio, a partir de 19h, 20h, o movimento nos shoppings é muito menor. Percebo isso muito nos shoppings, principalmente os mais afastados, como o ParkJacarepaguá e ParkShopping Campo Grande. No caso de Jacarepaguá, que tem uma região de conflito, depois das 19h ninguém sai na rua. Tem muitas cidades no Brasil que enfrentam este problema.

E o que a companhia tem feito para diminuir este impacto?
Não há o que fazer. Não dá para lutar contra esse problema. Nossa segurança é patrimonial. E a segurança pública é um dever do Estado. A gente cobra, pede providências. Na cidade de São Paulo, por exemplo, nossos shoppings estão conectados com o programa Smart Sampa, da Prefeitura. O poder público precisa intervir.

“Há 15% a 20% a menos de consumo potencial. Se não existisse o problema da segurança, teríamos ruas mais cheias, as pessoas circulando com mais tranquilidade”

O quanto esta situação afeta os negócios da Multiplan?
Há 15% a 20% a menos de consumo potencial. Se não existisse o problema da segurança, teríamos ruas mais cheias, as pessoas circulando com mais tranquilidade. Quando as pessoas viajam para um lugar mais seguro, ficam mais tranquilas e propícias ao consumo. A gente perdeu esta característica de cidade normal. O Brasil tem esse problema e precisa enfrentar. É um flagelo. São quase 50 mil pessoas assassinadas por ano. É mais do que qualquer guerra. E fala-se muito pouco disso.

Na sua avaliação, este tema estará presente no debate eleitoral deste ano?
Esse assunto impacta na vida de todo mundo muito mais do que economia. Conviver com inflação é ruim, mas não é horrível. Quem tem filho, fica muito preocupado. O problema de segurança está na rotina do brasileiro hoje. E isso é muito ruim. É inescapável que este assunto seja discutido durante a eleição. A gente está chegando em uma fronteira do que é aceitável ou não. Seja lá quem vencer a eleição, vai precisar encarar essas questões. Não dá para as cidades continuarem inseguras como estão hoje. É preciso um plano. Esse é um anseio da sociedade. Da mesma forma em relação à dívida pública.

O que precisa ser feito neste sentido?
A nossa realidade é muito ruim. Em breve alcançaremos o patamar um para um da dívida pública em relação ao PIB [hoje está em 82%] e vamos ter dificuldade de refinanciar esta dívida. A discussão sobre o tamanho do Estado tem que acontecer. Não dá mais para fugir do assunto. É um tema complexo, mas precisa ser encarado. Hoje há cada vez menos pessoas pagando imposto, com um Estado cada vez maior.

“A discussão sobre o tamanho do Estado tem que acontecer. Não dá mais para fugir do assunto. É um tema complexo, mas precisa ser encarado”

Dos dois modelos colocados e que polarizam a eleição, quem deve seguir neste caminho?
Qualquer um que sentar na cadeira de presidente, vai precisar de juízo fiscal. Não dá para gastar mais do que arrecada. A gente está nesta trajetória. Tem que mudar. Entendo todo o problema social, mas podemos ter um problema ainda maior. Teremos um cenário adverso no ano que vem. No caso das pessoas que recebem ajuda do governo, isso já virou quase que um direito adquirido. Isso é complicado. Para trazer o Brasil para o equilíbrio fiscal, vai precisar se indispor. Não tem jeito. Isso precisa ser reequilibrado. E sem qualificar a mão de obra, isto não melhora.

Acredita que a taxa de juros, hoje em 14,25% ao ano, vai seguir caindo?
Ainda é muito alto. É 14,25% para quem? Quanto você acha que o lojista, ao conseguir financiamento, paga de juros? Chega a 30% ao ano. Isso é para matar qualquer um. Não à toa que a gente está com o maior nível de recuperação judicial da história. A taxa de juros é a erva daninha dos negócios. Mas a culpa é do Banco Central? Não.

“A taxa de juros é a erva daninha dos negócios. Mas a culpa é do Banco Central? Não”

E de quem é a culpa?
O governo é o maior tomador de juros. Taxa de juros é determinada pelo mercado. Se artificialmente tentarem derrubar a taxa para 5%, 8%, os outros índices explodem. Não segura. A economia tem suas leis. Os juros podem continuar caindo, à medida que afeta demais empresas e o consumo do país. A gente não sente isso nos shoppings, até porque nossas vendas cresceram. Mas temos feito investimentos em expansão. A Multiplan não vai parar de produzir, mas temos que ver em que velocidade.

Essa questão da segurança afeta sua velocidade?
Muito. Para a gente ter mais consumo, é preciso discutir e encarar o problema de segurança nas cidades. O comércio de rua também é muito afetado. O shopping é um ambiente mais controlado, mas como as cidades vão ficando inseguras, as pessoas estão deixando sequer de ir para a rua. A gente está chegando na “teoria do caos”. Quando fica caótica demais, vai precisar surgir uma nova ordem. Não é possível continuar assim.

A Multiplan alcançou inadimplência líquida negativa de locação de lojas no segundo trimestre. Isso tem a ver com a economia?
Não. É o lojista que não quer ficar inadimplente, no lugar que pode salvá-lo. É uma prioridade para ele. É também eficiência da companhia, que melhorou os seus processos. Nossas cobranças são muito proativas. Não é reflexo da economia.

Hoje, a Multiplan tem 20 shoppings no Brasil. O que precisa para ter o vigésimo-primeiro?
Para um shopping novo, é necessário uma economia mais pujante. O Brasil precisa crescer 5% ou 6%. Não dá para construir com um crescimento de 2%. Ninguém está construindo shopping do zero hoje. A gente escolheu o melhor caminho, que foi melhorar o que a gente tem na mão e realizar expansões de nossos shoppings. Estamos melhorando a experiência de nossos clientes. O que eu espero, de fato, é que quem sentar na cadeira de presidente a partir de 2027, entenda a importância de avançar com responsabilidade fiscal.



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Redação

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