Riachuelo ignora juro alto e liga o motor da expansão
O momento da economia brasileira exige cautela das empresas, especialmente de redes varejistas. Preservar caixa e esperar as condições adequadas para o crescimento parecem ser a melhor decisão a ser tomada. A Riachuelo pensa diferente.
Ao apresentar o balanço do segundo trimestre deste ano com lucro líquido recorde de R$ 168 milhões para o período e o 12º trimestre consecutivo de crescimento das vendas nas mesmas lojas (SSS) de vestuário, o CEO André Farber anunciou um novo ciclo de expansão.
“Nosso balanço está bastante robusto e a gente se sente preparado para fazer isso. Vamos começar um processo novo de abertura de lojas e de reformas no segundo semestre”, diz ele ao NeoFeed.
“Pretendemos abrir 14 novas Riachuelos e reformar sete lojas antigas para o novo modelo. Essas 21 lojas já vêm para o novo modelo que estamos chamando de ‘a loja do futuro’”, complementa.
Esse conceito teve um projeto piloto lançado no fim do ano passado em Pinheiros, em São Paulo. Farber afirma que os primeiros resultados são positivos para justificar a expansão, mas ainda não tem indicadores para mostrar a produtividade das novas unidades.
A unidade do ParkShopping Barigui, em Curitiba, está em fase final para ser a primeira loja full da Riachuelo dentro desse modelo chamado ‘Incrivelmente Brasil” da marca.
Na visão de Farber, a Riachuelo passou os últimos anos construindo uma base operacional sólida para voltar a investir mesmo em um cenário macroeconômico que continua desafiador – o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu em 0,25 ponto percentual a taxa Selic, para 14%, na reunião de quarta-feira, 5 de agosto.
O negócio de vestuário, por exemplo, registrou crescimento de 7,8% nas vendas nas mesmas lojas (SSS). Mais importante, na visão de Farber, é que o desempenho aconteceu sobre uma base alta – a Riachuelo entregou um SSS de 15,8% no segundo trimestre do ano passado.
Ao mesmo tempo, a margem bruta do segmento atingiu 59,2%, recorde para um segundo trimestre e a 11ª expansão consecutiva, levando o Ebitda da operação de mercadorias a R$ 342 milhões.
“A nossa margem está crescendo que nem um reloginho suíço. A gente cresceu 1,9 ponto percentual em relação ao segundo trimestre de 2025 e 1,9 ponto no segundo trimestre de 2024. Tem uma coincidência feliz: isso dá quase seis pontos de melhora de margem ao longo de três anos”, afirma o CEO.
A melhoria de margem da Riachuelo contraria a previsão de analistas, que projetavam as varejistas brasileiras tendo de abrir mão de margens para enfrentar a concorrência de rivais como Shein e Temu.
Segundo Farber, o ganho de rentabilidade da rede varejista não veio de aumentos generalizados de preços, mas da capacidade de convencer o consumidor a comprar produtos de maior valor agregado.
“O consumidor não está pagando mais porque aumentamos preços. Muitas vezes ele está comprando uma camiseta de R$ 59 no lugar de uma de R$ 39 porque percebe mais tecnologia, inovação e qualidade naquele produto”, afirma o CEO.
Para o executivo, essa mudança é consequência de uma transformação mais profunda do negócio. “A Riachuelo evoluiu de uma empresa de varejo que vende moda para uma empresa de moda que possui o varejo.”
Concentração de negócios
Em vez de dispersar capital em negócios paralelos, a Riachuelo vendeu seu shopping center – o Midway Mall, localizado em Natal, por R$ 1,61 bilhão para um grupo de investidores liderado pela Capitânia Capital em dezembro de 2025 -, e reforçou investimentos na cadeia produtiva, ampliou sua fábrica, aumentou o número de estilistas, acelerou colaborações com designers e passou a investir mais em tecnologia aplicada aos tecidos e ao desenvolvimento dos produtos.
Essa integração vertical também ganhou escala. Quando Farber assumiu a empresa, a fábrica produzia cerca de 27 milhões de peças por ano. Em 2026, a expectativa é atingir aproximadamente 40 milhões de unidades, um crescimento próximo de 50%.
Em um ambiente de juros elevados, crédito caro e consumo ainda pressionado, o desempenho da Midway mostra que esse é o caminho a seguir.
O braço financeiro da rede varejista teve um crescimento de 6,7% da receita financeira no primeiro semestre deste ano na comparação como mesmo período do ano passado, para R$ 1,34 bilhão.
Os números mostram melhora da inadimplência entre 15 e 90 dias, de 7,5% para 6,9%, embora os atrasos acima de 90 dias tenham avançado de 17,4% para 18,9%.
Desde o ano passado, o grupo mudou a estratégia da Midway. Em vez de ampliar continuamente o portfólio de produtos financeiros, a instituição passou a concentrar esforços nas linhas consideradas centrais para o negócio, priorizando rentabilidade e qualidade da carteira.
Segundo o CEO, a disciplina na concessão de crédito permitiu atravessar um ambiente de juros elevados mantendo a inadimplência praticamente estável.
“Decidimos fazer menos produtos, focar nos produtos mais core do nosso negócio e isso tem nos ajudado muito a executar com foco e disciplina”, diz ele.
Na B3, a ação RIAA3 acumula queda de 18,5% no ano. O valor de mercado da rede varejista é de R$ 3,9 bilhões.