Natura faz “mea culpa” após balanço sem grandes surpresas
A Natura confirmou os alertas que havia antecipado há cerca de um mês em sua prévia do resultado do segundo trimestre de 2026 ao divulgar o balanço consolidado do período na noite da segunda-feira, 10 de agosto.
Entre abril e junho, a receita líquida consolidada foi de R$ 5,17 bilhões, uma queda anual de 9,1%. A empresa ressaltou que a performance foi afetada pela operação brasileira, cuja receita recuou 14,8%, para R$ 3,07 bilhões.
O grupo observou que o negócio no Brasil foi pressionado pela falta de produtos, por um descasamento tributário pontual, decorrente de alterações no regime de substituição tributária do ICMS no estado de São Paulo, e pelo cenário macro adverso. E aproveitou para fazer uma espécie de “mea culpa”.
“É bem verdade que o mercado tem mostrado um consumo muito fraco”, disse João Paulo Ferreira, CEO da Natura, a jornalistas no início da tarde de terça-feira, 11 de agosto. “Mas, a essência da nossa frustração com o resultado veio de problemas internos e de desafios de execução fundamentalmente autoimpostos”.
Não foram poucos os projetos no centro desses desafios, que foram turbinados pelo cenário macro e o impacto tributário. No período, a empresa implementou novas políticas de preços e regras comerciais entre canais.
Esse movimento veio em linha com uma demanda das consultoras da operação, que vinham destacando um cenário de competição “desleal” em relação a outros canais, em virtude dos parâmetros estabelecidos e praticados em cada um deles.
Em paralelo, a Natura concluiu no trimestre a transição de 100% dos contratos de franquia para um novo modelo, com base nas vendas sell out, o que fez com que os franqueados deixassem de comprar produtos por um determinado prazo para adequarem o mix às novas regras.
O principal efeito negativo veio, porém, com a implementação do novo sistema de gestão da SAP. Apesar de bem-sucedida, a iniciativa trouxe uma série de problemas à tona decorrentes da implantação, concluída no primeiro trimestre, de um novo sistema de planejamento integrado.
“Quando paramos a empresa para implementar o SAP, houve um estresse natural da cadeia de abastecimento”, disse o CEO. “E quando voltamos a operar, percebemos que ela estava desequilibrada, por conta desse outro sistema, que parecia estável, mas cujos parâmetros não estavam bem feitos”.
Esse desalinhamento teve como principal consequência uma grande escassez de produtos, que, por sua vez, impactou substancialmente a atividade e a produtividade das consultoras no trimestre.
Segundo Ferreira, a Natura já tomou medidas para corrigir esses problemas. Nesse contexto, ele ressaltou que o grupo está operando com menos da metade do que foi o pico da falta de produtos e que a recuperação está sendo gradual e tem melhorado a cada semana.
O executivo também frisou que a empresa voltou a fazer investimentos, de fato, no fim de 2024, depois de anos com aportes abaixo do esperado em função da reorganização da operação, após a companhia colocar um ponto final em sua ambição de criar um grupo global de cosméticos.
“Nós voltamos a investir em muitas iniciativas complexas e todas ao mesmo tempo. E isso aumentou o perfil de risco de execução, o que se manifestou agora nesse trimestre”, disse. “Por outro lado, esses efeitos são transitórios e temos total confiança no caminho que estamos pavimentando para o grupo”.
Discurso alinhado
CFO da Natura, Sivia Vilas Boas engrossou esse coro. “Mesmo nesse cenário adverso e num contexto de juros altos e incertezas macro, nós geramos caixa, lucro líquido e desalavancamos a companhia”, afirmou a executiva.
Em números, a Natura encerrou o segundo trimestre com um lucro líquido de R$ 35 milhões, o que representou uma retração de 92,1% sobre o mesmo intervalo de 2025.
O grupo atribuiu o desempenho a fatores como uma deterioração de R$ 320 milhões no resultado financeiro líquido, decorrente dos custos de liquidação de derivativos e de uma base de comparação desfavorável com igual período, um ano antes, associada a efeitos cambiais contábeis.
Em outra linha, a Natura fechou o período com uma dívida líquida de R$ 3,86 bilhões, contra R$ 3,98 bilhões, há um ano. Já a alavancagem da operação, medida pela relação dívida líquida/Ebitda, ficou em 2,06 vezes, ante o índice de 2,18 vezes no mesmo trimestre de 2025.
A companhia destacou que a redução na dívida líquida refletiu a geração de R$ 342 milhões em fluxo de caixa livre e entrada de R$ 160 milhões de um FIDC, parcialmente compensadas pelo pagamento de juros sobre a dívida e a liquidação de derivativos.
Outro ponto ressaltado pela CFO foi o desempenho da operação nos mercados hispânicos, cuja receita de R$ 2,1 bilhões teve alta de 0,7%, em reais, e de 7,2% em moeda constante. Já o Ebitda dessa divisão Ebitda cresceu 92,7%, para R$ 160 milhões.
Em contrapartida, o Ebitda da Natura Brasil recuou 23,8%, para R$ 662 milhões. Enquanto as vendas das marcas Natura e Avon caíram, respectivamente, 14,5% e 22,5% no País. Já O Ebitda consolidado da companhia ficou em R$ 620 milhões, uma redução anual de 5,9%.
No balanço, a Natura também ressaltou a decisão de não entregar uma expansão da margem Ebitda em 2026 frente aos 14,1% registrados em 2025. Segundo o grupo, isso exigiria a redução de investimentos essenciais em valor de marca, marketing, P&D e outras alavancas de crescimento.
Apesar dessa atualização, a companhia disse ainda esperar nesse ano uma geração de caixa superior ao montante reportado em 2025, mantendo a alavancagem dentro de um patamar que considera saudável.
Poucas surpresas
Com recomendação neutra e preço-alvo de R$ 10 para a ação, o Citi observou que o balanço veio fraco, como esperado, com poucas surpresas, mas com alguns pontos positivos. Entre eles, a recuperação e desempenho nos mercados hispânicos, que compensaram a receita abaixo do esperado no Brasil.
O banco apontou que a margem bruta de 65,7% no período – queda anual de 70 pontos-base – veio 10 pontos base abaixo de suas estimativas e do consenso. E que, em contrapartida, o Ebitda superou suas estimativas, que apontavam para a cifra de R$ 557 milhões. Mas fez ressalvas:
“Embora a Natura já tivesse sinalizado tendências de enfraquecimento, o trimestre ainda ficou aquém do esperado, particularmente abaixo da linha operacional”, escreveu o banco. “Por enquanto, permanecemos cautelosos”.
Na mesma linha, o BTG Pactual ressaltou que o balanço “não foi bonito, mas já era esperado”, com indicadores em linha com suas expectativas. O banco apontou, porém, que a composição do resultado veio um pouco diferente do esperado.
Essas “surpresas” vieram na receita do Brasil, 2% abaixo da estimativa do BTG. E, em contrapartida, na recuperação na operação hispânica, cuja receita superou em 5,6% as projeções dos analistas do banco, que também citou a entrada da Advent como sócia do grupo.
No último mês, como parte de um acordo entre as duas empresas, a gestora americana de private equity alcançou uma fatia equivalente a 8% no grupo, o que lhe dará o direito de indicar dois membros adicionais para o conselho da Natura, o que será ratificado em assembleia no fim deste mês.
“Em nossa opinião, a viabilidade do investimento depende cada vez mais da capacidade da Advent de apresentar uma execução mais robusta, renovar a gestão onde necessário, repensar a estratégia de canais e vendas e restaurar a alavancagem operacional”, escreveu o BTG, com recomendação neutra e preço-alvo de R$ 12 para a ação.
Já o Itaú BBA, que tem recomendação neutra e preço-alvo de R$ 10 para o papel, destacou que os desafios de curto prazo seguem na mesa, dado que a visibilidade sobre a recuperação da receita no Brasil permanece limitada e que a pressão sobre essa linha deve levar mais tempo para se normalizar.
“Combinado com um ambiente de consumo mais desafiador, isso nos mantém em compasso de espera por enquanto”, afirmou o banco. “No entanto, reiteramos que a geração de caixa, concentrada principalmente no quarto trimestre, deve fornecer a âncora de avaliação mais tangível em meio à elevada incerteza quanto aos resultados financeiros”.
As ações da Natura registravam alta de 3,34% por volta de 13h15, cotadas a R$ 8,35, avaliando a empresa em R$ 11,4 bilhões. No ano, os papéis acumulam uma valorização de 12%.
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