EXCLUSIVO: Euro Securitizadora atrasa pagamentos e vira alvo na Justiça
A Euro Securitizadora reúne todos os símbolos de uma empresa instalada no coração do mercado financeiro brasileiro. A sede fica na avenida Faria Lima, em São Paulo, e a companhia integra um grupo que atua com crédito, seguros, consórcios e outros produtos financeiros.
O dinheiro que financiava sua operação vinha de mais de 4,2 mil investidores que foram atraídos pela promessa de retornos de até 19% ao ano.
A estrutura da Euro, porém, era bastante diferente daquela de um banco, uma corretora ou de uma oferta pública tradicional de renda fixa – como os investidores têm se deparado sempre que um novo caso de inadimplência estoura no mercado financeiro.
A Euro Securitizadora é a mais recente empresa do sistema financeiro a apresentar problemas. Desde 1º de junho, parte dos investidores deixou de receber o dinheiro no vencimento dos títulos. Essa é mais uma operação milionária que conseguiu crescer na fronteira menos visível do mercado de capitais brasileiro.
Ligada ao Grupo Euro17 e controlada pelo empresário IK Cavalcanti Albuquerque, a Euro Securitizadora levantou centenas de milhões de reais por meio de debêntures privadas vendidas diretamente a pessoas físicas.
De acordo com relatórios da companhia que o NeoFeed teve acesso, de dezembro de 2024 (último disponível), a Euro Securitizadora carregava um passivo de R$ 741 milhões.
Na Justiça, a 1ª Vara Empresarial e Conflitos de Arbitragem do Foro Central de São Paulo determinou o bloqueio de ativos financeiros da Euro Securitizadora em um processo movido por uma investidora.
A decisão foi tomada antes mesmo da citação da companhia, para impedir a movimentação dos recursos até o cumprimento da ordem.
Em petição apresentada posteriormente nos mesmos autos e consultada pelo NeoFeed, a Euro afirmou ter “tomado conhecimento, na presente data, da existência de bloqueio judicial incidente sobre suas contas bancárias” e pediu acesso urgente ao processo. Segundo a empresa, a indisponibilidade dos ativos “impacta diretamente suas atividades operacionais”.
A decisão não significa que todos os pedidos de investidores tenham sido aceitos. Em outros processos, a Justiça recusou bloqueios antecipados.
Na 36ª Vara Cível, por exemplo, um pedido de arresto de R$ 1,087 milhão foi indeferido porque o juiz não identificou provas de dissipação patrimonial. A decisão registrou que “o mero inadimplemento, desacompanhado de elementos que indiquem esvaziamento patrimonial, não autoriza a medida”.
Na 37ª Vara Cível, outro pedido de bloqueio, desta vez numa execução de R$ 206,6 mil, também foi negado.
Esses processos são apenas a manifestação judicial de um problema que começou meses antes. Até 31 de julho deste ano, a Euro acumulava 74 reclamações no Reclame Aqui, com investidores relatando atrasos de 60 a 79 dias e, em alguns casos, sucessivos acordos de pagamento que não teriam sido cumpridos.
Outro vencimento, em 1º de julho, continha uma cláusula que permitia a prorrogação por até 30 dias. O prazo, portanto, terminava no início de agosto. Uma reclamação registrada dois dias depois afirmava que o pagamento continuava pendente.
A Euro respondeu pelo próprio canal que encaminharia o caso para análise, sem apresentar prazo para quitação.
Securitizadora dentro de um grupo financeiro
A Euro Securitizadora não é um banco nem uma instituição financeira supervisionada pelo Banco Central. É uma companhia que atua na estruturação e securitização de créditos e que integra um grupo empresarial com diferentes operações ligadas ao mercado financeiro.
Na apresentação institucional do Grupo Euro17 aparecem, ao lado da Euro Securitizadora, negócios como Euro17 Crédito, EuroPrime Securitizadora, Euro17 Seguros e Euro17 Consórcios.
O controlador IK Cavalcanti Albuquerque também está à frente da Euro17 Sociedade de Crédito Direto, a SCD do grupo. Diferentemente da securitizadora, a SCD é uma instituição financeira autorizada e supervisionada pelo Banco Central.
Mas, na prática, o investidor que adquiria uma debênture não estava aplicando dinheiro na instituição financeira regulada pelo BC. Estava, sim, comprando uma dívida emitida pela Euro Securitizadora.
A arquitetura empresarial coloca sob uma mesma marca negócios submetidos a regulações distintas. Se para o investidor o nome Euro17 pode funcionar como denominador comum, para os reguladores são empresas diferentes, com regras, controles e supervisões também diferentes.
A SCD foi autorizada a operar pelo Banco Central em fevereiro de 2025. Mas os números mais recentes mostram uma operação ainda pequena. No primeiro trimestre de 2026, segundo dados do BC, tinha apenas R$ 845 mil em ativos e R$ 8 mil em receitas de operações de crédito.
A grande máquina de captação do grupo era a Euro Securitizadora, que foi criada em 2017. No ano seguinte, fez sua primeira emissão de debêntures, no valor de R$ 10 milhões.
O salto começou a ser preparado em janeiro de 2021, quando uma assembleia de acionistas aprovou uma segunda escritura de emissão. O programa previa 18 séries e um limite de R$ 100 milhões.
Os papéis eram da chamada espécie subordinada e não tinham garantia real. Foi com esse desenho que a Euro passou de uma pequena emissão para uma operação de captação dirigida a pessoas físicas, com títulos de 12 a 24 meses, juros fixos entre 1,4% e 1,5% ao mês e pagamento do principal e dos rendimentos no vencimento.
Em julho de 2024, uma terceira escritura ampliou o programa de emissões. E ao fim daquele ano o passivo total da companhia havia alcançado R$ 741 milhões.
O crescimento não ocorreu por meio de uma distribuição convencional em plataformas de corretoras. A Euro montou sua própria estrutura comercial.
Documentos consultados pelo NeoFeed mostram profissionais contratados como pessoas jurídicas sob o cargo de “Gerente de Negócios & Investimentos”, com atribuição expressa de captação de clientes. Em ao menos um desses contratos, a remuneração fixa era de R$ 7 mil mensais, além do reembolso de despesas.
A própria expansão institucional do Grupo Euro17 também era apresentada em torno da prospecção de investidores. Ao anunciar a abertura da operação no Rio de Janeiro, o grupo chegou a informar que a unidade teria entre seus objetivos ampliar a captação de novos clientes e investidores.
As debêntures privadas
As debêntures eram apresentadas aos investidores como emissões privadas. A legislação do mercado de capitais, porém, estabelece critérios para caracterizar uma distribuição pública de valores mobiliários. Entre eles a procura por adquirentes por meio de empregados, agentes ou intermediários.
O tamanho alcançado pela operação da Euro Securtizadora, o número de pessoas físicas atingidas e a existência de uma estrutura profissional voltada à prospecção colocam uma pergunta sobre onde termina uma colocação privada e onde começa uma distribuição ao público.
O relatório de crédito distribuído pela Euro aos investidores ajuda a entender a lógica financeira prometida para sustentar os rendimentos. Segundo o documento, com data-base de dezembro de 2024, parte dos recursos obtidos com as debêntures era destinada a operações de crédito direto.
Para pessoas jurídicas, a companhia informava taxas ao redor de 4,5% ao mês. No crédito destinado à pessoa física, elas chegavam a 17% ao mês.
Era nesse spread entre o custo da captação e as taxas cobradas de seus clientes que estava a principal lógica econômica do negócio. Mas o problema aparece quando se observa a qualidade dessa carteira.
Embora a Euro afirmasse utilizar “mais de 1.155 variáveis” em sua análise de crédito e manter estruturas internas de prevenção, cobrança e recuperação, a inadimplência da carteira de crédito pessoal terminou 2024 em 37,8%. Apenas 33,6% dos contratos estavam em dia. Todo o restante apresentava algum grau de atraso ou já havia sido negativado.
Para Felipe Gosuen da Silveira, advogado especializado em fraude financeira e recuperação de ativos e que representa credores em processos contra a companhia, os números colocam em dúvida a capacidade da carteira de gerar recursos suficientes para honrar os títulos.
“Prometer 19% ao ano a milhares de investidores tendo uma carteira com quase 40% de inadimplência e apenas 33,6% em dia sugere que os resgates dependiam de captação nova, e não do resultado da operação”, afirma Silveira.
Risco na própria companhia
A estrutura das debêntures privadas acrescentava mais uma camada de risco. Não havia um agente fiduciário independente acompanhando a operação em nome dos investidores – mecanismo típico de emissões públicas e que funciona como representante dos debenturistas.
Também não havia um Fundo de Investimento em Direito Creditório (FIDC) separando a carteira de créditos do balanço da própria Euro. Na prática, o investidor assumia diretamente o risco da securitizadora.
Outro ponto é que, por serem subordinadas, as debêntures ocupam uma posição inferior na hierarquia de credores em um cenário de insolvência.
Em uma eventual quebra, seus titulares ficam à frente dos acionistas, mas atrás de outros credores com preferência maior – um contraste sobre como produtos de renda fixa muitas vezes são percebidos pela pessoa física.
A Euro17, segundo seu CEO Marcelo Jubayr Carvalho da Silva afirmou em entrevista ao podcast Talksquest, chegou a montar uma estrutura com cerca de 30 diretores e perto de mil funcionários distribuídos por quatro prédios.
O grupo também se expandiu para negócios fora do mercado financeiro, de acordo com dados da Receita Federal consultados pelo NeoFeed. Albuquerque está ligado à 17tickets, plataforma de venda de ingressos, à imobiliária de alto padrão 17imóveis e a restaurantes como Cozinha da Filoca e Dona Mirinha, todos na região da Faria Lima.
Em agosto de 2025, dez meses antes do primeiro vencimento de debêntures não pago, Albuquerque também criou uma nova companhia em sociedade com Marcelo Carvalho.
Batizada de Aurum Holding Empresarial Ltda., a empresa foi aberta com capital social de R$ 100 mil, dividido igualmente entre os dois executivos.
O NeoFeed procurou a Euro Securitizadora por e-mail e enviou questionamentos sobre o bloqueio judicial de seus ativos, o não pagamento das debêntures, a estrutura societária ligada a IK Cavalcanti Albuquerque e a ausência de agente fiduciário independente.
Até a publicação desta reportagem, a companhia não havia respondido. O espaço permanece aberto para manifestação.