ARTIGO: A direita brasileira conseguirá recomprar a alma que vendeu ao bolsonarismo?
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O escândalo envolvendo Flávio Bolsonaro revela o dilema da direita brasileira, que, para conquistar votos, comprometeu suas melhores ideias. Desde 2013, a mudança no sentimento popular e a insatisfação com o modelo estatal do lulopetismo criaram um ambiente propício para a ascensão de Jair Bolsonaro, que se tornou um fenômeno eleitoral, apesar de suas posições distantes do liberalismo.
Com a volta de Lula, a direita começou a se movimentar, mas a figura de Flávio Bolsonaro desestimulou outras candidaturas viáveis. Enquanto Caiado e Zema, governadores bem avaliados, lutam para se destacar nas pesquisas, a base bolsonarista parece desinteressada em qualidade administrativa.
O futuro da direita depende de sua capacidade de se desvincular do bolsonarismo e se tornar competitiva de forma autônoma, ou se permanecerá refém de uma narrativa que não prioriza a eficiência e a responsabilidade fiscal.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
“Você pode ter as melhores ideias do mundo, mas sem votos elas não significam nada.”
Frase atribuída a Lyndon B. Johnson, presidente dos Estados Unidos entre 1963 e 1969.
O escândalo da gravação de Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro a Daniel Vorcaro escancara o grande paradoxo da direita brasileira: para emplacar boas ideias, parte dela vendeu a alma ao diabo.
Para entender onde estamos, é preciso voltar um pouco no tempo.
A partir de 2013, o sentimento da população brasileira começou a mudar. O avanço da classe média trouxe novas exigências. O desejo de empreender e a ambição por ascensão profissional cresceram e passaram a competir com a tradicional valorização dos benefícios estatais e das carreiras públicas.
Em paralelo, o modelo de Estado desenvolvido pelo lulopetismo começou a demonstrar sinais de fadiga. O estatismo, a corrupção e a enorme ineficiência do setor público levaram o país a déficits fiscais crescentes e a um risco cada vez maior de insolvência.
Foi nesse ambiente que surgiu Jair Bolsonaro: um político até então inexpressivo que, por uma conjunção singular de fatores, transformou-se em um dos maiores fenômenos eleitorais da história do Brasil.
Historicamente nacionalista, chavista e com posições econômicas distantes do liberalismo, Bolsonaro ocupou o espaço do antipetismo deixado pelo PSDB e se elegeu presidente da República como o “candidato da direita”.
Com a ajuda de Paulo Guedes, Tarcísio de Freitas e Tereza Cristina — um trio tecnicamente qualificado — o governo Bolsonaro aprofundou reformas iniciadas ainda na gestão Michel Temer e trouxe algum fôlego liberal à economia.
Mas a volta de Lula recolocou o país em uma trajetória fortemente expansionista. O avanço dos gastos públicos e a deterioração fiscal ajudaram a empurrar o Brasil novamente para a rota da instabilidade. Os juros nominais próximos de 15% e reais ao redor de 10% são hoje consequência direta desse quadro e representam o principal calcanhar de Aquiles do atual governo.
O desgaste do presidente Lula estimulou diferentes setores da direita a se movimentarem. Surgiram pré-candidaturas variadas, de Tarcísio de Freitas a Ratinho Jr., passando até por um Ciro Gomes repaginado como conservador liberal.
Mas, do alto de seu encarceramento político e judicial, Jair Bolsonaro decidiu apostar no filho 01, Flávio.
Ainda que, nos bastidores, lideranças de praticamente todo o espectro político reconhecessem a fragilidade eleitoral e intelectual do senador, Bolsonaro enfrentou poucos questionamentos internos.
Flávio surfou nas pesquisas e chegou a ultrapassar Lula — ainda que dentro da margem de erro. Sem praticamente falar, sem apresentar uma única proposta relevante ou indicar nomes para um eventual governo, já se comportava como presidente eleito.
Isso foi suficiente para desestimular outras candidaturas viáveis da direita. Tarcísio, Ratinho e Eduardo Leite permaneceram em seus cargos e abandonaram o jogo presidencial.
Até que Flávio Bolsonaro eventualmente recue, sobraram Caiado e Zema: dois governadores excepcionalmente bem avaliados em seus estados, com histórico consistente de gestão e ideias modernas para o país. Exatamente o tipo de perfil de que o Brasil parece precisar.
Ainda assim, ambos seguem patinando nas pesquisas, com cerca de 4% das intenções de voto cada.
Nenhuma pesquisa aferiu ainda o impacto total da ligação de Flávio com o “irmão” Vorcaro, mas os trackings já indicam uma queda relevante do senador, estimada entre 10 e 15 pontos.
A questão agora é outra: essa queda beneficiará alguém?
Caiado e Zema reagiram de formas distintas ao escândalo.
Caiado tergiversou. No mais tradicional estilo tucano, afirmou que a gravação preocupava, mas insistiu que o verdadeiro objetivo continua sendo derrotar Lula e o PT.
Zema foi mais direto. Classificou o episódio como inaceitável e responsabilizou Flávio de maneira explícita. Em troca, recebeu imediatamente o apelido de “Zória”, acompanhado dos memes e ataques impulsionados pelo conhecido gabinete do ódio.
E é justamente aí que reside o grande paradoxo da direita brasileira.
Hoje, praticamente não existe direita competitiva sem bolsonarismo. As boas ideias, os programas liberais e as gestões eficientes de vários governadores e líderes conservadores tornam-se insuficientes sem os cerca de 25% do eleitorado fortemente identificado com Bolsonaro.
Ao mesmo tempo, boa parte dessa base parece pouco interessada em qualidade administrativa, responsabilidade fiscal ou eficiência de gestão. Sua mobilização é movida sobretudo por ressentimento, polarização, intolerância, desinformação e culto à personalidade.
As próximas semanas mostrarão se algum candidato de direita conseguirá se viabilizar de forma autônoma ou se continuarão todos, consciente ou inconscientemente, trabalhando pela reeleição do atual presidente.
Até aqui, Lula mal precisou atravessar o meio-campo. Seus adversários já marcaram vários gols contra.
Resta saber se a direita brasileira conseguirá recomprar a alma que vendeu ao bolsonarismo — ou se continuará refém do que é imprestável.
*Ricardo Lacerda é empresário.