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Fundos sustentáveis ganham escala no crédito privado, chegam a R$ 60 bilhões e batem o CDI

Por Redação 01 de junho de 2026 10 min de leitura


Depois de sair do hype para o ceticismo, os fundos sustentáveis começam a ganhar escala no Brasil em uma etapa menos barulhenta e mais estruturada. A disciplina de análise começa a provar resultados, enquanto grandes gestoras entram em um jogo que antes parecia restrito a casas e estratégias de nicho.

Dados da Anbima mostram que os fundos classificados como IS, de investimento sustentável, chegaram a R$ 45,9 bilhões em patrimônio líquido em abril de 2026, ante R$ 28,1 bilhões em dezembro de 2024. Na comparação com dezembro de 2023, quando somavam R$ 7,5 bilhões, o volume multiplicou por mais de seis.

O avanço também aparece na quantidade de produtos. O número de fundos IS saiu de 92 em dezembro de 2023 para 177 em dezembro de 2024 e chegou a 202 em abril de 2026. Somados aos fundos relacionados à sustentabilidade, o mercado se aproxima de R$ 60 bilhões e ultrapassa 330 mil investidores.

O salto recente acontece depois de praticamente três anos cheios desde a entrada em vigor das regras da Anbima para a classificação dos fundos IS, em 2022. Esse histórico começa a enfrentar uma das resistências ao tema: a percepção de que fundos sustentáveis sacrificariam rentabilidade em nome de uma agenda ambiental, social ou de governança.

Para Carlos Takahashi, diretor da Anbima, já existe base temporal para comparar produtos sustentáveis e fundos tradicionais com características semelhantes. “Acreditamos que a diferença ocorre mais no longo prazo, mas essa janela já mostra resultados bem positivos”, diz.

Cerca de metade dos fundos IS com rentabilidade nos últimos 12 meses superou o CDI, de 14,8%, em um mercado que teve dificuldade para batê-lo. Segundo o boletim de fundos da Anbima de abril, a média de rentabilidade das estratégias de renda fixa em 12 meses foi de 11,9% e a dos multimercados, de 13,7%.

Essa nova fase dos fundos sustentáveis no Brasil é puxada pela renda fixa. E não por fundos temáticos de ações, como ocorreu na primeira onda do ESG.

Pelos dados da Anbima, dos R$ 45,9 bilhões em fundos IS em abril de 2026, R$ 33,9 bilhões estavam em renda fixa, cerca de 74% do total. Em seguida aparecem os FIPs, com 11%, FIDCs, com 5%, e multimercados e ações, ambos com 4%.

Para Takahashi, esse movimento está diretamente ligado ao desenvolvimento do mercado de crédito privado. O avanço das emissões de debêntures, CRAs, CRIs, FIDCs e debêntures de infraestrutura criou mais ativos elegíveis para que as gestoras estruturassem produtos sustentáveis.

Esse crescimento também tem mostrado que a análise de risco ESG pode ser um diferencial na avaliação de crédito. Em setores como infraestrutura, agronegócio, imobiliário e energia, a avaliação de práticas ambientais, sociais e de governança deixou de ser apenas reputacional. Passou a influenciar risco, rating, precificação e capacidade de pagamento.

Segundo a BNP Paribas Asset Management Brasil, a incorporação de critérios ESG na análise dos emissores ajudou a gestora a evitar exposição a empresas envolvidas em defaults recentes, reforçando a ideia de que sustentabilidade, no crédito, está menos associada a marketing e mais à gestão de risco.

“Muitas gestoras de crédito tiveram problemas com defaults e nós nunca tivemos. Porque todas essas empresas não passaram pela nossa análise ESG. E, assim, saímos dessa fase provando para os investidores o valor disso, além da redução de volatilidade”, diz Henri Rysman, gestor e responsável pela área de crédito privado e especialista em ESG da BNP Paribas Asset Management Brasil.

Na SulAmérica Investimentos, Daniela Gamboa afirma que a família de fundos ESG soma cerca de R$ 14 bilhões e que boa parte do crescimento recente se concentrou em crédito privado. “O investidor percebeu que dava para unir o retorno atrativo da renda fixa com o financiamento de emissores de boas práticas socioambientais e isso traz um bom retorno”, diz a head de crédito privado.

Para Takahashi, esse movimento marca uma mudança de patamar na indústria. As gestoras de nicho foram fundamentais para abrir caminho e provocar o mercado, mas a escala depende da entrada das grandes casas, com capacidade de distribuição em bancos, plataformas, previdência, private banking e redes de varejo. “As grandes casas estão incorporando isso como uma prática dentro da asset”, afirma.

A Régia Capital é um exemplo dessa combinação entre especialização e escala. Criada a partir de uma parceria entre JGP e BB Asset, a gestora ficou operacional em maio de 2024 com cerca de R$ 500 milhões sob gestão. Em abril deste ano, ultrapassou R$ 16 bilhões, com parte relevante em fundos de crédito privado líquido e FIDCs de microcrédito para energia renovável.

Quem compra

O NeoFeed conversou com BB Asset, Bradesco Asset, Itaú Asset, SulAmérica, BNP Paribas Asset Management, Vinci Compass e Régia Capital, que juntas afirmam gerir mais de R$ 85 bilhões em estratégias sustentáveis ou com integração ESG.

Pelas conversas com as assets, o crescimento tem sido puxado por três públicos: institucionais, previdência e wealth management, especialmente private banking e family offices.

Nos institucionais, a procura combina horizonte de longo prazo, maior governança e pressão regulatória. Fundos de pensão, fundações, seguradoras, RPPS e entidades de previdência complementar passaram a olhar os fundos IS não apenas como uma tese sustentável, mas como uma forma de incorporar critérios ASG às políticas de investimento de maneira mais formal, auditável e comparável.

Na BNP Paribas Asset Management Brasil, a base evoluiu em etapas. Primeiro vieram seguradoras europeias com operação no Brasil, que buscavam replicar localmente práticas já adotadas por suas matrizes. Depois, investidores institucionais, como fundos de pensão, fundações e RPPS. Mais recentemente, segundo Rysman, cresceu a demanda por mandatos exclusivos IS por parte das entidades fechadas de previdência complementar.

“Esse movimento reforça que a agenda deixou de ser concentrada em nichos e vem se ampliando de forma consistente entre diferentes perfis de investidores”, diz Rysman.

A SulAmérica Investimentos vê uma dinâmica parecida. O maior volume da estratégia IS da casa está em fundos de previdência privada. Mas, quando a busca é intencional pelo selo ESG ou IS, o destaque são os fundos de pensão, impulsionados também pela Resolução Previc nº 23.

Na alta renda, o crescimento tem outra lógica. O avanço vem menos por exigência regulatória e mais por alinhamento de portfólio, preservação de patrimônio, reputação e legado.

Na Bradesco Asset, a analista Yara Formigoni diz que há interesse crescente de private banking e family offices. “Esses investidores têm buscado alinhar seus portfólios a valores ligados à sustentabilidade, sem abrir mão de retorno e gestão de risco.”

O varejo, por enquanto, ainda aparece como uma frente mais incipiente. A exceção está em públicos mais jovens, que algumas gestoras já veem incorporando sustentabilidade como parte natural da decisão de investimento.

Na BB Asset, a base de cotistas de até 17 anos em fundos sustentáveis cresceu mais de 2.100% nos últimos 18 meses. Mas, na leitura da indústria, a expansão para o grande varejo ainda depende de educação financeira, performance comparável e distribuição em larga escala.

“Estamos vendo tanto um movimento institucional, impulsionado por regulação e governança, quanto um movimento de base, impulsionado por transformação geracional”, diz Fabricio Reis, diretor comercial da BB Asset.

Além do crescimento doméstico, algumas gestoras veem espaço para que os fundos sustentáveis brasileiros atraiam mais capital estrangeiro.

Régia Capital, Itaú Asset, Vinci Compass e BNP Paribas Asset Management citam o interesse de investidores internacionais — especialmente europeus, multilaterais, bancos de desenvolvimento e fundos soberanos — por teses ligadas a transição energética, bioeconomia, crédito de carbono, soluções baseadas na natureza e minerais críticos.

“Não faltam recursos para investir em fundos sustentáveis e sim o conforto por parte destas instituições de assinar os cheques para os players locais”, diz Bragança, diretor comercial da Régia Capital.

O que vem pela frente

Pensando nesse público e nessas perspectivas, as gestoras ouvidas pela reportagem têm ao menos 12 lançamentos feitos ou em vista ligados a fundos sustentáveis neste ano — considerando produtos lançados, fundos em captação, estratégias em fase final e estruturas ainda em discussão.

A maior parte confirma a mudança de perfil da indústria: os novos produtos estão menos concentrados em fundos temáticos de ações e mais voltados a crédito privado, previdência, infraestrutura, descarbonização, minerais críticos, carbono, bioeconomia e soluções climáticas.

Na BB Asset, a casa colocou no mercado em 2026 o BB Renda Fixa Crédito Privado ASG LP IS RL, seu primeiro fundo de crédito IS com gestão própria, e fez a oferta pública do BB Ore Régia Capital Minerais Críticos FIC FIP, ligado à transição energética.

Na Régia Capital, a gestora prepara um fundo de debêntures incentivadas IS para as principais plataformas, um fundo de crédito high yield e está em roadshow para um FIP de Minerais Críticos, selecionado em chamada pública da BNDESPar e da Vale, com estimativa de mobilizar cerca de R$ 1 bilhão. Também discute a estruturação de um fundo de carbono.

Na previdência, Itaú Asset, SulAmérica e BNP Paribas Asset Management Brasil têm produtos recentes ou em preparação. A Itaú prepara uma estratégia ESG de renda fixa para previdência privada; a SulAmérica lançou em 2025 um fundo de previdência com uma seguradora parceira; e a BNP está na fase final de lançamento de um fundo aberto de previdência IS de crédito.

Em mercados privados, a Vinci Compass lançou o Vinci Impacto e Retorno V, com target de R$ 1,2 bilhão, foco em empresas de médio porte dos setores de agronegócio, saúde, varejo e serviços, com ao menos 20% do capital comprometido destinado a empresas do Nordeste e da Amazônia Legal.

“Temos observado uma evolução consistente no interesse por estratégias relacionadas à sustentabilidade, especialmente em classes como private equity, crédito e ativos reais, onde é possível capturar oportunidades diretamente ligadas à transição climática e ao uso eficiente de recursos naturais”, diz Julya Sotto Mayor Wellisch, sócia e global head jurídica, de compliance e sustentabilidade da Vinci Compass.

Apesar do crescimento, os fundos IS ainda são pequenos diante da indústria brasileira de fundos, com participação inferior a 1% do patrimônio total. Para Takahashi, o próximo salto depende de três frentes: avanço das grandes gestoras, desenvolvimento do mercado de crédito e infraestrutura e maior capacidade do Brasil de atrair capital estrangeiro para transição energética, economia verde e infraestrutura sustentável.

O país, diz ele, precisa “vender melhor” suas qualidades. A COP30 mostrou uma parceria público-privada consistente e uma agenda real de investimentos sustentáveis, mas o Brasil ainda comunica pouco a qualidade de sua infraestrutura de mercado, regulação e oportunidades.

O desafio inclui risco cambial, veículos de investimento, blended finance, organismos multilaterais, bancos de desenvolvimento e iniciativas como Eco Invest, Fundo Clima e chamadas do BNDES.

“Eu não tenho dúvida de que a perspectiva não é só manter, mas exponencializar o crescimento do patrimônio em fundos sustentáveis, que serão relevantes na indústria pelo potencial que o Brasil tem”, afirma Takahashi.



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Redação

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