Brasil se vê diante de encruzilhada com fertilizantes
O Brasil vive um paradoxo raro: é uma potência agrícola que depende do exterior para garantir a própria produção. Em fertilizantes nitrogenados, a vulnerabilidade é explícita — cerca de 80% da ureia consumida no País vem de fora, principalmente da Rússia, da China e do Oriente Médio.
A guerra na Ucrânia, os choques de preços e a volatilidade logística deixaram claro que essa dependência tem custo alto. É nesse cenário que a Petrobras decidiu retomar as obras da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN-III), em Três Lagoas (MS).
Para o agronegócio, a retomada da UFN-III a princípio seria uma boa notícia. Atualmente, o Brasil depende quase totalmente da importação de ureia, principal fonte de nitrogênio usada na agricultura. O fertilizante é aplicado em culturas como milho, cana-de-açúcar, trigo, arroz e café, ajudando no crescimento das plantas e na formação de grãos.
Para o governo, por sua vez, a promessa de suprir 15% da demanda nacional de ureia representa mais uma iniciativa para reforçar o discurso de soberania e segurança alimentar da atual gestão em ano eleitoral.
Com investimentos de mais de R$ 5 bilhões, apoio do novo PAC e capacidade nominal projetada para 3.600 toneladas por dia de ureia e 2.200 toneladas por dia de amônia, o empreendimento iniciado em 2011 teve as obras interrompidas em 2014. A expectativa da empresa é entregar a planta entre o fim de 2028 e o início de 2029.
Magda Chambriard, presidente da Petrobras, explicou que a estratégia da Petrobras é duplicar a capacidade de produção de fertilizantes no Brasil por meio de unidades próprias, em um movimento alinhado aos objetivos do Plano Nacional de Fertilizantes.
“Estamos considerando a hipótese de duplicar todas essas nossas fábricas, seja a Ansa, as Fafens ou a UFN-III, no Centro-Oeste”, afirmou a executiva, durante o evento de relançamento da unidade, na quinta-feira, 25 de junho.
A retomada da obra também abre um debate que vai além da economia: o futuro dos fertilizantes. A UFN-III foi concebida há 15 anos, com base em gás natural e processos tradicionais de produção de amônia e ureia — tecnologias que o mundo começa a substituir por alternativas de baixo carbono, como a amônia verde produzida a partir de hidrogênio renovável.
A discussão se não valeria retomar a construção da unidade já mirando uma transição para amônia verde – o que definiria se a unidade de Três Lagoas será moderna ou obsoleta em poucos anos – foi abordada por especialistas consultados pelo NeoFeed.
A conclusão é que a retomada da produção de ureia pela Petrobras é uma notícia superficialmente positiva, mas que esconde desafios estruturais significativos que passam ao largo da opção pela amônia verde.
A viabilidade e o impacto real no agronegócio, por exemplo, dependem inteiramente da competitividade do preço do produto, que por sua vez está atrelada ao custo do gás natural no Brasil — atualmente muito superior ao de concorrentes internacionais.
Sem uma solução para baratear o gás natural ou a criação de subsídios, a usina só será competitiva em cenários de alta extrema nos preços internacionais, não resolvendo de forma estrutural a dependência do Brasil por fertilizantes importados. Ou seja, o produtor rural, pressionado por custos e crédito restrito, continuará priorizando o preço em detrimento de alternativas sustentáveis ou da produção nacional mais cara.
Acelerar essa transição, por sua vez, também esbarra em dificuldades intransponíveis. A opção renovável, feita a partir de hidrogênio verde, não depende de gás natural, e sim de água e eletricidade. Mas, novamente, o custo para adotá-la é ainda mais elevado, uma vez que a transição ainda é incipiente, com possibilidade de ser adotada em larga escala a partir de 2030-2040.
Dilema do agro
Marcelo Soto, head de operações e inteligência de suprimentos da SCA – empresa especializada em agronegócio, focada em comercialização de biocombustíveis (etanol e biodiesel), inteligência de mercado e compras em grupo – vai direto ao ponto.
“O gás natural representa entre 60% e 80% do custo de produção da ureia”, diz Soto. Ele afirma que, para competir com grandes produtores globais como Rússia, Irã e Catar, o custo do gás no Brasil precisaria ser em torno de US$ 3 por milhão de BTUs.
“Atualmente, o custo no mercado nacional pode chegar a US$ 15, tornando a produção brasileira inviável sem subsídios ou uma drástica redução no preço do gás”, acrescenta. Segundo ele, a proximidade da nova usina, situada no Centro-Oeste, com o gasoduto da Bolívia (Gasbol) gera uma expectativa de custo competitivo, mas isso ainda é uma incerteza.
Neste sentido, a adoção de tecnologias sustentáveis, que geralmente são mais caras, só será considerada se não impactar negativamente a viabilidade financeira da lavoura.
Outro fator aprofunda o dilema entre a versão tradicional e a sustentável e, de quebra, a viabilidade de comprar a produção da Petrobras. O mercado não depende apenas da ureia – o produtor rural arbitra entre diferentes fontes de nitrogênio buscando o menor preço. Isso porque existem outras fontes de nitrogênio, como o sulfato de amônio (majoritariamente da China) e o nitrato de amônio (da Rússia). O produtor rural troca a fonte do nutriente de acordo com o que está mais barato no mercado.
“Para a ureia da Petrobras ser vendida, ela precisa ter um preço competitivo não apenas contra a ureia importada, mas também contra essas outras fontes alternativas de nitrogênio”, diz Soto. Segundo ele, a produção da Petrobras tem sido historicamente instável e opera em regime “spot” – oferta pontual quando a fábrica está operando e o preço é favorável.
“Essa falta de continuidade impede que os distribuidores e produtores contem com a oferta nacional para firmar contratos anuais, forçando-os a depender do mercado de importação para garantir o suprimento”, afirma Soto, esvaziando parte do discurso do governo de que ativar a produção nacional seria suficiente para baratear a demanda.
Procurada, a Petrobras não retornou ao pedido de posicionamento sobre quanto a empresa estima que possa reduzir o custo de insumos para agricultores brasileiros e se considera adaptar a planta de Três Lagoas para tecnologias limpas.
Luiz Viga, presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde (ABIHV), contextualiza a decisão do governo em retomar a produção da planta da Petrobras de Três Lagoas no cenário geopolítico global, destacando disrupções na cadeia de suprimentos de fertilizantes, com a guerra na Ucrânia e, mais recentemente, do Irã .
“O fertilizante mais caro é aquele que não se tem”, afirma. O executivo argumenta que, embora o custo inicial seja maior, o hidrogênio verde é a solução competitiva de longo prazo para os fertilizantes no Brasil, pois depende de água e eletricidade, recursos abundantes no País.
“O principal risco para o sucesso dessa transição no Brasil não é a tecnologia, mas a ameaça ao custo competitivo da energia elétrica”, afirma. “A alta de custos elétricos, como encargos da CDE e leilões com baixo deságio, ameaça a viabilidade não só da indústria de hidrogênio, mas de toda a eletrificação da economia.”
Segundo ele, o custo do hidrogênio verde vem caindo significativamente. Viga cita que a amônia verde, antes entre US$ 2 mil e US$ 3 mil por tonelada, já tem projetos na Índia e na China na faixa de US$ 700.
Com a China adotando o hidrogênio verde como estratégia nacional, a queda de custos tende a acelerar globalmente, como ocorreu com painéis solares e baterias. “O Brasil precisa desenvolver polos próprios, como o do Complexo do Pecém (Ceará), para aproveitar essa tendência”, diz.
Viga cita o Profert, programa federal que concede incentivos fiscais e crédito para ampliar a produção nacional de fertilizantes, como um avanço. “O objetivo é diminuir a dependência externa e fortalecer toda a cadeia brasileira de insumos agrícolas.”
Ele se diz otimista sobre decisões de investimento em projetos de fertilizantes verdes até 2028, com primeiras plantas operando até 2030. “Espero que, entre 2030 e 2040, o fertilizante verde já tenha presença relevante no mercado nacional, ainda que talvez não seja dominante”, acrescenta Viga.