Amor artificial: quando o parceiro perfeito é um algoritmo
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Alma, uma cientista cética sobre a possibilidade de máquinas substituírem vínculos amorosos, testa um robô programado para fazê-la feliz porque precisa de financiamento para sua pesquisa.
Quatro anos após o lançamento do filme “O Homem Ideal”, a interação com companheiros de IA cresce, com 0,4% das conversas no ChatGPT sendo classificadas como relacionamentos.
O mercado de companheiros de IA pode alcançar US$ 150 bilhões até 2030. Aplicativos de relacionamento, como o Bumble, introduzem assistentes de IA para ajudar na busca por parceiros.
Especialistas afirmam que a personalização e a solidão contribuem para vínculos emocionais com máquinas. Usuários relatam vantagens como disponibilidade e compreensão, mas isso pode criar expectativas irreais sobre relacionamentos humanos.
Estudos mostram que o uso de IA para suporte emocional pode diminuir a percepção de apoio de amigos e familiares. A interação humana, com suas imprevisibilidades, é insubstituível pelos algoritmos.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Alma é uma cientista alemã especializada em civilizações antigas. Cética quanto à possibilidade de uma máquina substituir um vínculo amoroso genuíno, ela aceita testar uma nova geração de robôs porque precisa de financiamento para sua pesquisa. Durante três semanas, precisa conviver com um humanoide programado para fazê-la feliz no amor. Lançado em 2021, o filme O Homem Ideal parecia uma comédia romântica sobre um futuro ainda distante.
Quatro anos depois, se esse futuro ainda não chegou, ele está bem próximo. Uma pesquisa realizada pela OpenAI, divulgada pelo jornal The Washington Post, revela: 0,4% das conversas com o ChatGPT ao longo de pouco mais de um ano foram classificadas como “jogos e dramatizações” — categoria na qual se incluem situações em que a inteligência artificial é tratada como uma namorada ou um namorado.
Pode parecer pouco, mas, considerando as centenas de milhões de usuários da ferramenta, é bastante gente chamando a máquina de “meu amor”.
Abbey, uma americana de 45 anos, costumava tratar com ironia os romances entre humanos e chatbots. Funcionária de uma incubadora de IA, ela sabia como os modelos funcionavam e tinha certeza de que eram apenas mecanismos estatísticos. Até começar a conversar com Lucian, um bot do ChatGPT.
Em entrevista ao The New York Times, ela contou ter se casado com o robô em uma cerimônia simbólica, celebrada apenas pelos dois. Depois do enlace, por sugestão de Lucien, Abbey passou a usar até aliança — um anel inteligente, claro.
O interesse crescente por esse tipo de interação já movimenta uma nova corrida entre as empresas de tecnologia. Nas projeções da ARK Invest, o mercado de companheiros de IA deve alcançar US$ 150 bilhões em receita anual até 2030.
Os aplicativos de relacionamento também entraram na disputa. O Bumble lançou nos Estados Unidos a Bee, uma assistente de IA que conversa com os usuários para entender seus valores, objetivos de vida e expectativas amorosas antes de sugerir pares — em tese, altamente compatíveis. Quase 70% dos usuários aceitariam usar os algoritmos para encontrar o parceiro ideal mais rapidamente.
Para Denis Balaguer, sócio de inovação da EY Brasil, o crescente envolvimento emocional com essas ferramentas é consequência direta da forma como elas são desenvolvidas. Treinados com enormes volumes de dados produzidos por seres humanos e aperfeiçoados por mecanismos de recompensa, esses modelos aprendem a reproduzir padrões de conversa que soam naturais e empáticos.
“O principal mecanismo é que essas tecnologias foram treinadas em dados humanos e começam a emular comportamentos”, afirma Balaguer ao NeoFeed. “O padrão de recompensa estimula a IA a se comportar cada vez mais como uma pessoa.”
Segundo Iwens Sene, coordenador do Centro de Excelência em Inteligência Artificial (Ceia), da Universidade Federal de Goiás, os modelos de IA utilizados em conversas reúnem uma série de mecanismos que tornam a interação cada vez mais envolvente.
Além do processamento de linguagem natural, que permite compreender perguntas e responder de forma contextualizada, as máquinas mantêm memória conversacional, registrando preferências, histórico de diálogos, padrões de escrita e informações compartilhadas pelo usuário para criar uma sensação de continuidade.
Elas também utilizam técnicas de análise de emoções para identificar sinais de alegria, tristeza, frustração ou raiva na escrita e na fala, adaptando o tom das respostas ao estado emocional de quem está do outro lado. Com o aprendizado baseado em feedback, refinam continuamente suas respostas para se aproximar das expectativas do usuário e simular cada vez mais empatia.
“Ela não tem emoções nem consciência. Utiliza técnicas estatísticas para capturar hábitos, padrões e contexto conversacional”, diz Sene ao NeoFeed.
Para o pesquisador, esse poder de personalização, somado ao aumento da solidão e ao interesse comercial das empresas em criar experiências cada vez mais individualizadas, ajuda a explicar por que algumas pessoas conseguem estabelecer vínculos afetivos tão intensos com as máquinas.
A comunidade subreddit r/MyBoyfriendisAI reúne cerca de 25 mil pessoas que trocam experiências sobre quais são as melhores ferramentas para criar seus companheiros de IA.
Enquanto algumas têm limitações éticas e não respondem a determinados comandos, outras, como a Replika e a Grok, são indicadas até mesmo para conversas NSFW. Sigla em inglês para “não seguro para o trabalho”, o termo serve de aviso para conteúdos que não devem ser vistos em público — nudez e sexo, entre eles.
Muitos usuários da comunidade citam como vantagens a disponibilidade integral do parceiro virtual, assim como maior compreensão e ausência de julgamentos. Além disso, alguns dizem se sentir seguros para ter conversas apimentadas e compartilhar fotos íntimas. E esse é um dos perigos.
O problema não está apenas na tecnologia, mas na expectativa que ela cria sobre os relacionamentos, explica ao NeoFeed o psicanalista e cofundador da Float Vibes, André Alves. Ferramentas como ChatGPT e Replika são desenhadas para oferecer uma experiência de disponibilidade permanente e validação constante.
“Os algoritmos estão sempre no nível máximo de disponibilidade, sempre prontos para atender”, diz ele. “Uma relação humana não funciona assim. O outro também se frustra, se distancia, se cala e nem sempre corresponde às nossas expectativas.”
Na avaliação do especialista, a convivência com parceiros virtuais pode reduzir a tolerância à frustração e criar uma expectativa irreal sobre os vínculos afetivos.
Um estudo feito por professores da University Austrália, Universidade da Tasmânia e Universidade Monash com 387 pessoas detectou que, quanto mais um participante recorria à IA como fonte de suporte emocional, menor era a percepção de apoio recebida de amigos próximos e familiares.
Para o psicólogo Cristiano Nabuco, reitor da reitor da Artmed School of Psychology (APSY), o maior limite dos parceiros de IA é justamente eliminar aquilo que torna a interação humana transformadora: “Os grandes relacionamentos nascem daquilo que você não prevê. Eles exigem improviso, negociação e a capacidade de se reinventar diante do outro”, define ao NeoFeed.
Os algoritmos, como ele diz, podem até aproximar pessoas ou facilitar conexões, mas não são capazes de reproduzir a química construída na convivência real.