Durigan fala em “milha final” da agenda econômica; Galípolo vê antídoto para armadilha de juros altos
O governo Lula chegou à “milha final” de sua agenda econômica. Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, ela passa justamente pelos dois temas que mais incomodam o governo: os juros elevados e o endividamento público.
“Está faltando a milha final. É fundamental que se traga o compromisso fiscal, ele é parte central do quebra-cabeça”, disse Durigan no palco da Expert XP, na manhã de sexta-feira, 24 de julho.
Para o ministro da Fazenda, o equilíbrio das contas públicas é a condição para que o país atravesse um cenário internacional marcado por incertezas e desafios.
A declaração de Durigan foi uma tentativa de reforçar a mensagem que a responsabilidade fiscal faz parte da agenda – e o governo tem dificuldade de transmitir ao mercado financeiro.
Durigan afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou que todas as propostas de campanha relacionadas ao tema passem pelo Ministério da Fazenda. “Não faz sentido passar três anos e meio como numa briga insana para corte de gasto e recomposição de receita para abrir mão disso”, disse ele.
O ministro argumentou que o governo buscou ajustar as contas desde o primeiro dia de forma estrutural, “sem se corromper”, e que esse trabalho permitiria projetar um superávit primário de 0,5% no próximo ano, o primeiro em quase uma década. Segundo ele, a dívida pública deve começar a recuar a partir de 2030.
Mas é justamente aí que começa a parte mais difícil da “milha final”. O próximo passo, na visão de Durigan, será discutir a redução dos gastos obrigatórios para abrir espaço para investimentos e tornar o Estado mais eficiente.
O ministro afirmou que não há razão para evitar o debate sobre a qualidade do gasto público e defendeu que o tema seja enfrentado depois das eleições.
Nos corredores da Expert XP, no entanto, gestores ouvidos pelo NeoFeed são céticos aos esforços do governo por um ajuste fiscal e apostam, ao contrário, em aumento de gastos em um eventual quarto mandato do presidente Lula
O fator produtividade
O Banco Central olha para uma economia que começa a ser transformada por novas tecnologias. Gabriel Galípolo, que subiu ao palco logo após a saída de Durigan, afirmou que o caminho para ajudar a economia a sair da armadilha dos juros elevados passa pela produtividade, uma variável ainda a ser alcançada na economia brasileira.
O presidente do BC afirmou que a inteligência artificial pode aumentar a resiliência das empresas e da economia diante da volatilidade dos preços internacionais e dos Treasuries, ao permitir ajustes mais rápidos de custos, processos e decisões.
“A inteligência artificial é um os drivers de análise de todo banqueiro central hoje, ao lado do petróleo e do El Niño”, disse Galípolo.
Ele, no entanto, foi cuidadoso ao analisar a forma como trabalhadores realizam tarefas e como isso pode produzir ganhos de eficiência. Na visão de Galípolo, a tecnologia pode aumentar a capacidade de adaptação da economia, mas ainda precisa provar quanto crescimento adicional será capaz de produzir.
Se a inteligência artificial permitir que empresas façam mais com os mesmos recursos, ou ajustem custos e processos com mais rapidez, ela pode ajudar a reduzir alguns dos efeitos de choques externos sobre a economia.
A “milha final” de Durigan passa por uma economia capaz de produzir mais, ajustar-se rapidamente às mudanças tecnológicas e capaz de absorver choques com menos impacto sobre os preços. Em ambas, não se resolve com mais arrecadação ou juros mais altos.