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O vinho e o vento: como a soja ameaça os parreirais do Rio Grande do Sul

Por Redação 25 de julho de 2026 7 min de leitura


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A viticultura do Rio Grande do Sul enfrenta sérios riscos devido à contaminação por herbicidas hormonais utilizados nas lavouras de soja, que se expandiram para cerca de 6,6 milhões de hectares nos últimos 20 anos.

Estima-se que 4 mil hectares de vinhedos já sofreram danos, resultando em prejuízos de R$ 350 milhões.

O estudo “Impactos econômicos dos herbicidas hormonais na viticultura do Rio Grande do Sul” revela que a contaminação se tornou um risco permanente, afetando investimentos e o desenvolvimento da vitivinicultura.

Apesar de novas regras para restringir o uso de herbicidas, como o 2,4-D, a situação permanece crítica, especialmente na Campanha Gaúcha, onde a topografia favorece a soja.

Produtores, como a Vinícola Guatambu, mudaram suas práticas, mas ainda enfrentam contaminação. Outras regiões, como o Vale Central, também sofrem perdas significativas na produção de uvas, com variedades brancas sendo as mais afetadas.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

Os vinhos da Campanha Gaúcha e das novas regiões vinícolas do Rio Grande do Sul estão sob ameaça. E o perigo vem com o vento. Nas últimas duas décadas, a área plantada com soja nos pampas dobrou e hoje chega a cerca de 6,6 milhões de hectares. Com a expansão da cultura, herbicidas hormonais usados nas lavouras da oleaginosa passaram a atingir parreirais localizados a quilômetros de distância.

Distribuídos por 45 municípios, cerca de 4 mil hectares de vinhedos já sofreram danos — uma extensão equivalente a quase 10% de toda a área ocupada por videiras no estado. Entre 2018 e 2024, cerca de 700 hectares deixaram de ser cultivados, um prejuízo estimado em R$ 350 milhões.

Esse é o cenário retratado no estudo Impactos econômicos dos herbicidas hormonais na viticultura do Rio Grande do Sul, a ser lançado oficialmente em 6 de agosto.

Encomendada pelo Consevitis-RS, instituto responsável pelo desenvolvimento e fortalecimento da cadeia produtiva da uva e do vinho no estado, e elaborada pela Fundação Empresa-Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a pesquisa analisou cerca de 400 casos confirmados de contaminação entre 2018 e 2024.

A conclusão: os efeitos dos herbicidas hormonais sobre as videiras deixaram de ser ocorrências isoladas e passaram a representar um fator permanente de risco para a vitivinicultura gaúcha — com impactos sobre investimentos, expansão dos negócios e desenvolvimento da atividade em diferentes regiões.

Por pressão dos vitivinicultores, o Rio Grande do Sul adotou, nos últimos anos, uma série de regras para restringir o uso desses defensivos. O agricultor de soja, por exemplo, é obrigado a informar previamente à Secretaria Estadual da Agricultura cada aplicação do produto. Também não pode pulverizar os produtos por via aérea nem aplicá-los quando o vento estiver forte.

“Essas normas, contudo, não foram suficientes”, diz Luciano Rebellatto, vice-presidente do Consevitis-RS, em entrevista ao NeoFeed. O novo estudo tem por objetivo servir de base para a criação de novas regras e para trazer ferramentas de monitoramento.

Se a Serra Gaúcha está protegida pelo relevo acidentado, que dificulta o plantio de soja, no extremo sul do estado o cenário é outro.

Ali, a Campanha Gaúcha se consolidou como a nova fronteira vitivinícola do Brasil e já é a segunda maior região produtora de vinhos do país. Ao mesmo tempo, a sua topografia plana impulsionou a expansão do cultivo mecanizado da soja, aproximando as plantações dos grãos dos parreirais.

Não por acaso, foi da Campanha que partiu a primeira ação civil pública movida contra o Estado do Rio Grande do Sul para restringir o uso do herbicida 2,4-D, o mais utilizado nas lavouras de soja.

Embora a Justiça tenha proibido recentemente sua aplicação dentro dos limites da Indicação de Procedência (IP) Campanha Gaúcha, a decisão ainda não transitou em julgado.

Como cabem recursos, produtores e vinícolas seguem sem segurança jurídica. A restrição, além disso, vale apenas para o 2,4-D. Outras formulações de herbicidas hormonais, como o dicamba, continuam autorizadas.

Terra arrasada

O herbicida  2,4-D desregula o metabolismo da videira e, com isso, as folhas reduzem a superfície ativa de fotossíntese das folhas

Na prática, o problema vai além da disputa judicial e já alterou as estratégias de quem cultiva uvas em áreas próximas às lavouras de soja.

É o caso da Vinícola Guatambu, em Dom Pedrito, no coração da Campanha. A família Pötter cultiva também soja e arroz e cria gado, mas decidiu a abandonar os herbicidas hormonais depois que os primeiros sinais de contaminação apareceram nos vinhedos, em 2017.

Desde então, adotou práticas de agricultura regenerativa na soja, mas isso não eliminou o problema. Os herbicidas dos vizinhos continuam a chegar com o vento. “A soja é o produto número um do Brasil e do Rio Grande do Sul, a pressão política é muito grande”, diz Valter Pötter, sócio da empresa.

Em uma propriedade de 12 mil hectares, apenas vinte são ocupados por videiras. Ainda assim, essas duas dezenas de hectares de videiras respondem por cerca de 25% do faturamento da fazenda.

“Em anos bons, a soja rende R$ 1,2 mil por hectare. No nosso caso, o vinho rende R$ 300 mil”, afirma a enóloga Gabriela Pötter. Além disso, para cada 500 hectares de soja, ela  emprego uma pessoa. No vinho, é uma pessoa por hectare.

”Ao adoecer e matar os vinhedos, os herbicidas hormonais impactam também a geração de renda e empregos”, lembra a professora Shana Sabbado Flores, uma das coordenadoras da pesquisa do Feeng.

Defensivos como os produtos à base do 2,4-D simulam a ação do fitormônio do crescimento. O herbicida entra pelas folhas e pelas raízes, circula por toda a planta e desregula seu metabolismo. Eles deformam as folhas e reduzem a superfície ativa de fotossíntese.

Com isso, a planta perde capacidade de formar os brotos que darão origem às futuras safras de uva, a formação de gemas reprodutivas, explica Leonardo Cury, reitor da Universidade Livre do Vinho — Maricá, especialista em fisiologia da videira e um dos coordenadores do novo estudo: “A gente percebe que a planta vai definhando ano a ano até deixar de produzir. Aí a pessoa acaba desistindo da produção”.

O problema, porém, não se restringe à Campanha Gaúcha. Outras regiões do estado continuam sem uma proteção específica contra os herbicidas hormonais. É o caso do Vale Central. Lá, a Vinícola Velho Amâncio já perdeu 80% de sua capacidade produtiva.

“Em algumas parcelas, a perda de produção chegou a 100%”, diz a proprietária Aline Fogaça. “Nos últimos dez anos, implantamos mais de 10 mil mudas sem sucesso.”

Uma das fundadoras da Aliança pela Fruticultura Gaúcha, ela faz questão de frisar: o herbicida não permanece na planta e, por isso, não oferece risco à saúde. Outras culturas, como as de maçã, azeitona e nozes-pecã, também são afetadas.

Determinadas variedades de uva são mais sensíveis. As brancas costumam sofrer mais.

“Eu tinha 3,5 hectares de Gewürztraminer, mas tive de arrancar quase tudo”, conta ao NeoFeed a enóloga Rosana Wagner, dona da Vinícola Cordilheira de Sant’ana, em Santana do Livramento. Presidente da Associação Vinhos da Campanha, ela completa: “Hoje tenho apenas 0,3 hectare. Salvei alguns pés só para fazer o meu vinho”.



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Redação

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