A pescaria nos M&As: investidores estratégicos estão tomando o lugar das gestoras de private equity
Em um momento em que os fundos de private equity enfrentam dificuldades para captar novos recursos e adotam uma postura mais conservadora, o investidor estratégico vem despontando na ponta compradora.
Esse grupo de investidores, que realiza aportes visando não apenas retornos financeiros imediatos, mas também vantagens estratégicas e operacionais de longo prazo, está aproveitando o momento para abocanhar rivais ou montar posições, sem necessariamente avançar de imediato para a tomada de controle.
As operações com esse perfil vêm ganhando corpo nos últimos anos. Levantamento feito pela Seneca Evercore para o NeoFeed apurou que a participação relativa dos investidores estratégicos em relação aos financeiros em operações privadas de M&A passou de 88% para 93% de 2021 até o primeiro semestre deste ano.
E o que se vê é que esses investidores também estão avançando na bolsa de valores, em um momento em que os múltiplos estão nos menores níveis históricos.
A presidente da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP), Priscila Rodrigues, diz que a redução do chamado dry powder — o capital disponível para novos investimentos pelos fundos de private equity — tem tornado os investidores estratégicos mais competitivos nas disputas por ativos.
“Como há muitas empresas ainda nas carteiras dos private equities e menos recursos retornando aos investidores, o volume de capital disponível para investir ficou menor. E, quando isso acontece, os fundos ficam muito mais seletivos”, afirma Rodrigues.
Uma análise feita pela Bain & Company em parceria com a ABVCAP mostra que, no ano passado, foram registradas 11 operações de saída por parte dos fundos de private equity, abaixo das 17 apuradas em 2024 e das 27 registradas em 2021. O levantamento analisou uma amostra de operações que exclui aquisições complementares, imóveis ou ativos de infraestrutura.
O tempo em que as empresas permanecem nos portfólios também aumentou, segundo o levantamento. Entre 2018 e 2022, as saídas ocorriam, em média, após cinco anos e três meses entre o investimento e o evento de liquidez. De 2023 a 2025, esse prazo passou para seis anos e três meses. No ano passado, o número de saídas como percentual do portfólio foi de 4%, abaixo dos 7% registrados em 2024.
Segundo Rodrigues, a situação dificulta o retorno de recursos aos investidores e a captação de capital novo para muitas gestoras, fazendo com que os fundos sejam mais rigorosos com o preço de entrada e as condições das transações diante das atuais circunstâncias de mercado, para garantir um bom potencial de retorno.
Já os compradores estratégicos se beneficiam do fato de terem mais flexibilidade, conseguindo justificar valuations mais elevados por conta das sinergias operacionais e dos ganhos de mercado que enxergam nas aquisições.
“O private equity tende a querer pagar um pouco menos em momentos mais desafiadores. Já o estratégico pode aceitar um valuation maior porque está olhando participação de mercado, sinergias e crescimento da operação”, diz ela.
Pescando na Bolsa
O momento do mercado também está levando os investidores estratégicos a olhar com mais atenção para companhias abertas. A bolsa brasileira, em níveis historicamente baratos, combinada à menor liquidez do mercado, abriu espaço para que esses compradores invistam em companhias de capital aberto.
“O que é notável é que se inicia uma tendência de as companhias listadas virarem targets de investidores estratégicos”, diz Danilo Borges, head de M&A e Financial Sponsors do Bradesco BBI.
E o interesse está indo além das clássicas transações de compra de controle, como aconteceu recentemente com a Mills, adquirida pelo grupo francês Loxam, e com a Desktop, que foi negociada com a Claro.
Os investidores estratégicos também vêm montando posições relevantes em companhias listadas nos últimos anos. Um caso recente é o da família Muffato, dona de uma rede de supermercados e atacarejo no Paraná, que no ano passado montou uma posição de 10% no Assaí. Outro exemplo é o do fundador da Inpasa, José Odvar Lopes, cujo investimento de 10% na Vibra foi aprovado pelo Cade em fevereiro.
Para Borges, as explicações para esses movimentos vão desde plays puramente financeiros, motivados pelo conhecimento do setor e pela percepção de que a companhia está barata, até estratégias para inicialmente conhecer melhor o ativo, culminando posteriormente em sua incorporação.
Esse foi o caso do Grupo Globo com a Eletromidia. A maior empresa de comunicação do País começou a montar participação na empresa de mídia out of home em 2023 e evoluiu para a compra do controle em 2024.
A avaliação é que a maior sofisticação do mercado de capitais brasileiro também ampliou as possibilidades de investimento, permitindo estruturas mais complexas para aquisição de participações relevantes, facilitando essas transações.
Isso se junta também ao perfil atual das empresas listadas na Bolsa, com muitas delas sem um controlador claramente definido. Isso criou um universo maior de companhias líderes em seus segmentos que podem ser alvo de investidores interessados em construir posições relevantes.
A combinação entre essa característica e os valuations deprimidos cria condições favoráveis para esse tipo de movimentação, segundo Borges, o que deve estimular mais negócios dessa natureza.
“É a fome com a vontade de comer. Você tem ativos estratégicos disponíveis e um mercado que não está precificando essas empresas de forma adequada”, afirma Borges.
Ainda na atividade
Apesar do avanço dos estratégicos, os fundos de private equity não estão passivos. Além da cautela e da necessidade de lidar com menos recursos disponíveis, os gestores também tiveram de mudar a composição de suas estratégias, segundo Anderson Brito, chefe do banco de investimentos do UBS BB.
Segundo ele, o Brasil vem acompanhando uma tendência global, com grandes gestoras direcionando uma parcela crescente de seus recursos para outras estratégias, como infraestrutura, crédito privado e fundos estruturados. “O movimento global é de diversificação dentro do universo de alternativos”, diz Brito.
Os dados da pesquisa da Bain com a ABVCAP mostram que, no ano passado, os fundos realizaram 32 novos investimentos em 2025, acima dos 24 registrados em 2024, amostra que desconsidera aquisições complementares, imóveis ou ativos de infraestrutura.
Outro levantamento da ABVCAP, feito em parceria com a TTR e com uma amostragem maior, apontou que a indústria fechou 2025 com um total de 89 investimentos, acima dos 72 registrados em 2024, mas abaixo das 113 operações de 2021.
Em termos de valores, o volume apurado em 2025 foi de R$ 50,1 bilhões, superior aos R$ 13,3 bilhões de 2024 e aos R$ 21,8 bilhões de 2021. Os dados do ano passado foram bastante influenciados pelo efeito da transação que repassou o controle da Braskem para a gestora IG4 Capital, na casa dos R$ 20 bilhões. Além disso, o valor dos diferentes anos considera apenas operações cujos números foram tornados públicos e informações forneidas pelos assessores.
Enquanto alguns veículos tradicionais encontram mais dificuldades para captar recursos, estratégias ligadas à infraestrutura digital, data centers, energia e crédito estruturado seguem atraindo capital, além de ativos classificados como special situations.
“Quando você soma private equity tradicional, infraestrutura e outras estratégias alternativas, o volume de capital continua muito robusto”, afirma Brito. “O grande movimento global é a diversificação dos investimentos alternativos. Essa é a mudança estrutural que estamos vendo.”
Somam-se a essa preferência por determinadas teses as decisões de muitos gestores de reinvestir nas empresas que já possuem em carteira, em vez de buscar novas aquisições.
Segundo Rodrigues, da ABVCAP, diversos fundos têm optado por realizar aportes adicionais em ativos que conhecem bem, reduzindo os riscos de execução associados a novos investimentos.
Ela destaca que esse é um movimento que nem sempre aparece nas estatísticas, já que muitos desses aportes são feitos diretamente entre fundo e companhia.
“Há gestores que olham para suas empresas e concluem que vale mais a pena colocar mais capital em um ativo que já conhecem do que iniciar uma nova tese”, afirma.