Hapvida tenta virar a página com plano “pé no chão” (e sem promessa de remédio rápido)
Nos últimos 12 meses, a operadora de saúde Hapvida registrou a perda de 114 mil beneficiários do plano de saúde. Somente no último trimestre, o encolhimento foi de 44 mil vidas. A empresa hoje tem 8,68 milhões de usuários, contra uma base de 8,79 milhões no primeiro trimestre de 2025. Outros 7,2 milhões integram os planos odontológicos.
Mas o plano de recuperação da operadora de saúde Hapvida, que enfrentou, há quatro meses, duras críticas da gestora Squadra sobre seu rumo financeiro e de gestão, deve ser lento e sem um remédio rápido.
Quem enxerga que ainda há um caminho grande a ser percorrido é justamente o novo CEO, Luccas Adib, que era o CFO da companhia. Ele assumiu a operação em abril, no lugar do empresário Jorge Pinheiro, da família fundadora, que passou a ocupar a cadeira de presidente do conselho de administração.
“Os temas que estão sendo questionados pelo mercado não vão ser endereçados em um, dois ou três trimestres. O que a gente está fazendo é um trabalho de aperfeiçoamento da companhia, que deve começar a aparecer em alguns trimestres”, afirma Adib, em entrevista ao NeoFeed.
Na prática, o que o mercado espera é uma resposta concreta à carta pública divulgada por Pinheiro, antes de deixar a cadeira de CEO: “Reconheço que os resultados financeiros recentes ficaram aquém do que somos capazes de entregar. Poderíamos ter feito mais e melhor. Essa consciência nos move.”
Nesse sentido, Adib reconhece que ainda há muitas tarefas a serem cumpridas. “Não vai ter uma resposta imediatista, não vai ter uma promessa de curto prazo. A gente está muito calcado em uma visão de entrega.”
A posição do CEO acontece depois de as ações recuarem 5,69%, na quarta-feira, 5 de agosto, em meio a um conjunto de fatores que reforçou a percepção de risco entre investidores.
O movimento foi impulsionado principalmente pelo rebaixamento do rating nacional da companhia pela Fitch, que destacou a “pressão persistente sobre as margens operacionais”, ponto sensível para o setor de saúde e já observado em trimestres anteriores.
A agência também chamou atenção para projeções de “fluxo de caixa livre negativo até o fim de 2026”, o que adiciona preocupação sobre a capacidade da empresa de financiar sua expansão e reduzir alavancagem sem recorrer a novas captações.
Esse cenário financeiro mais apertado ocorre em um momento de transição na gestão. A troca, embora vista como parte de um processo de reorganização interna, aumenta a sensação de instabilidade no curto prazo.
A “volta” da Notredame
A primeira iniciativa por parte do CEO para recuperar a saúde da Hapvida já foi tomada. No início deste mês, a empresa anunciou o lançamento da marca NotreDame Saúde, com um produto voltado para o público premium.
A proposta beneficia clientes que já estão no topo do atendimento da companhia, com uma estrutura de atendimento mais exclusiva, concierge, aplicativo e identidades próprias.
Ainda que a empresa conte hoje com 84 hospitais de sua rede própria no Brasil, o foco, nesse novo plano, passa a ser hospitais conveniados como o Sírio-Libanês, Albert Einstein, HCor, Nove de Julho, Mater Dei, entre outros. O atendimento também inclui as redes de laboratórios Fleury e Dasa.
O novo plano retoma o nome do grupo NotreDame Intermédica, com quem a Hapvida fez, em janeiro de 2021, fusão que a alçou ao posto de maior operadora de saúde do Brasil.
Com o negócio, a empresa passou a ter os chamados planos PPO (mais premium), com ampla rede credenciada e reembolso, e os HMO (plano mais básico), focado na rede própria de atendimento.
“Com a aquisição da família Pinheiro, a gente se deparou com a carteira PPO, que tem hoje 320 mil vidas, exposta a rede de terceiros e que não era muito o DNA da Hapvida”, diz o CEO.
Quatro anos depois dessa integração, a empresa, então, decidiu segregar as esteiras dos planos. Segundo o CEO, a estrutura consolidada da companhia não muda.
“Mas o backoffice muda. Tem um pacote de iniciativas que não aparece, mas que fazem com que a experiência seja diferente”, diz. “A ideia, no final, é melhorar a rentabilidade da companhia, já que este modelo de plano de saúde tem um tíquete médio maior. E também ajudar a frear um pouco o saldo líquido negativo de beneficiários, de uma forma geral.”
Em setembro de 2025, Jorge Pinheiro havia revelado ao NeoFeed a intenção de aprimorar o plano premium, mas, naquele momento, sem associar à mudança de marca. A ideia era mudar a percepção de uma empresa que cresceu atendendo a população com renda mais baixa.
Mudanças na estrutura
Após o relançamento da marca NotreDame, Adib também conta que a nova ação estratégica será em implementar uma revisão mais abrangente do desenho organizacional da companhia, com a descentralização de tomadas de decisões em algumas regiões.
“Não existe uma decisão aqui que sirva para tudo e que seja bom para toda a nossa organização. A gente precisa olhar local por local para extrair o máximo de cada um deles. Isso para que nossos gestores consigam tomar decisões, com mais contornos de autonomia”, afirma.
A Hapvida tem feito mudanças na estrutura de governança da empresa. Uma das cadeiras criadas foi a de vice-presidente de clientes, justamente para entender, do ponto de vista do usuário, quais as necessidades de mudanças.
Adib diz que o plano agora é focar nas melhorias das operações, para, a partir daí, refletir no resultado financeiro da empresa. “Vamos falar por números e não por narrativas. Vamos trabalhar na nossa lição de casa.”
Desalavancagem
Além de mudanças na operação, há a própria necessidade de desalavancagem, que já foi colocada como prioridade por Pinheiro.
No primeiro trimestre deste ano, a Hapvida alcançou 1,38 vez a relação dívida líquida versus Ebitda. No mesmo período de 2025, era 0,98 vez. Segundo Adib, a empresa está enfrentando a travessia da desalavancagem “de peito aberto”.
Desta forma, o mercado enxerga que a companhia tem planos de vender seus ativos na Região Sul. O pacote incluiria um conjunto de oito hospitais e 21 clínicas, e que teriam uma base de cerca de 500 mil beneficiários.
Segundo o NeoFeed apurou, o objetivo é garantir um capital de pelo menos R$ 1,5 bilhão com a venda dos ativos. O CEO não respondeu sobre este possível plano.
Novo conselho
Com as ações em curso e o plano estratégico em execução, o CEO afirma que não há mais qualquer divergência entre os principais acionistas da companhia. Na assembleia do conselho realizada em abril, a Squadra conseguiu aprovar a entrada de três representantes.
“A relação é muito boa. É um privilégio ter a família Pinheiro e os colegas da Squadra no conselho. Todos vieram para somar e estão do mesmo lado. Existiu uma tensão, mas todos querem o melhor para a companhia. Estamos trabalhando juntos de uma maneira muito positiva”, afirma Adib.
A Squadra, que hoje tem posição acionária de 5,2% (desconsiderado as ações de tesouraria, soma 5,5%), antes de conseguir as vagas no conselho de administração, havia divulgado uma carta dura à Hapvida, criticando decisões estratégicas e de governança desde o IPO.
Segundo a gestora de Guilherme Aché, as decisões da companhia levaram a uma das maiores destruições de valor da história da bolsa, com queda de 85% das ações, perda de 238 mil beneficiários, aumento da alavancagem e remunerações consideradas excessivas para executivos
Na ocasião, defendia que a empresa avaliasse a venda de ativos no Sudeste e Sul para reduzir dívida, reequilibrasse o capital e focasse em operações mais rentáveis
No primeiro trimestre, a Hapvida reportou receita líquida de R$ 7,9 bilhões, alta de 5,2% sobre a mesma base do ano anterior. A sinistralidade caixa, de R$ 5,7 milhões, cresceu 0,4 ponto percentual.
No período, a empresa registrou prejuízo líquido contábil de R$ 154,3 milhões, contra um lucro líquido de R$ 54,3 milhões na mesma base de 2025.
O Ebitda ajustado, de R$ 803 milhões, foi 20% acima do reportado no primeiro trimestre de 2025, e 12,5% acima do registrado no quarto trimestre. O balanço do segundo trimestre de 2026 será divulgado no dia 12 de agosto.
A visão dos analistas
Analistas do Citi afirmaram, em relatório divulgado em julho, que ainda há perspectiva de um cenário difícil no próximo trimestre, com um crescimento “anêmico” da receita e a persistência na dificuldade de novas aquisições líquidas de beneficiários. Mas, segundo o banco, ainda faltam informações.
“Embora continuemos a ver méritos na recente reformulação da gestão/governança e em uma abordagem mais pragmática para a racionalização de ativos/estrutura, a ausência de detalhes quantitativos concretos e os recentes contratempos na execução, compreensivelmente, deixam os investidores relutantes em conceder o benefício da dúvida”, diz o relatório.
No acumulado de 12 meses, as ações da companhia na B3 apresentam desvalorização de 68,7%. Em 2026, a queda é menor, de 23,7%. No último mês, no entanto, o movimento é de alta de 7%.
A Hapvida, que já chegou a valer perto de R$ 100 bilhões em 2021, logo após a fusão com a NotreDame Intermédica, hoje tem valor de mercado de R$ 5,6 bilhões.