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Cartão vermelho para o machismo: conheça as árbitras que quebraram o “teto de vidro” do apito

Por Redação 15 de agosto de 2026 7 min de leitura


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Daiane Muniz e Charly Deretti vão marcar um novo momento para as mulheres na arbitragem brasileira. Pela primeira vez em suas carreiras, as duas serão árbitras principais de partidas da Série A do Campeonato Brasileiro masculino.

Nos últimos sete anos, apenas Edina Batista havia chegado ao posto.

Embora as regras do futebol não façam distinção de gênero, a presença feminina no comando dos jogos de elite avançou lentamente.

Foram mais de quatro décadas até Silvia Regina de Oliveira apitar uma partida da primeira divisão, em 2003. Depois dela, Edina foi a única a alcançar esse nível, em 2019.

Daiane, que esteve na Copa do Mundo feminina de 2023 e nos Jogos de Paris-2024, comandará Chapecoense x Bahia. Charly apitará São Paulo x Coritiba, no Morumbi.

A chegada das duas representa uma mudança após anos de barreiras e episódios de machismo, como as críticas feitas a Daiane por um jogador do Bragantino no início do ano.

Apesar do avanço, estudos mostram que as mulheres ainda ocupam mais espaço nas funções de apoio do que no comando das partidas de maior visibilidade.

A presença crescente na Série A é um passo importante, mas a consolidação dessa mudança depende de oportunidades regulares e critérios mais transparentes.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

Daiane Muniz e Charly Deretti vão escrever neste fim de semana um capítulo importante na luta das mulheres por espaço no futebol brasileiro. Elas estão escaladas para apitar, pela primeira vez em suas carreiras, jogos da Série A do Campeonato Brasileiro masculino.

Nos últimos sete anos, apenas Edina Batista fez parte do grupo de árbitros da primeira divisão do futebol dos homens. Essa barreira aparentemente começa a ser quebrada.

Nas regras do futebol, nunca houve nada que impedisse uma mulher de apitar jogos masculinos. Elas precisam passar pelos mesmos testes físicos rigorosos da Fifa exigidos dos homens e aplicar as 17 regras do jogo com firmeza e autoridade. Na prática, porém, a história foi outra.

O Campeonato Brasileiro masculino é disputado com este nome desde 1970, mas foram necessárias mais de quatro décadas para que uma mulher apitasse um jogo da Série A.

Em 2003, Silvia Regina de Oliveira estreou na divisão principal e trabalhou como árbitra central até 2005. Depois, somente em 2019 surgiu Edina Batista no topo do futebol masculino. Até chegar lá, ela penou por dez anos em divisões inferiores e em estádios acanhados e vazios do futebol feminino.

Desde então, Edina viveu como estrela solitária da representatividade feminina entre os homens, sustentando sua autoridade em um universo tão misógino que, quando um árbitro homem erra, “é ladrão”, mas quando uma árbitra erra, é porque “é mulher”. Agora, ela finalmente terá companhia.

Charly Deretti apita neste sábado, 15 de agosto, o jogo entre São Paulo e Coritiba, no estádio Morumbi, com duas assistentes femininas auxiliando.

Daiane Muniz será, no dia seguinte, a árbitra da partida entre Chapecoense e Bahia, em Chapecó. As duas lideram a nova geração de mulheres preparadas para suceder Edina Batista e ampliar a presença feminina no comando das partidas.

Até chegar ao apito central, Edina Batista passou dez anos em divisões inferiores do futebol feminino futebol feminino.

Daiane Muniz ficou conhecida do grande público não por ter sido árbitra da Copa do Mundo feminina da Fifa em 2023 ou das Olimpíadas de Paris, em 2024, mas por ter sido alvo de comentários machistas de um jogador no início do ano.

“Não adianta a gente jogar contra São Paulo, Palmeiras, Corinthians e eles colocarem uma mulher para apitar um jogo desse tamanho”, disse Gustavo Marques, do Bragantino, após a eliminação de seu time para o São Paulo nas semifinais do Paulistão, uma partida apitada por Daiane.

A reação foi imediata. A Federação Paulista de Futebol emitiu nota de repúdio e reforçou o apoio às mulheres na arbitragem. A imprensa cobrou publicamente. Até a mãe do jogador ligou para dar uma bronca no filho. O zagueiro foi suspenso, pediu desculpas e descobriu, do jeito mais duro, que o mundo mudou — ou está mudando.

Daiane entrou para o quadro de árbitras da Confederação Brasileira de Futebol em 2015. No ano seguinte, atuou como assistente (“bandeirinha”) em jogos da Série B masculina. Foram 11 anos até chegar como árbitra principal a um jogo de Série A.

A catarinense Charly Wendy Straub Deretti ingressou no quadro de arbitragem da CBF em 2018 e chega agora à elite masculina; em setembro, será árbitra na Copa do Mundo feminina sub-20, na Polônia.

Aliás, a arbitragem feminina brasileira já tem espaço consolidado quando o assunto é o futebol de mulheres: Edina Batista atuou em duas edições da Copa do Mundo feminina e, no ano passado, formou com as assistentes Neuza Back e Fabrini Beviláqua o trio que comandou uma semifinal da Eurocopa feminina, na Suíça.

Um século de barreiras

O futebol feminino ficou proibido no Brasil por 38 anos, entre 1941 e 1979. O veto começou com o Decreto-Lei nº 3.199, assinado por Getúlio Vargas durante o Estado Novo, que impedia mulheres de praticar esportes considerados incompatíveis com sua “natureza”. Para as árbitras, as barreiras também foram (e são) gigantescas.

No início da década de 1970, Lea Campos precisou de uma autorização do presidente Emílio Médici para ter reconhecido seu direito de apitar partidas de futebol. Ainda assim, o presidente da então Confederação Brasileira de Desporto, João Havelange, declarou que, enquanto estivesse à frente do futebol brasileiro, nenhuma mulher apitaria jogos.

Em 1983, Cláudia Vasconcellos Guedes tornou-se a primeira árbitra brasileira reconhecida oficialmente pela Fifa; anos depois, em 1991, ela apitaria na primeira Copa do Mundo feminina da história.

Vinte e dois anos depois, em 2005, Ana Paula Oliveira fez história como a primeira mulher a atuar como assistente na Copa Libertadores masculina, mas, após erros técnicos em 2007, foi afastada da função e posou para a revista Playboy — episódio emblemático da objetificação enfrentada pelas mulheres no futebol.

Para compor a monografia Arbitragem feminina no futebol brasileiro: história, desafios e representatividade das mulheres que mandam em campo, apresentada no ano passado na Escola de Educação Física e Esportes da Universidade de São Paulo (EEFEUSP), analisei todos os jogos de todas as séries dos Campeonatos Brasileiros masculino e feminino entre 2019 e 2024.

O levantamento aponta que a presença das mulheres na arbitragem cresce lentamente e sob uma lógica clara de “inclusão hierarquizada”: mais espaço nas bordas do campo, pouco espaço no comando das partidas.

Os dados revelam um padrão: quanto maior o prestígio e o impacto econômico da competição, maior a resistência a colocar mulheres no comando. A verdadeira virada de chave só ocorreu no ecossistema do futebol feminino, em que a paridade veio de políticas institucionais deliberadas, não de avanço espontâneo.

A CBF promove, de fato, uma expansão quantitativa de mulheres no quadro geral de arbitragem, mas ainda é preciso romper o “teto de vidro” do apito central e adotar critérios mais transparentes de escalação para o topo da pirâmide esportiva.



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Redação

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