A conta por trás do acordo entre Google e Marvell pode chegar a US$ 120 bilhões
A corrida pelos chips que sustentam a inteligência artificial desencadeou mais um negócio bilionário no mercado americano. A Marvell Technology informou que o Google poderá comprar até US$ 12,2 bilhões em ações da companhia, em uma operação vinculada às encomendas de semicondutores customizados pela big tech.
A operação reforça a estratégia do Google de diversificar a base de fornecedores. A Broadcom, concorrente da Marvell, já participa do desenvolvimento e do fornecimento das TPUs do Google.
A entrada da Marvell, no entanto, não significa necessariamente uma substituição da Broadcom. Em abril deste ano, Google e Broadcom fecharam um acordo de longo prazo para o desenvolvimento e fornecimento de futuras gerações de TPUs, além de componentes de rede e outras peças para os racks de inteligência artificial da companhia, com vigência até 2031.
Em reação à divulgação do acordo na quarta-feira, 19 de agosto, as ações da Marvell subiam quase 8% no pregão, enquanto as da Broadcom recuavam cerca de 4% na Nasdaq. A leitura é de que o Google está ampliando sua rede de fornecedores em um mercado que cresce rapidamente, e não necessariamente trocando um parceiro pelo outro.
Segundo a Marvell, o acordo amplia a parceria com o Google para uma série de programas de chips customizados ligados às Tensor Processing Units (TPUs), processadores desenvolvidos pela própria big tech para aplicações de inteligência artificial.
Entre os projetos estão aceleradores de inferência de IA, controladores de armazenamento, de interfaces de rede e de memória, além de soluções de computação próxima à memória, informa o documento enviado à Securities and Exchange Commission (SEC).
Nos termos da operação, a Marvell concedeu ao Google o direito de adquirir até 58,97 milhões de ações por US$ 206,58 cada. Um total de 1,36 milhão de papéis será liberado em quatro parcelas trimestrais ao longo do primeiro ano.
O acesso às 57,61 milhões de ações restantes dependerá das compras feitas pelo Google e suas afiliadas até o fim do ano fiscal de 2033. Essa parte do direito foi dividida em 240 parcelas, com uma delas liberada a cada US$ 500 milhões em receita obtida pela Marvell com os produtos customizados.
Para liberar integralmente a parcela vinculada às compras, a receita da Marvell com esses produtos terá de alcançar US$ 120 bilhões – o patamar não representa uma encomenda já contratada.
Mais do que os US$ 12,2 bilhões que aparecem no valor potencial das ações, a receita de produtos dá uma dimensão da escala imaginada para a parceria.
No ano fiscal encerrado em janeiro de 2026, a Marvell registrou aproximadamente US$ 8,2 bilhões em receita. Os US$ 120 bilhões previstos como teto para a liberação integral do warrant equivalem, portanto, a quase 15 vezes tudo o que a fabricante faturou em seu último exercício.
A companhia já vem sendo transformada pelo boom da infraestrutura de inteligência artificial. No primeiro trimestre do ano fiscal de 2027, encerrado em maio, a Marvell alcançou receita recorde de US$ 2,42 bilhões, alta de 28% em relação ao mesmo período do ano anterior. Só a divisão de data centers respondeu por US$ 1,83 bilhão — cerca de 76% do total.
Do outro lado, o Google também está aumentando rapidamente a escala de seus investimentos em infraestrutura. A Alphabet elevou a previsão de investimentos de capital para 2026 para uma faixa entre US$ 195 bilhões e US$ 205 bilhões.
Só no segundo trimestre foram US$ 44,9 bilhões, com a maior parte dos recursos destinada à infraestrutura técnica necessária para sustentar a expansão da inteligência artificial. A companhia já antecipou que os investimentos deverão crescer significativamente novamente em 2027.
O movimento acontece justamente quando as TPUs começam a cumprir um papel maior na estratégia comercial do Google. Criados inicialmente para atender às próprias necessidades computacionais da companhia, esses processadores começam agora a sair de seus data centers.
No segundo trimestre, o Google reconheceu pela primeira vez receitas provenientes da venda de sistemas com TPUs instalados nos data centers de clientes. A empresa já havia antecipado que a maior parte das receitas dos acordos desse tipo deverá ser reconhecida a partir de 2027.
A expansão aumenta a importância de garantir fornecedores para uma infraestrutura que deixa de servir apenas ao próprio Google e passa também a ser oferecida a terceiros. Ao mesmo tempo, amplia a competição em um mercado dominado pelas GPUs da Nvidia, já que chips customizados como as TPUs podem ser desenhados para determinadas cargas de trabalho e oferecer uma alternativa em custo e eficiência para aplicações de inteligência artificial.
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