Juros altos e RJs reduzem oferta de crédito e ampliam disputa entre credores e devedores
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O cenário de juros altos no Brasil tem dificultado a concessão de crédito, evidenciado pelo pedido de recuperação judicial da Casas Bahia, a 21ª empresa a buscar esse recurso em 2023. Com o aumento das reestruturações, bancos e gestores se tornam mais seletivos, enquanto empresas em recuperação necessitam de capital de longo prazo para reverter suas operações.
Gestores de “special situations” expressam ceticismo sobre a capacidade de recuperação das empresas, citando casos como o da Casas Bahia, que não conseguiu resolver suas dívidas na recuperação extrajudicial e acabou recorrendo à recuperação judicial. A escassez de crédito é um desafio, com gestores afirmando que empresas com alta alavancagem não conseguem financiamento.
Após a reestruturação, as empresas enfrentam a falta de proteção judicial e linhas de crédito, comprometendo sua longevidade. É necessário mudar a percepção sobre reestruturações, que devem ser vistas como oportunidades e não como um sinal de falência iminente.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
O estoque de empresas em recuperação judicial cresceu 21,2% de junho do ano passado para junho deste ano, totalizando 6.341 empresas brasileiras protegidas da falência pela Justiça, mostra um levantamento produzido pelas consultorias RGF e Bizdoc, especializadas em reestruturação.
O aumento das reestruturações faz parte de uma dinâmica desafiadora para o cenário de crédito: enquanto bancos e gestores enxergam mais risco e ficam mais seletivos na concessão, as empresas em recuperação judicial (RJ) ou extrajudicial (RE) demandam capital de longo prazo para sustentar o turnaround da operação.
Do lado dos credores, os gestores de special situations no Brasil demonstram ceticismo quanto à capacidade das empresas de recuperar plenamente suas operações após uma reestruturação.
“Estamos cada vez mais céticos no Brasil de que uma empresa em dificuldade vai fazer um movimento para reestruturar a operação e a partir daí o fluxo vai bem”, afirmou Sergio Goldstein, sócio e responsável pela área de crédito estruturado da Itaú Asset, durante o 3º Congresso de Special Situations e Litigation Finance, realizado na quinta-feira, 20 de agosto.
Para Goldstein, operações de recuperação extrajudicial seguidas de recuperação judicial, como a das Casas Bahia, são um exemplo desse padrão.
A varejista entrou com um processo de recuperação extrajudicial em 2024 para renegociar R$ 4,1 bilhões em dívidas. A RE não resolveu integralmente as questões da companhia, que continuou a dar prejuízo e acabou recorrendo a uma segunda tentativa de reestruturação, dessa vez mais abrangente, via RJ, com passivo de R$ 17,3 bilhões.
Segundo Antenor Camargo, sócio da gestora Farallon, o padrão atual do mercado é não conceder crédito a empresas com alavancagem superior a 2,5 vezes a geração de caixa.
“Quem precisa de crédito não tem crédito e nem rolagem da dívida. Falta capital para novas transações e vai continuar em falta”, disse o gestor, que enxerga grandes oportunidades em bonds e debêntures do mercado secundário.
A escassez de crédito é um desafio ainda mais urgente do outro lado da mesa. Em painel realizado na sequência, executivos apontaram a dificuldade das empresas em reestruturação para conseguir crédito de longo prazo, em um mercado no qual a maior parte do capital tem horizonte mais curto e caráter oportunístico.
“Normalmente, o capital concedido é de curto prazo, não é capital estratégico. No momento que a companhia bota um pouco a cabeça para fora vem pressão de saída”, afirmou Bruno Serapião, CEO da Atvos.
Serapião entrou na companhia em meio ao processo de RJ, que tinha passivos originalmente de R$ 11,9 bilhões. “É um conflito com o time de gestão, que quer a empresa longeva”.
O momento logo após a reestruturação também é um desafio relevante na avaliação de Camille Faria, conselheira de PetroReconcavo e ex-CFO da Americanas. Durante a reestruturação, as companhias acessam linhas de crédito e recebem proteção judicial que permitem a retomada das operações e da geração de receita. Com o fim do processo, no entanto, esses mecanismos deixam de estar disponíveis.
“No dia seguinte à reestruturação, a companhia não tem mais essa proteção judicial ou linhas que negociou em RJ, não tem acesso ao mercado de crédito. O trabalho que é feito para garantir a longevidade das empresas fica muito comprometido”, disse a executiva.
Para Faria, o mercado também precisa mudar a forma como encara os processos de reestruturação. Os agentes, segundo ela, devem ter um papel de educar o empresariado de que as reestruturações “não são o fim do mundo nem o último passo antes da falência”, e sim instrumentos que devem ser usados de forma oportuna.
Muitas empresas, em sua visão, ainda esperam demais para recorrer ao mecanismo de RE e chegam à reestruturação já pré-insolventes – cenário que reduz a margem de negociação e tende a ampliar o desgaste entre credores e devedores.