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Cansada dos “apagões” da energia renovável, Engie direciona potência para hidrelétricas e linhões

Por Redação 26 de maio de 2026 8 min de leitura


A crise no setor elétrico causada pela sobreoferta de energia renovável, com as usinas eólicas e solares sofrendo cortes de produção para não sobrecarregar o sistema, entre outros problemas, está levando a Engie a reposicionar seu portfólio.

Referência em energia limpa no Brasil, com cerca de 13 gigawatts (GW) de capacidade instalada, o que representa aproximadamente 6% da capacidade nacional, a Engie cansou de esperar por soluções técnicas e regulatórias para reduzir o curtailment – os cortes de geração renovável por parte do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) -, que obriga a empresa a jogar fora cerca de 17% da energia produzida em suas plantas eólicas e solares.

“A Engie não deve investir em nova capacidade intermitente até termos uma visibilidade de que o sistema precisa dessa energia”, diz Eduardo Sattamini, CEO da Engie, em entrevista ao NeoFeed, sem esconder a insatisfação com ausência de sinais de preço claros no mercado de energia e de políticas públicas que aproveitem a geração renovável excedente.

Por isso, Sattamini afirma que a empresa decidiu reforçar os investimentos nas hidrelétricas (que respondem por cerca de 70% da capacidade de energia gerada pela empresa) e nas linhas de transmissão, que somam 3.205 km.

Além de trazerem retorno garantido, esses dois segmentos sempre ocuparam destaque no portfólio da Engie, composto por 145 usinas, das quais 13 são hidrelétricas e 132 complementares: uma de biomassa, 88 eólicas, duas Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) e 41 solares. Além disso, a Engie opera a TAG, maior malha de transporte de gás natural do País, com 4.500 km de extensão.

Os movimentos recentes confirmam essa estratégia. No caso das hidrelétricas, a Engie foi uma das vencedoras do Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP), realizado em março, para contratar usinas termelétricas a gás natural, carvão mineral, óleo combustível e biodiesel, além de hidrelétricas, para serem acionadas nos horários de pico, entre 18 horas e 19 horas, quando a geração solar cai, exigindo do sistema potência firme e imediata, principalmente de fontes despacháveis.

A Engie obteve no certame o direito de disponibilizar 195,78 megawatt (MW) de potência da Usina Hidrelétrica Jaguara, localizada na divisa entre Minas Gerais e São Paulo. Serão instaladas duas unidades, cada uma de 116 MW. A usina atualmente possui 424 MW de potência e, com a ampliação, passará a contar com 656 MW. O investimento será de R$ 1,2 bilhão, e o início da operação das duas novas turbinas está previsto para agosto de 2030.

Em outra frente, Sattamini confirmou que a empresa planeja incorporar a Usina Hidrelétrica de Jirau, na qual a Engie Participações (holding do grupo) mantém 40% das ações – os outros sócios incluem a Axia (40%) e a Misui (20%).

“A vantagem para nós é que a transferência dos 40% da usina de Jirau para a Engie Brasil elevaria a participação hidrelétrica no portfólio da empresa de 62% para 75%, tornando os resultados mais resilientes”, diz Sattamini. “Jirau agrega bastante porque a concessão vai até 2047, ampliando o tempo de vida útil desse ativo.”

Sattamini afirma que a forma da transação ainda está em discussão. Mas fontes do mercado afirmam que a Engie Brasil está trabalhando com o Itaú BBA e o Santander Brasil para a realização de oferta de ações de até R$ 10 bilhões para viabilizar o negócio.

No segmento dos linhões, a empresa arrematou os lotes 2 e 3 no último Leilão de Transmissão da Aneel, para implantação de linhas de transmissão e compensadores síncronos nos estados do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Norte e Ceará. O investimento previsto será de R$ 1,5 bilhão.

O projeto Asa Branca, rede de linhões que interliga os estados da Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo, recebeu do Ibama a licença de instalação para a construção e operação das quatro linhas de transmissão, incluindo a Subestação Medeiros Neto II. Já o empreendimento de transmissão Graúna avançou nos principais marcos de implantação, com progressos no licenciamento ambiental e na liberação fundiária.

Usina Hidrelétrica de Jaguara: expansão de R$ 1,2 bilhão

Linhão do projeto Asa Branca: conectando 3 estados

Usina eólica da Engie: sem novos investimentos em renováveis

A estratégia vem dando resultados. A Engie encerrou o primeiro trimestre de 2026 com receita operacional líquida de R$ 3,4 bilhões, crescimento de 13,1% em relação ao primeiro trimestre de 2025. O Ebitda ajustado totalizou R$ 2,2 bilhões, alta de 10,0% na mesma base de comparação. Os números refletem o avanço dos projetos em implantação da Engie no País – a empresa colocou em operação 1,4 GW de usinas entre o primeiro trimestre de 2025 e os três primeiros meses de 2026.

Distorções do mercado de energia

Sattamini, porém, mantém posição crítica sobre os problemas do setor elétrico. O curtailment, segundo ele, é efeito dos subsídios prolongados às renováveis aliado ao crescimento desordenado da geração distribuída (GD).

“Temos um curtailment elevadíssimo porque não foram feitas ações para reduzir os subsídios ou favorecimentos a determinados segmentos da geração que acabaram crescendo mais do que a demanda”, afirma o CEO da Engie.

Essa sobreoferta de energia, prossegue, não aconteceria num mercado onde há equilíbrio de oferta e demanda feito através de preço, onde não existe fator de distorção.

“O pior é que temos uma sobreoferta de qualidade ruim, no horário e na geografia errados, causada por um subsídio da GD, que promoveu uma injustiça social, permitindo que o consumidor mais sofisticado pudesse instalar painel solar no telhado, deixando de pagar os encargos das distribuidoras e passando a conta para a população de renda mais baixa”, diz ele.

O executivo sugere a adoção de mecanismos de aproveitamento dessa oferta de má qualidade de energia para poder migrar a oferta de um horário para outro, citando a bateria de armazenamento como alternativa para fazer essa migração.

“A bateria daria potência, porque ela pode absorver energia no horário do sol e dar potência no horário que o sol se põe. Então, teríamos como ofertar a mesma potência complementar à térmica e à hidráulica e pontualmente nos lugares onde é necessário um atendimento rápido e mais próximo à carga”, acrescenta, admitindo que a Engie está analisando o potencial leilão de bateria que será organizado pelo ONS.

De acordo com o executivo, essa distorção acabou gerando outro problema – o desequilíbrio nos preços do mercado de energia. Sattamini argumenta que a crise de preços no mercado de energia tem sido alimentada por uma disputa em torno do fator de aversão a risco usado nos modelos que formam o preço de curto prazo.

Algumas comercializadoras — hoje expostas, com baixa liquidez e risco de insolvência — pressionam para reduzir esse fator, o que derrubaria artificialmente o preço do mercado spot e aliviaria suas posições financeiras. Do outro lado, geradoras e agentes mais sólidos defendem manter o parâmetro atual, calibrado para evitar distorções e garantir que o operador não precise despachar usinas fora da ordem de mérito, o que desorganiza a formação de preços.

“Além disso, o ambiente de hidrologia ruim e a fragilidade financeira de parte dos compradores fazem com que empresas com energia disponível segurem oferta, para não correr o risco de ficar “short” e ter de recomprar energia cara no mercado”, afirma.

O resultado é uma disputa de narrativas e lobby: de um lado, agentes tentando baixar preços para resolver problemas próprios; de outro, empresas defendendo que mudanças artificiais no modelo acabariam repassando custos ao consumidor e distorcendo o equilíbrio do mercado.

Sattamini adverte que todas essas crises acabam gerando insegurança jurídica no setor. E cita a incerteza sobre o leilão de capacidade (RLCAP) – há ações na Justiça visando a suspensão da homologação dos resultados do certame – como um exemplo.

“A indefinição jurídica sobre a homologação do leilão impede ações irreversíveis no projeto de ampliação da hidrelétrica de Jaguara, onde temos pronto um plano de investimento de R$ 1,2 bilhão”, lamenta. “Estamos aguardando segurança jurídica para iniciar contratações e evitar severas penalidades por atrasos.”



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Redação

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