“Soma de todos os medos” pressiona o Ibovespa e não tem prazo para terminar
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Após meses de alta, a Bolsa brasileira enfrenta uma correção acentuada, com o Ibovespa recuando 14,26% desde sua máxima histórica em abril. A perda totaliza 28.326,70 pontos em 50 dias, resultando em uma desvalorização de R$ 778,1 bilhões em valor de mercado para 305 empresas.
Apesar de uma alta acumulada de 5,96% no ano, fatores negativos, como a deterioração da política monetária e a inflação crescente, geram pessimismo entre analistas. A expectativa de cortes na Selic foi reduzida, e a inflação global também pressiona o mercado.
Investidores estrangeiros retiraram R$ 14,9 bilhões da Bolsa em maio, a maior saída desde janeiro de 2022. Novas tarifas impostas pelos EUA e a classificação de grupos como terroristas agravam a situação, dificultando a atração de investimentos.
A reversão desse cenário parece distante, com a Bolsa provavelmente se mantendo estável até que as condições externas e fiscais melhorem.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Após meses de forte alta, a bolsa de valores brasileira passa por um período de correção acentuada, levando muitos a reconsiderar o otimismo em relação a uma retomada do mercado de renda variável em 2026.
Desde a máxima histórica registrada em abril, o Ibovespa recuou 14,26%, saindo do recorde de 198.657,33 pontos, apurado em 14 de abril, para 170.330,63 pontos em 3 de junho – recuando para o mesmo nível de janeiro deste ano.
Trata-se de uma perda de 28.326,70 pontos em apenas 50 dias, segundo levantamento da consultoria Elos Ayta. No período, um grupo de 305 empresas da Bolsa perdeu, em conjunto, R$ 778,1 bilhões em valor de mercado.
No ano, o Ibovespa ainda está em campo positivo, acumulando alta de 5,96%. Mas uma confluência de fatores negativos, internos e externos, faz com que o pessimismo ganhe espaço entre os analistas.
“É que nem o nome daquele filme, ‘A Soma de Todos os Medos’”, diz Flávio Conde, head de renda variável na Levante Investimentos, ao NeoFeed. “Tudo aconteceu ao mesmo tempo, e os estrangeiros estão vendendo.”
Um dos principais temores vem da política monetária. Em meio à deterioração do quadro inflacionário, os economistas passaram a revisar suas projeções para a taxa Selic no fim do ano. A perspectiva de alívio monetário vinha ajudando a atrair mais investidores para a Bolsa.
Com as projeções para o IPCA subindo pela 12ª semana consecutiva no Boletim Focus, atingindo 5,09% na última edição, a expectativa é de que a taxa básica de juros não caia tanto quanto o inicialmente esperado.
A equipe de economistas da XP Investimentos passou a prever apenas dois cortes de 0,25 ponto percentual na taxa Selic, de 14,5% para 14%, seguidos por uma pausa para avaliação. Antes, a expectativa era de três reduções, para 13,75%. O BTG Pactual revisou a Selic terminal de 13% para 14,25% em 2026, com um último corte de 0,25 ponto percentual em junho.
O tema da inflação não é apenas local. Conde destaca que o mundo vive um momento de alta dos preços, com a guerra no Irã pressionando os preços da energia globalmente, em meio à indefinição de um acordo entre Washington e Teerã.
Nos Estados Unidos, a inflação medida pelo CPI (Índice de Preços ao Consumidor) avançou 0,6% em abril em relação a março. Em 12 meses, a taxa atingiu 3,8%, superando as expectativas do mercado e gerando dúvidas sobre o que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) fará, dado seu papel como balizador das taxas globais.
“A parte de inflação prejudicou todos os mercados, inclusive o Brasil, porque fez com que todos os bancos centrais — e o nosso vamos descobrir daqui a duas semanas — dessem uma pivotada na estratégia, não cortando mais; na melhor das hipóteses, mantendo, mas até pensando em elevar”, diz Conde.
No caso do Brasil, um ponto que segue pesando é a questão fiscal e as eleições. Os gastos do governo Luiz Inácio Lula da Silva e as perspectivas eleitorais, após Flávio Bolsonaro ser atingido por notícias sobre um suposto relacionamento com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, prejudicaram o humor dos investidores.
Esses fatores estão drenando os recursos dos estrangeiros da B3, principal motor da alta do Ibovespa entre o segundo semestre de 2025 e o início deste ano.
O movimento começou em meados de abril e ganhou força em maio. Segundo levantamento da Elos Ayta, com base em dados da B3, os investidores estrangeiros retiraram R$ 14,9 bilhões da Bolsa no mês passado, considerando apenas operações no mercado secundário e desconsiderando aportes em IPOs e follow-ons.
Trata-se da maior saída mensal de recursos desde janeiro de 2022 e supera o recorde anterior de R$ 13,2 bilhões registrado em agosto de 2023, de acordo com a Elos Ayta. Os investidores internacionais aproveitaram para realizar lucros após a valorização que levou o Ibovespa à máxima histórica em abril.
Segundo Conde, os estrangeiros têm direcionado seus recursos para as Treasuries, que vêm apresentando taxas atrativas. Os títulos de dez anos estão na casa dos 4,54%, enquanto os de 30 anos pagam 5,02%. “Teve uma volta de dinheiro aos Estados Unidos, prejudicando até o Bitcoin”, diz.
Para piorar, dois novos “medos” se juntaram recentemente para pressionar o Ibovespa: as novas tarifas aplicadas pelo governo de Donald Trump ao Brasil e a decisão de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas.
Na segunda-feira, 1º de junho, o governo americano propôs uma tarifa punitiva de 25% sobre uma série de produtos importados do Brasil, alegando políticas e práticas brasileiras “irrazoáveis” que “oneram ou restringem” o comércio americano. No dia seguinte, o país foi incluído em uma lista de 60 países, além da União Europeia (UE), que apresentam falhas no combate ao trabalho forçado e que receberão uma taxa adicional de 12,5%.
“A classificação de grupos terroristas pesa na decisão de alocar mais dinheiro no Brasil, porque o Brasil não está na lista de amigos dos Estados Unidos na América Latina; está ao lado de Venezuela, Cuba e Nicarágua, sendo que o país nunca fez nada para estar nesse grupo. Se você é analista ou gestor de fundos de ações dos Estados Unidos, não vai recomendar ao cliente investir no inimigo dos Estados Unidos”, diz Conde.
Pensar em uma reversão dessa situação, nas condições atuais, exige bastante otimismo. O principal alívio pode vir de fora, caso Trump mude de opinião sobre o Brasil e feche um acordo com o Irã. Já a situação fiscal é um tema que ainda deve demorar para se resolver.
“A Bolsa vai ficar andando de lado. E não adianta falar: ‘ah, está barato, está exagerado’. Enquanto o Brasil não sair da lista de inimigos e as tarifas não forem revertidas, o dinheiro não vem”, afirma. “E o fiscal piorou demais e pode ficar ainda pior, se as políticas atuais não forem revertidas.”