A cenógrafa de Beyoncé, Adele e U2 não abre mão do espetáculo em exposição
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Em entrevista ao NeoFeed, a artista e cenógrafa britânica Es Devlin compartilha suas memórias e processos criativos.
Sucesso de público e crítica, sua exposição “Sou o Outro do Outro”, em São Paulo, apresenta seis instalações que exploram a interconexão entre indivíduos e suas identidades.
A obra “Mirror Maze” utiliza espelhos reais, refletindo a multiplicidade da identidade. Devlin, influenciada pela teoria do perspectivismo de Eduardo Viveiros de Castro, busca conectar poesia, luz, escultura e música em suas criações.
A artista, que também compõe músicas com sua banda Polyphonia, reflete sobre a relação entre arte e tecnologia, reconhecendo a ambivalência dos celulares na captura de experiências emocionais.
Ela propõe integrar as sombras digitais à vida real, promovendo uma dança entre o físico e o digital.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Uma fina linha de luz rasga a escuridão. Essa é a lembrança mais remota da artista e cenógrafa britânica Es Devlin. Ela tinha dois ou três anos quando caiu no rio Tâmisa, em Londres. Entre pedras e bolhas na água turva, avistou um fio luminoso em direção ao qual tentava nadar.
“Quando via uma linha de luz atravessando a cortina na infância, aquilo me parecia um portal. Continuo ancorando cada dia com uma meditação matinal sobre a linha de luz que vejo ao acordar”, conta ela em entrevista ao NeoFeed. “Certos leitmotivs percorrem minha obra como rios, conectando territórios. Uma linha de luz cortando a escuridão deriva da minha memória mais antiga.”
A imagem reaparece em diversos trabalhos da artista. Mas sua referência mais direta está em Falling, uma das seis instalações de Sou o Outro do Outro, em cartaz na Casa Bradesco, em São Paulo.
Celebrada pelas cenografias criadas para teatro, óperas, shows de artistas como Lady Gaga, Beyoncé, Bad Bunny, Adele e U2, além da colaboração com Fernando Meirelles e Daniela Thomas na abertura dos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016, Devlin chega ao Brasil pela primeira vez desvinculada do palco. Mas “espetáculo” continua sendo a palavra mais precisa para descrever sua obra.
Concisa no número de obras — apenas seis —, a exposição é monumental na escala. O visitante parte sempre da escuridão para entrar em cada instalação. É como a abertura das cortinas de um teatro ou o acender das luzes de um show.
Em menos de dois meses, entre 15 de março e 30 de abril, a mostra atraiu 55 mil visitantes e já se tornou a mais visitada do espaço desde a sua inauguração, em 2024.
“Acho que existe em nossos corpos um impulso para o ritual coletivo”, afirma a artista. “Aprendi a mecânica do encontro e do ritual em múltiplas formas: 100 mil pessoas cantando a mesma música num estádio é um fenômeno físico formidável; uma única pessoa entrando no universo de uma pintura numa galeria é outro modo de transformação.”
Concebida originalmente para uma ativação da Chanel, a obra Mirror Maze ganha em São Paulo sua primeira versão construída com espelhos reais, e não superfícies acrílicas. O resultado é um reflexo mais nítido e vertiginoso. Ao caminhar pelo percurso, o visitante vê sua imagem se multiplicar, desaparecer e se fundir à do outro. É dessa tensão, aliás, que nasce o título da mostra.
“A questão era: como navegar nessa avenida que é a identidade? Como falar de si de forma subjetiva e, ao mesmo tempo, falar do encontro com o outro?”, diz ao NeoFeed o curador Marcello Dantas, que apresentou à artista a obra do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro.
Formulada a partir do pensamento indígena ameríndio, a teoria do perspectivismo de Viveiros de Castro sustenta que diferentes seres habitam o mundo a partir de perspectivas próprias. Dantas transpõe esse repertório para a exposição — algo familiar ao universo de Devlin.
“Nos trabalhos de instalação, componho poesia, luz, escultura e música em um ambiente esculpido para um público, uma forma de nos lembrar de nossa interligação, de nossa continuidade com todos os seres e com o universo”, explica a artista.
A ideia reaparece em Come Home Again, instalação em que um coro de aves e vozes de imigrantes refugiados sugere a interdependência entre humanos, animais e culturas.
Letra e música
Na infância, incentivada pelos pais a aprender um instrumento, Devlin escolheu o violino. A disciplina e a persistência exigidas pela música migraram para o centro de seu processo criativo.
“Adotei essa rotina e esse método de prática. Hoje, não toco com frequência os instrumentos que aprendi, mas sinto que esse ritmo e essa rotina foram traduzidos para diferentes formas de expressão”, conta. “Trato tudo como repetição, ensaio, prática, reiteração: falhar constantemente em alcançar exatamente aquilo que se deseja.”
Outro eixo central de sua obra é a palavra. Não por acaso, Infinite Library abre o percurso expositivo reunindo narrativas compartilhadas e sugerindo que nenhum imaginário é inteiramente individual.
Quando não trabalha sobre textos de escritores, dramaturgos ou compositores, Devlin assume ela mesma a escrita. Formada em Literatura Inglesa pela Universidade de Bristol, é sua voz que conduz boa parte das instalações da mostra.
Há dez anos, a artista também compõe as músicas de suas instalações com sua banda, Polyphonia. “Vejo cada novo projeto por meio do prisma dos outros projetos que estão simultaneamente em desenvolvimento no estúdio, então continuam existindo cruzamentos interessantes e férteis com os trabalhos colaborativos feitos com músicos e dramaturgos”, afirma.
“Aspiradores de pó”
É difícil — para não dizer impossível — cruzar a exposição sem encontrar alguém filmando, fotografando ou fazendo uma selfie. Como se os visitantes tentassem reter, na tela do celular, parte do deslumbramento provocado pelo encontro com a obra.
“Toda vez que você é tocado por alguma coisa, você deseja compartilhar”, diz o Dantas. “O mundo está repleto de imagens, das mais absurdas. As imagens da Es não são absurdas; elas são tocantes. E o impulso das pessoas é compartilhar aquilo que tocou o coração delas.”
Parte da força do trabalho de Devlin está justamente em converter emoção em imagem, em construir experiências visuais quase irresistíveis para o olhar e, inevitavelmente, para a câmera do celular. Ainda assim, a artista mantém uma relação ambivalente com a lógica digital contemporânea.
“Os celulares são como aspiradores de pó: eles sugam nossas sombras”, afirma o curador. “Nossa poeira digital, nossos resíduos digitais, nossas sombras digitais estão ocupadas gerando muito dinheiro para um pequeno número de pessoas.”
Mas Devlin não propõe uma recusa nostálgica da tecnologia. Em A National Portrait for the National Portrait Gallery, projeto em cartaz em Londres até outubro, ela convida o público a usar seus celulares para integrar um retrato coletivo em permanente transformação:
“Estou tentando encontrar maneiras de costurar nossas sombras digitais de volta aos nossos pés, para que possamos dançar com elas”.