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Reflexões sobre o luto e a arte de envelhecer

Por Redação 28 de junho de 2026 8 min de leitura


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Em “Memorial do inverno: Um retrato do artista quando velho”, Roberto Pompeu de Toledo explora a velhice e a experiência de um recém-viúvo aos 82 anos, utilizando elementos literários que mesclam autobiografia e ficção.

O autor reflete sobre a perda de sua esposa, Maria Isabel, e como a literatura ilumina sua rotina, oferecendo um equilíbrio entre dissabores e alegrias.

O livro é uma homenagem ao amor e provoca reflexões sobre a vida, a memória e a finitude.

Toledo destaca que a lembrança é o oposto da morte, e sua narrativa, que flui de forma dispersiva, busca capturar a essência de suas experiências. Ele não se limita ao sofrimento, mas apresenta uma visão mais ampla da velhice.

O autor também menciona que a escrita é uma forma de conviver com os mortos, e espera que leitores jovens encontrem algo tocante em sua obra.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

Em O espelho e a mesa — Memórias de infância e juventude, de 2022, o jornalista e escritor Roberto Pompeu de Toledo assume que sua narrativa não é exclusivamente baseada em fatos por ele recordados. Ao recorrer a elementos literários, transita na fronteira entre a autobiografia e a ficção. Ele constrói assim um quase-romance em que narra histórias familiares relembradas por meio de objetos herdados.

Agora, em seu novo livro, Memorial do inverno: Um retrato do artista quando velho, Toledo segue o mesmo recurso para refletir sobre o envelhecimento e sobre como a vida de um recém-viúvo de 82 anos pode ser repleta de dissabores, mas também de novas descobertas e alegrias; sobretudo se iluminada pela literatura.

“Sou um poço de lembranças”, escreve. “Esqueço de algumas coisas, mas lembro de muitas mais.” Para Toledo, a lembrança é o contrário da morte. E as coisas, lugares e pessoas que nossa mente retém são de uma riqueza incalculável. Escrita em “homenagem a um grande amor”, como o autor define, a obra é uma celebração da vida.

Com uma narrativa capaz de emocionar e inspirar leitores de todas as idades, Toledo se junta aos melhores autores que, nas últimas décadas, se dedicaram a escrever sobre o envelhecimento e a existência. Entre eles estão o argentino Ernesto Sábato, os americanos Phillip Roth e Charles Bukowski e o brasileiro Boris Fausto.

Nesta entrevista ao NeoFeed, o jornalista fala sobre o processo de criação e escrita de Memorial do inverno. Veja os principais trechos a seguir:

O novo livro é sobre uma história de amor?
É também sobre uma história de amor, mas não só sobre isso. Digamos que é o retrato de uma pessoa quando velha, que embute uma história de amor que faz parte de sua vida.

Quanto tempo demorou para amadurecer a ideia, tomar a decisão de escrever suas memórias e incluir a perda de Maria Isabel, há dois anos?
O relato da doença e da perda de Maria Isabel não demorou nada para ser construído. Eu escrevi logo em seguida à sua partida, para fazê-lo no calor do que estava vivendo e sentindo. Depois, depurei tudo, resumi e incluí no livro. Essa empreitada resultou em um pequeno livro a que dei o nome de Dor, mas não quis publicá-lo. Era demasiado íntimo e demasiado triste. Acabei por incluir partes desse livro nos capítulos iniciais de Memorial do inverno.

Como foi o processo de encontrar a voz narrativa do livro? Houve versões iniciais mais confessionais ou mais distanciadas do que a que chegou ao leitor?
Não houve versões iniciais diferentes. A narrativa, um tanto quanto truncada, em que tento seguir o fluxo de um pensamento dispersivo característico dos idosos, nasceu de um jato, sem que eu a tivesse planejado. Descobri então que esse era o único meio possível de escrever o livro como eu desejava.

Você foca na presença de sua esposa em sua vida, a partir da doença dela, com digressões de outras épocas. Por que escolheu essa inversão ou fragmentação cronológica e não seguiu o caminho de contar seu casamento do começo ao fim?
Meu propósito não era contar a história de um casamento, e sim um processo de envelhecimento, do qual a morte de minha mulher foi o elemento deflagrador. A fragmentação cronológica também se insere nos propósitos da narrativa truncada.

“O fato de haver passagens humorísticas tem a utilidade de mostrar que o humor tem seu lugar na vida e na cabeça de um velho”

A morte de sua esposa é o acontecimento que desencadeia a narrativa. Em que momento sua experiência com a doença e o luto deixou de ser apenas vivência pessoal e se tornou matéria literária para um livro?
Acho que recorrer a uma história real decorre da minha falta de talento para escrever ficção. O que eu gostaria mesmo é de ser um romancista. Falta-me o talento para inventar histórias, no entanto. Por isso, fico com a minha própria história como matéria-prima de escrita. Já foi assim no livro anterior, O espelho e a mesa, no qual o foco são as lembranças da minha juventude.

Ao escrever sobre pessoas reais e relações íntimas, como você estabeleceu os limites entre a fidelidade à memória e as necessidades da construção narrativa?
Conscientemente, não estabeleci limite algum quando comecei a escrever. À medida que fazia isso, as memórias iam se encaixando na narrativa do jeito que vinham. Claro que há um processo de seleção de fatos e episódios nisso, mas que vai se resolvendo por si só.

O livro trata da velhice sem cair nem na idealização e nem no desalento.
Desde o início estava claro para mim que não escreveria só sobre sofrimento e dor. O livro tinha de ser mais amplo. O fato de haver passagens humorísticas tem a utilidade de mostrar que o humor tem seu lugar na vida e na cabeça de um velho.

A memória é um dos grandes temas do livro. Houve um trabalho de pesquisa ou você procurou confiar na lembrança e em suas lacunas?
O que houve foi uma pesquisa em autores que escreveram sobre a velhice em diferentes épocas, como Simone de Beauvoir e Norberto Bobbio, amplamente citados no meu texto. Mas, ao contrário do meu livro anterior, dessa vez eu não tinha diários, fotos ou cartas em que me apoiar.

Em algum momento, você temeu ser traído pela memória?
Penso que não. Claro que a memória é um bicho traiçoeiro, cheio das manhas, que, às vezes, omite, em outras inventa. Mas isso é lá com ela. Torço para que, no momento em que falha, ela o faça para o bem. Ou seja, para melhorar, não para piorar a lembrança.

Você tem uma trajetória consolidada como jornalista, historiador e ensaísta. O que mudou no seu método de trabalho ao escrever uma obra tão diretamente ligada de forma tão intensa à sua experiência pessoal?
Eu tinha vontade de escrever sobre coisas mais viscerais. O trabalho no jornalismo ou na história é todo objetivo; eu queria escrever sobre coisas que mexessem comigo. O texto fica mais solto, não tem mais compromisso com certos cânones que regulam o texto histórico ou o jornalístico.

Em vários momentos, a literatura sobre o envelhecimento tende a assumir um tom de balanço final. Você sentiu que estava escrevendo uma despedida ou uma continuidade?
Achei que estava escrevendo sobre o lado da vida oposto ao do meu livro anterior, sobre meus anos de juventude. Não sei se será uma despedida. Espero que não.

Até que ponto escrever foi também um modo de conviver novamente com sua esposa?
Antes de escrever este livro, escrevi um relato a quente da doença e morte de Maria Isabel. Ao terminá-lo, senti-me muito triste. “Claro, você a perdeu de novo”, disse a psicanalista que eu frequentava na época. É isso, a gente convive com os mortos, pela escrita. E até ode perde de novo quando deixa de escrever sobre eles

Depois de concluir o livro, houve alguma descoberta sobre si mesmo, sobre a memória ou sobre a velhice que o surpreendeu e que talvez não estivesse clara antes do processo de escrita?
Sempre se aprende algo em um processo como esse, de escrita. Mas, claro que sempre fica faltando aprender muita coisa sobre a memória, a velhice e sobre si mesmo.

O que você espera que leitores mais jovens encontrem em um livro que fala tão profundamente da velhice, da perda e da passagem do tempo?
Não sei dizer o que espero dessa faixa de público. Mas ficaria muito satisfeito se esses jovens encontrassem alguma coisa que os toque.



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Redação

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