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O novo tarifaço dos EUA e a corrida do Brasil contra o relógio, na avaliação de Marcos Troyjo

Por Redação 14 de julho de 2026 12 min de leitura


A menos de 24 horas do prazo final dado pelo governo dos Estados Unidos para decidir se adota um novo tarifaço ao Brasil, que pode chegar a uma alíquota de 37,5% sobre os produtos exportados, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva age com “um misto de irresponsabilidade na tentativa de ganhar alguns pontos na corrida política interna”.

A avaliação é do diplomata Marcos Troyjo, ex-presidente do Novo Banco do Desenvolvimento (NBD), o Banco dos Brics, durante o governo Bolsonaro. Em entrevista exclusiva ao NeoFeed, Troyjo diz que o governo federal não realizou nenhum gesto para fazer com que o governo Donald Trump recue da decisão, que deve ser tomada até esta quarta-feira, 15 de julho.

“Há muitos episódios em que ele se direciona de maneira descortês ao presidente americano ou membros de sua administração. Tudo isso ajudou a criar um ânimo pouco construtivo para que tivéssemos a possibilidade de levantamento destas tarifas”, afirma.

O Escritório do Representante de Comércio Americano (USTR) abriu investigações contra 86 países, incluindo o Brasil. Há duas investigações em curso. Na primeira, a Casa Branca propõe uma tarifa adicional de 25% por práticas anticoncorrenciais, com base na chamada Seção 301.

Em outro relatório, o governo Trump indica uma cobrança adicional de 12,5%, a partir de uma investigação sobre supostas práticas de trabalho forçado. Na prática, a cobrança, caso seja efetivada, deve incidir sobre 25% do valor exportado aos Estados Unidos, por conta da lista de exceções.

Mesmo assim, na visão de Troyjo, o governo brasileiro não atuou como protagonista nesta discussão. “Os esforços mais meritórios se deram por empresas brasileiras e por associações, que contaram com auxílio de escritório de representação política nos Estados Unidos.”

“Muitas delas fizeram muito mais do que o governo brasileiro. Veja os exemplos da Weg, da Embraer, da Minerva, da Gerdau”, afirma.

Para o ex-presidente do Banco dos Brics, Lula usa o episódio como palanque político, para obter benefício na disputa eleitoral de outubro. “Ele adota um tom mais orientado para manter uma tensão no ar, para extrair benefícios políticos da situação.”

Troyjo defende a visão apresentada pelo senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL), que, durante audiência pública nos Estados Unidos na semana passada, pediu que Trump adiasse o início das cobranças para depois das eleições.

“A questão é que o Brasil ganharia algo fundamental, que é tempo. O Brasil desperdiçou tempo. E, se tivermos um pouco mais, é melhor”, afirma.

Acompanhe, a seguir, os principais trechos da entrevista de Troyjo ao NeoFeed:

O Brasil está na iminência de sofrer um novo tarifaço dos Estados Unidos, que pode chegar a 37,5%. O que ainda pode ser feito para evitar?
O Escritório do Representante de Comércio Americano (USTR) tem investigações abertas contra 86 países. No caso do Brasil, as tarifas vão abarcar sobre o universo de 25% do valor exportado pelo Brasil ao Estados Unidos, tirando as exceções já previstas. Como o Brasil exporta para o mercado americano US$ 37 bilhões ao ano, elas incidiriam sobre US$ 9,5 bilhões de exportações. Isso significa menos de 3% de nossas exportações totais ou 0,3% do nosso PIB. O efeito macroeconômico é pequeno, porque existe a possibilidade desta produção ir para outros mercados ou aumentar o preço no mercado americano. Mas não me parece que o presidente Lula tenha feito algo para atenuar esta crise com os Estados Unidos.

E o que ele deveria ter feito de outra forma?
O governo Lula foi o último, dentre as economias do G20, a ter algum tipo de contato com a Casa Branca. Há muitos episódios em que ele se direciona de maneira descortês ao presidente americano ou membros de sua administração. Lula chegou a chamar o secretário de Estado Marco Rubio de latino-americano frustrado. Tudo isso ajudou a criar um ânimo pouco construtivo para que tivéssemos a possibilidade de levantamento destas tarifas.

Mas ainda daria tempo de alguma ação?
Como a questão técnica, por parte dos Estados Unidos, já foi concluída, o esforço que poderia ser feito seria na instância política. Mas não vejo isso vindo do governo brasileiro. São poucos os atores que têm atuado nisso. São mais os representantes setoriais. Poderiam ser feitas gestões de natureza política. Se não houver uma posição política em contrário, todos esses países terão as tarifas sobre suas exportações. E isso inclui o Brasil.

Como a questão técnica, por parte dos Estados Unidos, já foi concluída, o esforço que poderia ser feito seria na instância política. Mas não vejo isso vindo do governo brasileiro


No último dia 9 de julho, completou um ano da carta de Trump sobre o tarifaço extra de 40%, que elevou a cobrança para 50%. Nesses 12 meses, o Brasil não conseguiu criar uma relação mais próxima?
Em dezembro, o governo americano retirou tarifas sobre série de produtos, e em fevereiro a Corte Americana derrubou as taxas. Mas é verdade, o Brasil deveria ter feito muito mais nesse um ano. Os esforços mais meritórios se deram por empresas brasileiras e por associações empresariais brasileiras, que contaram com auxílio de escritório de representação política nos Estados Unidos. O governo brasileiro não foi protagonista neste jogo.

Qual o papel das empresas brasileiras que atuam nos Estados Unidos para minimizar este impacto tarifário?
Elas têm um papel importante e têm feito muito. Mas, como é natural, elas vão defender seus interesses empresariais e de seus acionistas. Muitas delas fizeram muito mais do que o governo brasileiro. Veja os exemplos da Weg, da Embraer, da Minerva, da Gerdau. As associações também. Foram em todos os caminhos, falaram com a Casa Branca. Mas nunca serão substitutas para um esforço governamental. Esse papel é do governo do país.

As empresas compradoras americanas também podem fazer pressão?
Claro. Na audiência pública que ocorreu na semana passada, representantes de compradores também estiveram presentes. Falaram que essa ação deixaria a vida deles mais difícil. Ou eles terão que repassar isso para o consumidor final, que significa pressão inflacionária, ou isto vai desacelerar o processo industrial, o que gera estagnação. E, às vezes, procurar outro fornecedor no mundo gera muito tempo.

De uma forma geral, então, estamos assistindo a um erro do Brasil ou a uma intransigência dos Estados Unidos?
Os Estados Unidos têm um diagnóstico errado para seus problemas. Eles têm déficit nas suas relações comerciais com o resto do mundo desde 1977. Isso não os impediu de superar crises, de vencer a Guerra Fria, de superar o 11 de Setembro, fazer uma revolução tecnológica com a internet, e de liderar o mundo na tecnologia da inteligência artificial. Mas não cabe dizer se eles estão errados ou certos. O que temos é de lutar pelos nossos interesses. O Brasil representa apenas 1% de tudo que os Estados compram do mundo. Eles compram US$ 3,7 trilhões ao ano. Essa negligência em ter uma fatia maior do que o maior mercado consumidor compra é um erro que vem de muito tempo. O Brasil falhou nisso.

O Brasil deveria ter feito muito mais nesse um ano. Os esforços mais meritórios se deram por empresas brasileiras e por associações empresariais brasileiras


Quais foram esses erros?
Tivemos muitas chances no passado. Tivemos oportunidade de criar uma área de livre comércio das Américas. Houve momentos em que as relações dos chefes de Estado eram excelentes, como na época de Bill Clinton e Fernando Henrique Cardoso, e, mais tarde, entre Donald Trump e Jair Bolsonaro. Mas não é só culpa nossa. Em algumas ocasiões, os Estados Unidos não tinham, na sua governança interna, os apoios necessários para que o processo de integração comercial acontecesse. Os governos do PT torpedearam a implementação da Alca, mas teve muita sabotagem por parte do governo americano.

Mas não há uma premissa errada quando os Estados Unidos falam em desequilíbrio na balança comercial com o Brasil?
O Brasil é um dos poucos países do mundo que tem déficit em suas relações bilaterais com os Estados Unidos. E é peculiar, porque tem superávit nas suas relações com a China. Mas o Brasil é bem mais protecionista que os Estados Unidos. Muito mais fechado. Houve uma estratégia de crescimento por meio de substituição de importações. Isso significa proteger seu mercado interno mediante cotas e tarifas. A tarifa média do Brasil é mais alta do que a tarifa média americana que incide sobre a exportação dos produtos brasileiros. A gente tem a tentação de classificar moralmente o que é déficit e superávit. E ter déficit nem sempre é ruim. Nunca impediu os Estados Unidos de crescerem. Eles atraem muito capital.

O presidente Trump não politizou demais estas questões?
A geopolítica assumiu um papel importante. Concordo que foi o presidente Trump que mudou um pouco a conversa sobre comércio internacional e China. Antes, havia uma tradição longa, que durou até o governo Obama, de continuidade da visão de que o país é pró-comércio internacional e acordos comerciais. Mas isso mudou no primeiro governo Trump. E Joe Biden continuou a política e até acirrou a discussão com a China. Hoje existe um sentimento pouco construtivo em relação a acordos comerciais, mas esta não é uma característica só do Trump.

E quando o presidente Lula faz declarações fortes contra Trump, esta tensão aumenta mais?
Qual a vantagem alguém que diz estas coisas, como por exemplo que Trump está agindo como pirata no caso do Estreito de Ormuz, espera receber ou extrair da relação bilateral? Nenhuma. É um misto de irresponsabilidade com tentativa de ganhar alguns pontos na corrida política interna. Só pode ser isso.

Por outro lado, o senador Flávio Bolsonaro não politiza a questão quando pede que o tarifaço seja implementado só após as eleições?
A questão é que o Brasil ganharia algo fundamental, que é tempo. O Brasil desperdiçou tempo. E, se tivermos um pouco mais, é melhor. Qualquer tempo a mais é válido. Ainda que o efeito macroeconômico seja pequeno, estamos falando de empresas, acionistas, empregos, famílias, de estados como São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, que são as regiões onde estão as empresas que sofreriam com a perda de competitividade resultante da imposição destas tarifas ao Brasil.

Muitas companhias brasileiras ou estão indo para lá (EUA) ou para outros países, como Paraguai e México


E o quanto isto vai impactar a competitividade das empresas brasileiras?
Se estas tarifas forem impostas ao Brasil, os efeitos são pequenos, mas importantes. Mas onde eu acho que vai gerar um diferencial de competitividade é em relação à questão tributária. Enquanto o governo Trump está adotando essa postura, ao mesmo tempo a gestão adota uma dinâmica de desregulamentação, desburocratização e corte de impostos. Isso vai ajudar a carga tributária nos Estados Unidos. No Brasil, ela está subindo e chega a 33%. A diminuição do peso dos impostos é algo que vai desequilibrar o jogo a favor dos Estados Unidos muito mais do que a imposição de tarifas sobre as exportações brasileiras.

E qual vai ser o impacto disso?
Muitas empresas vão montar seus parques fabris direto nos Estados Unidos. É como se a carga tributária fosse uma autoimposição de tarifas sobre a capacidade internacional brasileira de competir. Isso é muito mais grave e preocupante do que esta imposição pontual dos Estados Unidos. Machuca mais as empresas. Muitas companhias brasileiras ou estão indo para lá ou para outros países, como Paraguai e México.

Olhando pela ótica americana, com um possível aumento da inflação, faz sentido este novo tarifaço ao Brasil?
Na minha opinião, não. Isso gera ineficiência e custos adicionais ao consumidor americano. Muitos países acabam optando por não comprar produtos dos Estados Unidos e gera uma repercussão indireta.

Na sua avaliação, quem deveria estar à frente, em nome do governo brasileiro, pela defesa das empresas brasileiras?
Se analisar o período a partir de 20 de janeiro de 2025, que é quando Trump toma posse pela segunda vez, até setembro do ano passado, quando aconteceu a Assembleia Geral da ONU, todos os governos do G20 tiveram algum tipo de interação com o presidente americano, até mesmo Xi Jinping, da China. A única exceção foi o Brasil. Não dá para ignorar uma economia do tamanho da dos Estados Unidos.

Mas a reunião na Casa Branca, em maio deste ano, não foi uma resposta a isso?
O cálculo que se fez ali foi de que se a reunião fosse bem-sucedida, o presidente Lula poderia mostrar que sua atuação traria benefícios para o Brasil. E, sendo malsucedida, ele continuaria na tese do desentendimento como benefício eleitoral. Não consegui enxergar uma defesa. Fora que demorou demais para isso. Lula usa o discurso da soberania brasileira como um ganho político-eleitoral. Quer menos resolver o problema. Ele adota um tom mais orientado para manter uma tensão no ar, para extrair benefícios políticos da situação. Foi pouco direcionado a resultados. A única chance está no entendimento político. E não tenho visto nada disso por parte do governo brasileiro.



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Redação

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