A fatura de US$ 23,6 trilhões para o Ocidente reduzir a dependência da China
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Um estudo da EY-Parthenon revela que, para reduzir a dependência da China em setores estratégicos, EUA e Europa precisariam investir US$ 23,6 trilhões nos próximos 25 anos. Esse montante supera orçamentos anuais e exigiria uma reconfiguração das prioridades industriais e fiscais. A análise aponta que replicar a infraestrutura produtiva da China custaria US$ 13,7 trilhões para os EUA, US$ 9,1 trilhões para a zona do euro e US$ 800 bilhões para o Reino Unido.
Além do investimento financeiro, o Ocidente enfrentaria desafios estruturais, como a necessidade de treinamento de trabalhadores e automação. A dependência da China também impacta os preços, elevando a inflação. A fragmentação do sistema comercial global pode resultar em perdas significativas, com um desacoplamento total entre EUA e China reduzindo o PIB global em 7%. Portanto, a reconstrução da autonomia industrial é complexa e incerta, exigindo trilhões e décadas de esforço.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
A ambição de Estados Unidos e Europa de reduzir a dependência estrutural da China em setores estratégicos tem um preço tão monumental que, segundo uma nova análise econômica, beira o improvável.
Um estudo da consultoria EY-Parthenon divulgado na segunda-feira, 13 de julho, calcula que, para reconstruir cadeias produtivas inteiras — da manufatura à tecnologia, passando por pesquisa, infraestrutura e logística — fora da influência chinesa, as economias ocidentais precisariam investir US$ 23,6 trilhões adicionais ao longo dos próximos 25 anos.
O valor, distribuído entre EUA, zona do euro e Reino Unido, não apenas supera orçamentos anuais inteiros como exigiria uma reconfiguração profunda das prioridades industriais e fiscais do Ocidente.
A conta é tão elevada que, mesmo em um cenário de esforço coordenado, o processo não eliminaria a dependência chinesa no curto prazo, dada a posição dominante do país em materiais críticos, insumos industriais e tecnologias de processamento.
De acordo com a EY-Parthenon, replicar a infraestrutura produtiva hoje concentrada na China custaria aos EUA US$ 13,7 trilhões até 2050; à zona do euro, US$ 9,1 trilhões; e ao Reino Unido, US$ 800 bilhões.
Para os americanos, isso significaria investir cerca de US$ 550 bilhões por ano — valor comparável aos US$ 600 bilhões que gigantes de tecnologia planejam aplicar em data centers em 2026. No caso europeu, o esforço exigido equivaleria a quase dobrar o orçamento anual da União Europeia.
A escala do desafio, afirmam os analistas, não reside apenas no volume financeiro, mas na necessidade de somar esse montante a investimentos já previstos em energia, defesa, infraestrutura e inovação.
“Localizar as cadeias de suprimentos sem impor custos proibitivos aos contribuintes e consumidores será um dos desafios mais formidáveis para empresas e governos nos próximos anos”, disse Mats Persson, ex-conselheiro do governo britânico e atualmente na EY-Parthenon, ao jornal Financial Times, que divulgou o estudo com exclusividade.
A urgência desse movimento ficou evidente no ano passado, quando a China impôs controles de exportação sobre metais de terras raras essenciais, em resposta à ameaça do presidente americano Donald Trump de aplicar tarifas de 145% sobre importações chinesas.
A reação imediata foi um quase congelamento das linhas de produção da indústria automobilística nos EUA e na Europa, até que os dois governos concordaram com uma trégua. O episódio expôs a vulnerabilidade ocidental diante da capacidade chinesa de usar sua posição dominante como instrumento de pressão geopolítica.
Segundo a Agência Internacional de Energia, a China deverá fornecer mais de 60% do lítio e do cobalto refinados do mundo até 2035, além de cerca de 80% do grafite de grau de bateria e dos elementos de terras raras — insumos indispensáveis para a transição energética global.
“Mesmo com investimentos maciços, o Ocidente não conseguiria se desvincular rapidamente da China, porque o governo chinês controla etapas críticas de processamento de minerais, ingredientes farmacêuticos ativos e outros materiais industriais essenciais”, adverte Alicia García-Herrero, economista-chefe para Ásia-Pacífico do banco Natixis. O desafio, diz ela, não é apenas financeiro: é estrutural.
A dependência chinesa também se traduz em preços. Produtos fabricados na China costumam ter vantagem de custo entre 20% e 100% em relação aos concorrentes ocidentais.
A EY-Parthenon estima que a redução dessa dependência elevaria preços e pressionaria a inflação. Na Europa, setores críticos poderiam registrar aumentos de 1% a 2,5%, mantendo o Banco Central Europeu e o Banco da Inglaterra acima de suas metas de inflação de 2% por um período prolongado.
Além de reconstruir fábricas e infraestrutura, o Ocidente teria de investir pesadamente em treinamento de trabalhadores e automação industrial para compensar custos mais altos.
Diante desse cenário, Persson avalia que um “desacoplamento parcial” é mais realista: empresas precisariam ser seletivas na alocação de recursos, fortalecendo pontos vulneráveis sem tentar replicar integralmente o ecossistema produtivo chinês.
“Decoupling”
A discussão sobre o chamado decoupling não é nova. Em 2025, a Organização Mundial do Comércio concluiu que uma dissociação comercial total entre EUA e China reduziria o PIB global em 7% no longo prazo. O risco maior seria a fragmentação do sistema comercial em dois blocos: países alinhados aos EUA e países alinhados à China.
Nesse arranjo, não haveria vencedores — apenas perdas distribuídas de forma desigual. A economia dos EUA representa 26% do total do planeta, enquanto a China é responsável por 34% das exportações globais de produtos manufaturados.
A fragmentação do sistema financeiro global, por sua vez, já é perceptível.
Um relatório recente do Fórum Econômico Mundial, elaborado com a consultoria Oliver Wyman, estima que o custo anual desse processo para a economia global varia entre US$ 213 bilhões e US$ 307 bilhões, equivalente ao PIB de países como Chile ou Finlândia. Além disso, adiciona de 0,2 a 0,3 ponto percentual à inflação global.
O estudo divide o mundo em três blocos: o Ocidente (EUA, UE, Canadá, Reino Unido, Japão, Coreia do Sul e Austrália), o Oriente (China e Rússia) e um grupo neutro que inclui Brasil, Índia, Indonésia, México, Taiwan e Turquia.
Os efeitos da fragmentação são múltiplos: tarifas elevadas encarecem o comércio e redirecionam fluxos para rotas menos eficientes; barreiras regulatórias restringem investimentos e aumentam o custo do capital.
A incerteza impede empresas de planejar operações internacionais, levando à redução de investimentos e empregos. Além disso, cadeias de suprimentos tornam-se redundantes, com corporações mantendo múltiplos fornecedores em diferentes regiões para evitar interrupções. Em conjunto, esses fatores compõem um cenário em que o custo de se afastar da China é tão alto quanto o custo de permanecer dependente dela.
O Ocidente, portanto, enfrenta uma equação complexa: reconstruir sua autonomia industrial exigiria trilhões de dólares, décadas de esforço e uma reorganização profunda de suas economias — tudo isso sem garantia de sucesso completo, já que a China continua a deter vantagens estruturais difíceis de replicar.