Scott Galloway segue “bullish” com a IA, mas alerta que bolha já começou a estourar
Como uma tecnologia pode ser revolucionária e, ao mesmo tempo, gerar uma bolha financeira em torno dela? O que parece ser uma contradição é a distinção que Scott Galloway, escritor, empreendedor e professor da Universidade de Nova York, faz no seu texto mais recente.
Considerado um dos gurus do Vale do Silício, ele passou os últimos anos entre as vozes mais otimistas sobre o impacto da inteligência artificial. Ele repetiu diversas vezes que a IA representa uma mudança de paradigma comparável à internet.
Agora, embora Galloway se mantenha como um defensor da IA como tecnologia transformadora, passou a fazer uma distinção muito clara entre o potencial da tecnologia e o preço dos ativos ligados a ela.
No texto “1999.AI”, Galloway afirma que os sinais da bolha da internet estão reaparecendo. Não porque a inteligência artificial seja uma fraude ou porque a tecnologia tenha decepcionado.
Ao contrário: uma tecnologia revolucionária pode perfeitamente coexistir com uma bolha financeira. “Continuo tão otimista com a IA quanto estava com a internet em 1999”, escreve. “Mas aprendi, com algumas cicatrizes, a não confundir valuation com valor.”
Essa talvez seja a distinção mais importante do atual ciclo de inteligência artificial. Existe diferença entre acreditar que a IA transformará a economia e acreditar que todas as empresas ligadas à IA justificam as avaliações que receberam.
Foi assim durante a bolha pontocom, que explodiu na segunda metade dos anos 1990. Investidores passaram a acreditar que qualquer empresa com “.com” no nome estava destinada ao sucesso.
Em 1999, quase 40% dos investimentos de venture capital nos Estados Unidos estavam concentrados em empresas de internet, enquanto quatro em cada cinco IPOs tinham alguma ligação com a nova economia. O capital deixou de distinguir bons modelos de negócios de boas histórias.
A internet mudou o mundo, embora a maioria das empresas daquela primeira geração tenha desaparecido.
Galloway cita o exemplo da Pets.com. A tese era a de que consumidores realmente passariam a comprar produtos para seus animais pela internet. Ideia certa, momento errado.
A infraestrutura ainda era precária, os custos eram elevados e o modelo financeiro simplesmente não fechava. Uma década depois, a mesma ideia ressurgiria em empresas como a Chewy, desta vez em um ambiente muito mais favorável.
Para Galloway, a inteligência artificial pode seguir roteiro semelhante. Ou seja, sua crítica não é direcionada à tecnologia, mas ao excesso de expectativas embutido nas avaliações das empresas que lideram essa corrida.
Ele cita as perdas bilionárias da OpenAI, o custo elevado de operação dos modelos e a distância entre as projeções de receita e os resultados efetivos.
Mais do que isso, chama atenção para um aspecto que considera típico dos momentos finais das grandes bolhas: a dependência crescente de um fluxo contínuo de capital para sustentar um modelo que ainda não gera retornos compatíveis com os investimentos realizados.
Na bolha da internet, as primeiras vítimas foram as empresas voltadas ao consumidor. Depois vieram fornecedores de software e publicidade. Por fim, as gigantes da infraestrutura de telecomunicações, que haviam investido bilhões para atender uma demanda que desapareceu rapidamente.
Cadeia parecida
Atualmente, o roteiro não é diferente. Empresas investem bilhões em inteligência artificial para não correr o risco de ficar para trás. Esse gasto alimenta o crescimento acelerado das desenvolvedoras de modelos, que por sua vez justificam investimentos igualmente bilionários em chips, data centers e infraestrutura computacional.
Mas essa engrenagem depende do gasto corporativo crescente. Segundo Galloway, os primeiros sinais de mudança já começaram a aparecer. Grandes empresas passaram a limitar o consumo de tokens, revisar projetos de IA e exigir retorno financeiro mensurável antes de ampliar investimentos.
A fase do “usar IA porque todos usam” começa a dar lugar à cobrança por produtividade efetiva. Algo que, nos últimos meses, uniu um grupo crescente de economistas e investidores. Todos passaram a defender uma tese semelhante.
Aswath Damodaran, professor da NYU conhecido como uma das maiores referências mundiais em valuation, afirma que o risco não está na tecnologia, mas nas expectativas extraordinárias embutidas nas ações ligadas à IA.
Jim Covello, analista do Goldman Sachs, questionou se os investimentos de centenas de bilhões de dólares em infraestrutura produzirão retorno econômico suficiente para justificar esse nível de gasto.
O Nobel de Economia Daron Acemoglu também tem adotado uma posição cautelosa. Para ele, a inteligência artificial deverá produzir ganhos importantes de produtividade, mas em um ritmo muito mais lento do que o mercado atualmente precifica.
Talvez o alerta mais próximo ao de Galloway tenha vindo justamente do Vale do Silício. David Cahn, da Sequoia Capital, sintetizou essa preocupação no artigo “AI’s $600 Billion Question“: quem gerará receita suficiente para remunerar toda a infraestrutura construída para sustentar essa revolução?
Galloway tem uma resposta (talvez um tanto provocativa e bem longe do que o mercado financeiro espera). Ele compara a inteligência artificial à eletricidade, uma tecnologia que revolucionou praticamente todos os setores da economia, mas cujo maior benefício acabou distribuído entre milhões de consumidores e empresas, e não concentrado nos fabricantes da tecnologia.
Na internet, Amazon, Google e algumas poucas vencedoras ficaram gigantescas. Mas boa parte do valor criado foi capturada por empresas tradicionais que aprenderam a usar a rede para vender mais, produzir melhor e reduzir custos.
É perfeitamente possível que a IA represente a maior revolução tecnológica desde a internet — e, ao mesmo tempo, que parte importante das empresas hoje tratadas como vencedoras descubra que o mercado pagou caro demais por um futuro que levará muito mais tempo para chegar.
A internet sobreviveu ao colapso da Nasdaq em 2000. Galloway quer saber se, quando a poeira baixar – e a bolha estourar -, quem continuará de pé.