Relação Brasil-Argentina em “marcha lenta” ameaça o coração do comércio bilateral
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A crise diplomática entre Brasil e Argentina, sem precedentes, acende um alerta no setor automotivo, que movimenta mais de US$ 5 bilhões anualmente e possui cadeias produtivas integradas. A Argentina depende do Brasil para 67% de suas exportações de veículos, enquanto 60% dos carros vendidos na Argentina são fabricados localmente.
Apesar da tensão, especialistas acreditam que as repercussões econômicas serão limitadas no curto prazo, pois ambos os governos desejam manter as divergências políticas.
O “fator China” preocupa mais, com a indústria automotiva enfrentando a concorrência de carros elétricos chineses. No primeiro semestre de 2025, as exportações brasileiras de veículos para a Argentina caíram 28,2%, e as de autopeças, 22,7%. A abertura das importações pelo governo Milei, que facilita a entrada de veículos elétricos e autopeças, também impactou a produção automotiva argentina, que recuou 19,3%. Contudo, o Brasil continua sendo o principal parceiro da Argentina no setor.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
A crise diplomática entre Brasil e Argentina, sem precedentes na história da relação bilateral, fez soar um alerta no setor automotivo dos dois países, cujas cadeias produtivas são profundamente integradas e movimentam mais de US$ 5 bilhões por ano.
Cerca de 60% dos carros vendidos no mercado argentino são fabricados no País, enquanto 67% dos veículos exportados pela Argentina têm o Brasil como destino. Se a crise escalar para o terreno comercial, é esse setor, incluindo o de autopeças, que tende a se ressentir primeiro – e com dano assimétrico em desfavor da Argentina.
A Argentina é atualmente o terceiro maior parceiro comercial do Brasil (US$ 31 bilhões em 2025), embora bem atrás da China (US$ 171 bilhões) e dos Estados Unidos (US$ 83 bilhões).
O Brasil responde por 14,5% de todas as exportações argentinas, bem mais do que no caminho inverso – a participação do país vizinho nas exportações brasileiras chegou a 5,2% no ano passado, o maior patamar desde 2018.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que, no total, as exportações brasileiras para a Argentina somaram US$ 18,1 bilhões em 2025, crescimento de 31,4% em relação ao ano anterior. Além do setor automotivo, o comércio bilateral abrange também máquinas, equipamentos, produtos químicos e commodities.
Como o Brasil e a Argentina têm um acordo automotivo que beneficia as duas indústrias, a maior parte das exportações de ambos os países envolve carros, caminhões e autopeças.
Neste sentido, a crise diplomática recente causou uma nova camada de preocupação – tanto a indústria automotiva argentina quanto a brasileira já vinham sofrendo com outro problema de peso, a invasão de carros elétricos chineses.
Diplomatas e empresários dos dois países, além de especialistas ouvidos pelo NeoFeed, porém, afirmam que a troca de farpas diplomáticas tende a ter repercussão econômica limitada no curto prazo, até porque ambos os governos sinalizam querer manter as divergências no campo político.
Frederico Favacho, sócio do escritório Santos Neto Advogados e especialista em Direito Internacional, observa que as críticas do presidente Javier Milei ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao ministro do STF Alexandre de Moraes não tiveram respaldo dos empresários argentinos.
“É essencial não dar importância demasiada a esse factoide diplomático, o momento atual é interessante por mostrar a importância de um país para o outro”, afirma Favacho. “O setor automotivo dos dois países é interdependente e ambos enfrentam a concorrência chinesa que vai além de carros e autopeças, abrangendo também máquinas agrícolas.”
“Fator China”
Na prática, o chamado “fator China” preocupa mais a indústria automotiva de Brasil e da Argentina do que escaramuças diplomáticas bilaterais.
No agregado das exportações brasileiras para a Argentina (todos os setores), houve queda de 19,4% no primeiro semestre deste ano em relação ao mesmo período de 2025, mas o setor automotivo foi o mais afetado – as exportações brasileiras de veículos de passageiros para a Argentina caíram 28,2% de janeiro a junho deste ano.
Além disso, as exportações de autopeças para o mercado argentino — que compõem outra parte relevante da cadeia automotiva — despencaram 22,7% no mesmo período. A Argentina é responsável por cerca de 30% das exportações brasileiras de autopeças, o que amplifica o impacto da retração.
Essa queda está ligada à forte contração da indústria automotiva argentina, cuja produção recuou 19,3% no semestre.
Parte desse recuo é atribuída à abertura das importações do governo Milei, que criou uma cota de 50 mil unidades por ano para entrada de veículos elétricos e híbridos com tarifa zero do exterior, sendo que metade pode vir de marcas da China. O governo também facilitou a entrada de autopeças sem necessidade de validação extra de selos de segurança e meio ambiente.
Apesar do avanço chinês, Andrés Civetta, economista da consultoria argentina Abeceb, também não acredita que a rusga diplomática afete os fluxos comerciais do setor automotivo dos dois países.
“O Brasil é e continuará sendo o principal parceiro da Argentina no setor automotivo”, assegura Civetta ao NeoFeed. Segundo ele, fora dessa cota de veículos elétricos, o setor automotivo argentino não acredita que haverá um fluxo maior de veículos de origem chinesa deslocando a oferta brasileira.
“Pode haver uma pequena perda de participação dos veículos brasileiros no mercado argentino, mas isso não se deve a condições diplomáticas ou à relação entre os dois países, e sim a uma questão de mercado”, acrescenta Civetta.