O que falta para o futebol brasileiro virar tese de investimento
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O futebol brasileiro é visto como um ativo subavaliado, com potencial significativo para monetização, especialmente em comparação com ligas como a Premier League. Apesar de ter uma grande demanda e ser o maior exportador de jogadores, o Brasil ainda monetiza seus direitos de transmissão de forma muito inferior.
A criação das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) e a entrada de investidores privados são passos importantes, mas a transformação depende de profissionalização, fair play financeiro e centralização dos direitos comerciais.
proposta de uma liga unificada é crucial para capturar o potencial econômico, já que atualmente apenas 1% das receitas vêm do exterior, em contraste com 40% a 50% na Premier League.
Há um otimismo cauteloso sobre a capacidade do Brasil de se estruturar e competir globalmente, mas a preocupação com a perda de oportunidades no mercado é crescente.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Nova York – A poucas semanas da Copa do Mundo de 2026, o futebol brasileiro chegou aos Estados Unidos para se apresentar como uma classe de ativo.
Durante o Itaú BBA Sports Summit, executivos de clubes, investidores, advogados e banqueiros discutiram o Brasil tanto como a maior fábrica de talentos do esporte global quanto um ativo subavaliado da indústria mundial do entretenimento.
A visão predominante é que o futebol brasileiro vive hoje um momento raro de convergência entre capital, estrutura regulatória e demanda. E a avaliação é que o mercado internacional começou a perceber isso antes mesmo de o próprio Brasil conseguir organizar o esporte mais popular do País.
“O capital disponível para esporte hoje no mundo é abundante”, disse Guilherme Ávila, head of sports, media and entertainment do Itaú BBA, ao NeoFeed.
“Tem muita gente querendo alocar capital nessa classe de ativo. E poucas ligas têm um potencial tão grande de destravar valor quanto a liga de futebol no Brasil”, complementou.
A percepção de que o futebol virou uma classe de ativo relevante ganhou força nos últimos anos com a entrada de fundos, grupos multinacionais e investidores institucionais em ligas, franquias e clubes ao redor do mundo.
Mas o caso brasileiro chama atenção em razão do tamanho da distância entre o potencial econômico e a monetização atual do produto.
“Temos o ativo mais importante de todos, que é a demanda. Agora precisamos transformar isso em produto”, disse Luiz Ribeiro, managing director e co-head da General Atlantic.
“O esporte virou um tema muito quente porque é uma indústria protegida contra a IA”, complementou.
Hoje, os direitos de transmissão do futebol brasileiro movimentam cerca de US$ 600 milhões por ano. A Premier League supera US$ 2 bilhões anuais apenas em broadcasting. Enquanto a liga inglesa gera aproximadamente US$ 12 por habitante em receitas de mídia, o Brasil monetiza cerca de US$ 2 per capita.
“O Brasil é um país maior do que a Espanha, mas ainda monetiza os direitos de transmissão em um patamar muito inferior. Quando você olha os comparáveis internacionais, existe potencial para esse mercado ser três ou quatro vezes maior”, afirma Ávila.
O diagnóstico é que o problema histórico do futebol brasileiro nunca foi demanda. O País reúne mais de 100 milhões de consumidores de futebol, possui uma das marcas esportivas mais reconhecidas do planeta e segue como o maior exportador de jogadores do mundo.
“Durante muito tempo, o mercado olhava para o jogador brasileiro, não para o produto futebol brasileiro”, disse Marcos Motta, vice-presidente do Flamengo e advogado especializado no setor esportivo. “O desafio agora é transformar o campeonato em um produto exportável.”
Durante décadas, o futebol brasileiro se organizou como uma indústria de exportação de atletas. O dinheiro vinha da venda de jogadores, enquanto os campeonatos locais permaneciam fragmentados, mal distribuídos comercialmente e pouco relevantes fora do País.
Agora, a tese defendida por clubes, investidores e executivos financeiros é manter mais valor dentro da indústria local e construir uma liga capaz de competir globalmente por audiência, mídia e capital.
A criação das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) ajudou a acelerar esse movimento. A nova legislação abriu espaço para a entrada de investidores privados nos clubes e começou a atrair grupos nacionais e internacionais. Red Bull, City Football Group e fundos ligados a private equity passaram a operar no mercado brasileiro.
Mas a SAF é apenas uma parte da transformação. Pedro Daniel, CEO do Atlético-MG, diz que o novo ciclo do futebol brasileiro depende de três pilares: profissionalização, fair play financeiro e centralização dos direitos comerciais.
A discussão sobre a criação de uma liga unificada apareceu como principal ponto central do debate. O futebol brasileiro só conseguirá capturar plenamente seu potencial econômico quando conseguir centralizar negociações comerciais, distribuir receitas de maneira mais eficiente e apresentar um produto organizado ao mercado internacional.
O exemplo citado foi – mais uma vez – a Premier League. Hoje, entre 40% e 50% das receitas da liga inglesa vêm do exterior. No Brasil, essa participação gira em torno de 1%.
“Precisamos parar de exportar apenas jogadores e começar a exportar o campeonato”, afirmou Gabriel Lima, CEO da Futebol Forte União (FFU).
O otimismo, porém, veio acompanhado da preocupação crescente com o risco de o futebol brasileiro perder o timing. Desde 2021, o mercado discute a criação de uma liga estruturada no País.
O processo avançou, atraiu investidores e elevou o grau de profissionalização das conversas. Mas também produziu desgaste.
“Tem investidores que já estão cansados de ouvir a mesma história”, disse Ávila. “E tem outros que entendem que o mercado hoje é muito melhor do que era há quatro anos e não querem perder o momento de entrar antes desse rerating.”
A aposta é que, se conseguir resolver seus entraves de governança e estruturar uma liga forte, o País poderá transformar um produto historicamente submonetizado em uma das plataformas esportivas mais valiosas do mundo emergente.