O novo mapa do crédito: juros altos aceleram corrida por “dívida podre”
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Com a Selic acima de dois dígitos há mais de quatro anos e sem perspectiva de alívio, o sistema financeiro brasileiro acumula sinais de estresse. As provisões para devedores duvidosos saltaram para 7,9% da carteira total em fevereiro de 2026 — o maior nível da série histórica do Banco Central. No Bradesco, a despesa com provisão cresceu 25% em um ano. No agronegócio, epicentro da crise, a inadimplência no Banco do Brasil foi de 0,6% para 6,2% em três anos.
O cenário adverso alimenta uma indústria em expansão. Dados da Uqbar mostram 157 FIDCs especializados em recuperação de crédito ativos, com patrimônio de R$ 22,5 bilhões. Com a necessidade de limpar o balanço, os bancos têm acelerado a venda de carteiras inadimplentes — e gestoras como Jive Mauá, Mobius Capital, IOX Capital e Neo Investimentos disputam esses ativos. A IOX reporta alta de até 50% na oferta recebida. “Quanto mais problema o banco tem, mais eles querem vender”, disse Richard Ionescu, CEO da IOX. Para ele, o mercado ainda está no começo: “Não tem 20 players bons. Tem bastante espaço para crescer.”
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
O último corte de juros do Banco Central, que reduziu a taxa Selic para 14,25%, deve trazer pouco alívio para o sistema financeiro, que atravessa o maior período de juro na casa de dois dígitos desde 2009. Com expectativas de inflação em alta, economistas já não esperam mais Selic abaixo de 14% neste ano e não vislumbram chance de a taxa voltar ao patamar de um dígito ainda nesta década.
A perspectiva de que a tempestade dure mais do que o previsto já se reflete nos balanços dos bancos. As provisões para devedores duvidosos no sistema financeiro nacional saltaram de uma faixa entre 5,7% e 6,9% da carteira total, mantida por mais de uma década, para 7,9% em fevereiro de 2026, o maior nível da série histórica do Banco Central.
Embora o cenário de risco mais alto torne mais difícil a concessão de novos empréstimos, a maré de crédito podre tem gerado uma abundância de oportunidades para os chamados fundos abutre — que, por diferentes estratégias, buscam recuperar dívidas inadimplentes e renegociar passivos de empresas à beira da falência.
Dados da Uqbar mostram que o número de FIDCs focados em recuperação de crédito cresceu de 140 para 157 entre janeiro de 2024 e abril de 2026, com patrimônio total de R$ 22,5 bilhões. “Com a piora do ambiente econômico, os segmentos que compram créditos ruins tendem a crescer daqui para frente”, afirma Alfredo Marrucho, analista da Uqbar.
Uma das pioneiras no segmento no Brasil, a Jive Mauá está estruturando um novo fundo para captação no segundo semestre, com o objetivo de aproveitar o aumento de oportunidades no crédito estressado.
“Estamos buscando algumas centenas de milhões para aproveitar esse mercado”, diz Bruno Gomes, sócio e head da área de Distressed & Special Situations. O volume de negócios avaliados pela casa, segundo ele, cresceu entre 20% e 30% em relação ao ano anterior.
Com a filosofia de sempre liderar processos de recuperação, a Jive Mauá costuma assinar cheques grandes. Nos últimos 15 meses, a gestora investiu R$ 1,8 bilhão em cerca de 20 a 25 transações. A casa, com R$ 25,5 bilhões sob gestão, atua tanto na compra de crédito inadimplente quanto no refinanciamento de dívidas de empresas estressadas, mas tem preferência por single names: casos mapeados individualmente.
“Nesses casos, fazemos uma análise bastante criteriosa do patrimônio daquele devedor, definindo a estratégia de recuperação do crédito de antemão para que, no dia seguinte, possamos apertar o botão e começar a estratégia de recuperação.”
A estratégia é semelhante à adotada pela Mobius Capital, que também tem aproveitado o aumento de oferta no crédito estressado para estruturar seu terceiro fundo — com primeiro closing previsto para o fim de julho. Com dois fundos anteriores e uma rede de coinvestimentos, a gestora soma hoje cerca de R$ 800 milhões em ativos sob gestão distribuídos em 11 veículos.
Fundada em 2021 por ex-sócios da área de crédito estruturado do Credit Suisse, a Mobius Capital atua exclusivamente no crédito high yield, navegando entre estruturas de crédito estruturado, ativos judiciais e ativos reais.
“A gente foge do excesso de liquidez”, afirma Renato Herkenhoff, sócio-fundador da Mobius Capital. “As oportunidades que batiam na porta uma vez por mês, passaram a bater uma vez por semana e agora, quase uma vez por dia.”
Segundo Herkenhoff, a maior parte das oportunidades que têm aparecido está no agronegócio – um setor que, na sua avaliação, vive uma “troca de mãos” entre produtores que se alavancaram demais e estão perdendo terras e aqueles que chegam com capital novo para comprá-las.
A Mobius Capital já estruturou operações nesse modelo: compra a fazenda, carrega o ativo e oferece ao produtor a opção de recomprá-la a um preço pré-fixado. Se o produtor não conseguir, a gestora fica com a terra.
Com pedidos de recuperação judicial no setor em níveis históricos, o agronegócio vive um momento ainda mais agudo que o restante da economia.
No Banco do Brasil, maior credor rural do país, a inadimplência na carteira agrícola saltou de 0,6% em dezembro de 2022 para 6,2% em março de 2026 – pico histórico da série. Para se proteger, o banco elevou suas provisões para 9,7% dessa carteira, exposta a perdas estimadas de R$ 40,6 bilhões.
Mas o problema da inadimplência não se restringe ao agronegócio. Mesmo bancos sem grande exposição ao setor têm sentido o peso do ciclo de juros nos balanços.
Com a necessidade de limpar o balanço, os bancos têm aumentado significativamente a oferta de carteiras inadimplentes para FIDCs especializados em recuperação de dívidas.
“Quanto mais problema o banco tem, mais eles querem vender”, afirma Richard Ionescu, CEO da IOX Capital. A gestora tem R$ 4 bilhões sob gestão, sendo R$ 350 milhões em FIDC de NPL — sigla em inglês para non-performing loans, os chamados créditos podres, dívidas que o devedor parou de pagar e que o banco não consegue recuperar.
Para comprar ativos de um banco, os fundos precisam primeiro passar por um processo de homologação que inclui avaliação de prevenção à lavagem de dinheiro.
Uma vez credenciados, passam a receber ofertas de forma contínua — em dois formatos: carteiras massificadas, com centenas de casos vendidos com deságio, ou single names, casos negociados individualmente. “A oferta aumentou 50% ou mais em relação aos meses anteriores”, afirma Ionescu. “Ficamos com um caminhão de coisa para olhar.”
A Neo Investimentos também atua na compra dessas carteiras, mas com foco em pessoa física — dívidas de consumo, cartão de crédito e financeiras que bancos e varejistas não conseguem recuperar. O deságio é agressivo, conta Arnaldo Ferreira Braga Neto, sócio e head de crédito da Neo Investimentos. “Compramos por 2% para tentar recuperar 5%. Tirando os custos, fico com 4%”, disse.
Para Ionescu, da IOX, o mercado de NPL no Brasil ainda tem muito espaço pela frente. “Não tem 20 players bons nesse mercado. Tem bastante espaço para crescer. Na verdade, eu acho que está só começando”, afirma.