Queda histórica do iene mergulha Japão em era de incerteza
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A economia do Japão, marcada por juros baixos e crescimento quase nulo, enfrenta uma desvalorização recorde do iene, que caiu 38%, atingindo 162,41 ienes por dólar. Essa queda é impulsionada por fatores como a alta dos preços do petróleo e a valorização do dólar, além de mudanças nas políticas fiscal e monetária. O Banco do Japão aumentou a taxa de juros para 1%, o maior nível em 28 anos, em resposta à pressão sobre a moeda. A primeira-ministra anunciou um programa de investimento de US$ 2,3 trilhões, mas a falta de detalhes gerou preocupações sobre inflação e aumento da dívida pública, que já é a maior entre países desenvolvidos.
A diferença nas políticas monetárias entre Japão e EUA deve manter o iene fraco, enquanto a alta do mercado de ações japonês pressiona ainda mais a moeda. A estratégia de carry trade, que envolve empréstimos em ienes para investir em ativos mais rentáveis, está novamente em evidência, aumentando a liquidez global.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Durante décadas, a economia do Japão ficou marcada pelos baixos indicadores em juros, inflação e crescimento do PIB – todos próximos a zero -, armas utilizadas para impedir o crescimento da dívida japonesa, de 260% em relação ao PIB, a maior entre os países desenvolvidos.
Os sinais de rachadura nessa estabilidade macroeconômica começaram a ficar mais claros na terça-feira, 30 de junho, com o iene sofrendo uma desvalorização recorde de 38% – a maior em 40 anos -, acumulando uma queda de mais de 3% no ano.
Os efeitos dessa baixa da moeda japonesa levaram o mercado a relembrar a intervenção maciça do Japão no iene em agosto de 2024, que provocou não apenas a maior queda em um único dia para as ações japonesas desde 1987, mas também um pico na volatilidade do mercado americano e uma queda de 6,1% em três dias para o S&P 500.
Há diferenças cruciais que separam as duas grandes desvalorizações do iene em dois anos. Por trás da nova baixa da moeda japonesa, negociada a 162,41 ienes por dólar, estão fatos recentes, como a alta repentina dos preços do petróleo causada pela guerra com o Irã – alimentando dúvidas sobre a capacidade das autoridades japonesas de controlar a inflação.
Além disso, uma valorização do dólar também em relação a outras moedas fortes, a recente alta do mercado de ações japonês (em contraposição à queda em 2024) e mudanças recentes nas políticas fiscal e monetária do país asiático – anunciadas com intervalo de poucos dias – acabaram contribuindo para a desvalorização do iene.
Esse processo começou a ganhar forma em 16 de junho, quando o Banco do Japão, o BC japonês, anunciou o aumento da taxa de juros para 1% — o nível mais alto desde 1995. A decisão foi uma forma de conter a sangria recorde de US$ 72 bilhões do Ministério das Finanças para defender a moeda japonesa durante a queda entre o fim de abril e os últimos dias de maio, quando o iene ultrapassou a marca de 160 em relação ao dólar pela primeira vez.
Dez dias depois, em 26 de junho, a primeira-ministra Sanae Takaichi revelou planos para um programa massivo de investimento público e privado no crescimento econômico equivalente a US$ 2,3 trilhões ao longo de 14 anos.
A relativa falta de detalhes sobre como o financiamento seria distribuído, porém, reacendeu as preocupações sobre um eventual aumento de inflação, além do plano colocar o Japão no caminho de uma maior expansão fiscal. A dívida pública total do Japão está hoje entre US$ 9 trilhões e US$ 10 trilhões.
A cotação da moeda japonesa acima de 162 ienes por dólar serve como “mais um lembrete de quão fraco o iene se tornou”, diz Lee Hardman, analista sênior de câmbio da gestora japonesa MUFG, ligada ao Grupo Mitsubishi. “O choque nos preços da energia pressionou a moeda, e a atualização da política monetária agressiva do Fed agora está incentivando taxas de juros mais altas nos EUA e um dólar mais forte.”
Na prática, analistas asseguram que a política monetária do Banco do Japão está muito desconectada do que está acontecendo nos EUA e na Europa, o que deve manter o iene fraco por um longo período – apesar da taxa de juros atingir 1%, investidores esperam apenas um aumento adicional de apenas 0,25 ponto percentual do BC japonês nos juros até janeiro.
Com isso, a promessa do governo de injetar estímulos fiscais no setor produtivo sem qualquer mudança na política monetária corre o risco de superaquecer a economia japonesa. Em paralelo, a recente alta do mercado de ações japonês serviu como uma fonte de pressão de baixa sobre o iene.
Desde o início do ano, o índice Nikkei 225 bateu uma série de recordes, ultrapassando os 72.000 pontos na semana passada, em um movimento impulsionado principalmente por investidores estrangeiros que investiram em empresas de inteligência artificial e semicondutores.
Carry trade
A desvalorização do iene aliada à valorização do dólar em relação a outras moedas fortes fez o mercado retomar o quadro de 2024, quando o iene despencou, mas por motivos diferentes – a insistência do BC japonês de manter as taxas de juros extremamente baixas.
O fosso entre as taxas de juro no Japão e nos EUA na época impulsionou ainda mais um tradicional recurso financeiro no país – o carry trade, estratégia em que um investidor normalmente contrai empréstimos baratos em ienes e investe os fundos em ativos de maior rendimento, em dólares.
“O carry trade do iene é a alavanca de liquidez global que quase ninguém observa até que ela se movimente”, afirma Michael Gayed, gestor de portfólio do ETF The Free Markets, fundo de investimento focado em empresas americanas. “E todas as condições que o tornaram perigoso no verão de 2024 — um grande diferencial de taxas de juros, um iene na linha de 160 e um banco central que precisa continuar apertando a política monetária — estão presentes novamente no verão de 2026.”
Chris Turner, chefe global de mercados do conglomerado financeiro ING, acredita que o Japão pode reagir com uma nova rodada de compras de ienes na sexta-feira, considerando a baixa liquidez dos mercados devido ao feriado de 4 de julho, ou esperar até pouco antes do próximo feriado japonês — o Dia do Mar — em 20 de julho.
“No entanto, as autoridades japonesas compreenderão que a intervenção só poderá tentar desacelerar, e não reverter, a atual tendência de alta do dólar em relação ao iene”, disse ele. “Uma reversão exigiria não apenas aumentos drásticos nas taxas de juros pelo Banco do Japão, mas também uma mudança na tendência geral do dólar.”