Para Bradesco BBI, follow ons apenas “oportunísticos”, IPOs em 2027 e infraestrutura puxa M&As
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O mercado de capitais brasileiro está praticamente fechado para novas operações, com exceção de follow-ons e block trades em condições específicas. IPOs estão fora de cogitação, segundo o Bradesco BBI, que prevê operações “oportunísticas” para empresas resilientes, especialmente no setor de infraestrutura.
A expectativa é que os IPOs retornem em 2027, dependendo da política fiscal do próximo governo. O foco atual é em block trades e follow-ons, com investidores estratégicos substituindo fundos de private equity.
O cenário de M&As é dominado por infraestrutura, enquanto outros setores realizam transações mais táticas devido aos altos juros.
A recuperação do mercado dependerá da trajetória dos juros e da sinalização de um ajuste fiscal crível. A primeira onda de IPOs deve incluir grandes empresas, seguida por uma segunda onda com companhias menores.
O interesse de investidores estrangeiros está voltando, especialmente em ativos de infraestrutura, que oferecem receitas previsíveis.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Com as eleições se aproximando, o ajuste fiscal ainda incerto e a geopolítica sem dar trégua, o mercado de capitais brasileiro está praticamente fechado para novas operações.
As únicas transações capazes de sair são follow-ons e block trades, mas em circunstâncias bastante específicas. IPOs, nem pensar, segundo os executivos do Bradesco BBI.
“O mercado passa a olhar menos para a relação entre juros e inflação e mais para a relação entre juros e política fiscal. Isso começa a interferir diretamente na curva de juros e, consequentemente, também afeta o mercado de capitais”, disse André Moor, head de investment banking do Bradesco BBI, em encontro com jornalistas na quarta-feira, 8 de julho.
Segundo ele, o que deve sair são operações “oportunísticas”. Novos follow-ons só serão possíveis para empresas bem posicionadas e resilientes, com as companhias de infraestrutura despontando como as principais candidatas, caso de Engie e ISA Energia.
Os block trades devem ocorrer em empresas cujo “preço faça sentido” ou nas quais exista a necessidade de dar liquidez à saída de algum investidor, como ocorreu na Espaçolaser.
Essa situação abre caminho para a recomposição de bases acionárias. Segundo George Costa e Silva, head de ECM do Bradesco BBI, quem tem aproveitado esse movimento são os investidores estratégicos, que estão ocupando o espaço dos fundos de private equity, hoje com menor capacidade de investimento. Um exemplo é o Grupo Muffato, que no ano passado comprou 10% do Assaí.
“O valuation ficou tão deprimido que esses investidores passaram a enxergar valor nesse tipo de atuação”, disse.
Já os IPOs podem retornar no ano que vem, a depender de como a questão fiscal será endereçada pelo próximo governo. A expectativa é de que a reabertura do mercado seja puxada por grandes operações, de empresas com fluxo de caixa mais previsível.
Se esse cenário se confirmar, a expectativa é de uma “segunda onda”, formada por empresas menores e com crescimento acelerado.
Assim como ocorre no mercado de capitais, o segmento de infraestrutura também lidera as operações de M&A. Nos demais setores, os deals têm um caráter mais tático, com os juros elevados sendo o principal gatilho para as transações.
“O capital de private equity ficou muito mais caro e, por isso, temos trabalhado em soluções mais estruturadas, como reverse IPOs, fusões e outras alternativas que permitam às empresas atravessar esse período até que os juros voltem a cair e o cenário eleitoral fique mais claro”, afirmou Danilo Borges, head de M&A e financial sponsors do Bradesco BBI.
Acompanhe, a seguir, os principais pontos da conversa:
CENÁRIO ESPERADO
Moor – Sempre soubemos que seria um ano muito volátil por causa das eleições. Nossa principal convicção era que haveria um movimento de entusiasmo no começo do ano, impulsionado por uma expectativa de queda dos juros, por uma tendência de desvalorização global do dólar e pelo comportamento típico do ciclo eleitoral. Nossa segunda convicção era que o segundo semestre seria mais volátil. A correção do mercado americano traria volatilidade para a curva de juros, para o mercado de capitais e para os processos de decisão envolvendo M&A e ECM. Nossa orientação era aproveitar o primeiro semestre para executar as operações, porque depois o ambiente ficaria mais complexo. O principal ajuste de rota foi a guerra. Ela provocou uma mudança importante na inclinação da curva de juros. A janela de mercado existiu e foi aproveitada, mas começou a se fechar à medida que entramos em um ambiente de juros mais elevados.
FISCAL PASSA A SER O FOCO
Moor – Agora entramos na dinâmica que já imaginávamos para o segundo semestre. O mercado passa a olhar menos para a relação entre juros e inflação e mais para a relação entre juros e política fiscal. Isso começa a interferir diretamente na curva de juros. Consequentemente, também afeta o mercado de capitais e as operações de M&As. Mesmo que haja mudança de governo, não é possível afirmar que o cenário será automaticamente melhor. Ainda não se conhecem claramente os planos dos possíveis candidatos e o mercado precisará avaliar se as propostas serão estruturais ou apenas medidas pontuais para amenizar a percepção de deterioração fiscal.
CENÁRIO PARA BLOCK TRADES E FOLLOW ONS OPORTUNÍSTICOS
Moor – Diante desse cenário, estamos focados em blocos e ofertas bastante oportunísticas. Vemos um pipeline de operações sendo construído. Quando falamos em operações oportunísticas, estamos falando de empresas valorizadas, em bons momentos operacionais, ou de companhias resilientes. São empresas que já possuem uma percepção positiva do mercado e conseguem sustentar uma oferta mesmo num ambiente mais desafiador. Nos blocos, são de empresas cujo preço faz sentido — ou, em alguns casos, justamente porque o preço deixou de fazer sentido para quem precisa vender. Há situações em que o controlador precisa gerar liquidez. Nesses casos, o ativo vai ao mercado independentemente do momento. Esse tipo de oportunidade começa a aparecer com mais frequência.
COMPRADORES MUDARAM
Costa e Silva – O comprador mudou. Hoje há menos private equity e mais investidores estratégicos. Em vez de comprar pequenas posições apenas para acompanhar o mercado, alguns montam participações relevantes — de 10% a 15% — e passam a influenciar a governança, gestão e estratégia da companhia. O valuation ficou tão deprimido que esses investidores passaram a enxergar valor nesse tipo de atuação. Naturalmente ainda existem exceções, como a Advent na Natura, mas o movimento predominante é outro.
IPO SÓ EM 2027 (COM FISCAL)
Costa e Silva – Começamos uma nova fase de recuperação. Este ano já foi melhor do que 2025. Realizamos seis follow-ons e um IPO (da Compass). Vale lembrar que não havia IPO desde 2021. Ainda temos mais dois follow-ons previstos. Se essas operações forem concluídas, chegaremos a oito follow-ons. Minha expectativa é que 2027 seja melhor do que 2026, que, por sua vez, já foi superior aos anos de paralisação que observamos em 2024 e 2025. Naturalmente, a velocidade dessa recuperação dependerá da trajetória dos juros, das decisões do próximo governo e da condução da política fiscal.
Moor – Tudo depende do ajuste fiscal. Seja conduzido pelo governo atual ou pelo próximo, será preciso convencer o mercado de que haverá uma mudança de comportamento. Ninguém espera uma grande reforma estrutural, administrativa ou um corte expressivo de gastos de uma só vez. O que o mercado quer é uma sinalização crível de que o governo reconheceu o limite fiscal e adotará uma trajetória diferente.
DUAS ONDAS
Costa e Silva – Os primeiros IPOs deverão ser de operações grandes. Estamos falando de empresas ligadas ao sistema financeiro, energia, infraestrutura ou outros setores com geração de caixa altamente previsível. Estamos falando de ofertas entre US$ 300 milhões e US$ 500 milhões — algo próximo de R$ 3 bilhões. Nessa primeira onda, estamos falando de poucos nomes, talvez entre cinco e dez companhias tenham hoje porte, governança e estrutura suficientes para realizar um IPO. Depois vem aquilo que chamamos internamente de “onda dois”. São companhias menores, em crescimento, pertencentes aos mais diversos setores da economia. Recentemente realizamos uma conferência recentemente e identificamos cerca de 25 potenciais candidatos a IPO.
VOLTA DE VELHOS CONHECIDOS
Costa e Silva – O estrangeiro voltou a entrar, mas agora alterna períodos de entrada e saída. É importante lembrar que grande parte daqueles US$ 70 bilhões, do começo do ano, entrou por meio de ETFs. Mas nas ofertas vimos também fluxo ativo e nomes globais que há algum tempo não apareciam no Brasil. Vimos investidores como Amundi, Invesco e fundos especializados, como Utilico. Além deles, continuam presentes os grandes investidores tradicionais que nunca deixaram o Brasil, como Fidelity, e BlackRock. Eles continuam analisando oportunidades. Alguns já colocaram ordens, outros ainda estão avaliando novas posições. Mesmo com parte do fluxo retornando para os Estados Unidos, eles continuaram presentes. No fundo, são os mesmos investidores: aqueles que nunca saíram do Brasil, apenas reduziram exposição, e aqueles que voltaram desde o final do ano passado.
NO MERCADO DE CAPITAIS E EM M&AS, INFRAESTRUTURA REINA
Moor – O investidor continua procurando diversificação em mercados emergentes, mas com foco em ativos mais seguros. Estamos falando principalmente de infraestrutura. São ativos que possuem contratos de longo prazo, receitas previsíveis e, muitas vezes, indexadas à inflação ou ao dólar.
Borges – É o que vemos em M&As também. Dentro do universo de infraestrutura, a atividade continua bastante forte. Lançamos um processo de rodovias que foi um sucesso, com diversos interessados. Em transmissão de energia, praticamente há uma operação atrás da outra. Nos data centers acontece a mesma coisa. No resto, os deals são muito táticos, O capital de private equity ficou muito mais caro e, por isso, temos trabalhado em soluções mais estruturadas, como reverse IPOs, fusões e outras alternativas que permitam às empresas atravessar esse período até que os juros voltem a cair e o cenário eleitoral fique mais claro.