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Trump ‘desiste’ de cessar-fogo com Irã e mercados voltam a tremer

Por Redação 08 de julho de 2026 7 min de leitura


Durou três semanas a esperança de uma retomada da normalidade nos preços globais do petróleo após a reabertura do Estreito de Ormuz, efeito do cessar-fogo provisório assinado no mês passado entre os Estados Unidos e o Irã.

Os principais índices de Wall Street caíram na quarta-feira, 8 de julho, depois que um irritado Donald Trump afirmou, na abertura da reunião da Otan em Ancara, na Turquia, que um acordo provisório para pôr fim à guerra com o Irã “acabou”.

Por trás da nova reviravolta no cessar-fogo provisório entre Estados Unidos e Irã está a indefinição sobre a abertura total do Estreito de Ormuz, o que impede o avanço de outros pontos de um possível acordo de paz entre os dois países.

A virulência do presidente americano ao se referir aos líderes iranianos, chamando-os de “escória” e “pessoas doentes” e prometendo uma bateria de ataques ao Irã, surpreendeu dirigentes europeus que acompanhavam seu pronunciamento.

Depois, em conversa com jornalistas, Trump reforçou sua desistência do acordo provisório: “No que me diz respeito, acabou.”

A ameaça de novas ações militares surgiu depois da retomada de ataques mútuos na terça-feira, 7. O Comando Central dos EUA afirmou ter atingido mais de 80 alvos no Irã e tomado medidas para bloquear as vendas legais de petróleo do país em resposta aos ataques iranianos a navios perto do Estreito de Ormuz.

A Guarda Revolucionária Islâmica do Irã afirmou que suas forças responderam com bombardeio de mísseis e drones na madrugada de quarta-feira, visando 85 instalações militares americanas no Oriente Médio.

Diante da retomada a todo vapor do conflito, os contratos futuros do petróleo Brent dispararam muito acima dos níveis pré-guerra, atingindo US$ 80 por barril após uma alta de 8% no meio do pregão, interrompendo uma queda consistente do preço do barril nas últimas duas semanas, que chegou a rondar os US$ 60. No fechamento, o petróleo tipo Brent teve alta de 5,20%, cotado a US$ 78,02 por barril.

As ações americanas passaram a quarta-feira em queda, com o índice Dow Jones caindo cerca de 700 pontos, ou 1,4%. O índice Nasdaq e o S&P 500 recuaram cerca de 0,7%. No fechamento, o Dow Jones teve queda de 1,09%, o S&P 500 caiu 0,28 e o Nasdaq subiu 0,20%. Por aqui, após oscilar entre os 169.972 pontos e os 172.018 pontos, o Ibovespa fechou em queda de 0,79%, aos 170.653 pontos.

A nova escalada da tensão no Oriente Médio ocorre em um momento em que os investidores já demonstram incerteza quanto à sustentabilidade da alta do mercado de ações americano. Os papéis de tecnologia já haviam caído na terça-feira, puxados por uma liquidação de ações de tecnologia e semicondutores, enquanto os investidores continuam avaliando se o boom da inteligência artificial foi longe demais.

Nove dos 11 setores do índice de referência S&P 500 foram negociados em baixa na quarta-feira, com exceção dos índices de energia e de tecnologia da informação.

O impacto da retomada de hostilidades no Oriente Médio nas ações de tecnologia só não foi maior por causa do anúncio da Apple de que planeja gastar mais de US$ 30 bilhões, como parte de um acordo de fornecimento de chips firmado no início desta semana com a fabricante Broadcom, que viu seus papéis valorizarem 3%.

Fim da lua de mel

A retomada da tensão no Oriente Médio com as ameaças de Trump de novos bombardeios ao Irã deixou os investidores preocupados.

“A fase de lua de mel acabou”, disse Dan Pickering, diretor de investimentos da Pickering Energy Partners, uma empresa de serviços financeiros com sede em Houston, ao jornal The New York Times. “Estamos sendo lembrados de que este ainda é um conflito em curso.”

Cerca de 570 embarcações atravessaram o Estreito de Ormuz desde o memorando de entendimento assinado em junho, das quais, quase três quartos estavam saindo do Golfo Pérsico, de acordo com a Lloyd’s List Intelligence. Mais de 150 dessas travessias foram de navios petroleiros, o que gerou expectativa de uma retomada de normalidade.

Nos termos do memorando de entendimento assinado no mês passado, o Irã concordou em permitir a passagem de navios pelo estreito sem custos durante uma prorrogação de 60 dias do cessar-fogo de 8 de abril. Em troca, os EUA suspenderiam o bloqueio naval aos portos iranianos.

O Irã prometeu ainda retirar minas no estreito em 30 dias, e o tráfego deveria retornar gradualmente aos níveis pré-guerra.  Como incentivo financeiro, os EUA concederam ao regime iraniano uma isenção para vender seu petróleo bruto e produtos derivados em dólares.

Entretanto, o Irã afirmou posteriormente que imporia “taxas de serviço” no futuro. Ou seja, o cessar-fogo provisório já nasceu ameaçado no ponto mais sensível – o status do Estreito de Ormuz.

Isso ficou claro com a insistência do Irã para que os navios utilizassem uma rota no estreito próxima à sua costa, para monitorar o tráfego na hidrovia – por onde passava cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo antes da guerra.

Os EUA, no entanto, incentivaram os navios a transitar perto da costa de Omã, cujas águas territoriais atravessam o canal. Isso permitiu que aviões de guerra americanos fornecessem cobertura aérea aos navios desde o final de maio.

O surgimento da rota alternativa frustrou o governo do Irã – e esse impasse, agora retomado, explica a nova tensão.

“O Irã não quer ceder sua influência sobre o estreito — sua arma de perturbação em massa — antes que um acordo mais amplo seja alcançado sobre o auxílio econômico dos EUA”, disse Ellie Geranmayeh, do Conselho Europeu de Relações Exteriores.

“Para Trump, a reabertura do estreito é o ponto central do memorando de entendimento — e sem ela, ele estará sob imensa pressão dos falcões republicanos para retomar a guerra com o Irã”, acrescentou ela, apontando o óbvio: os dois lados deveriam ter chegado a um protocolo mutuamente aceitável para o estreito antes de assinarem o memorando de entendimento.

O impasse no Estreito de Ormuz não foi o único motivo a expor a irritação do presidente americano na reunião da Otan. Durante a manhã, Trump renovou seus ataques aos aliados europeus da aliança militar por se recusarem a apoiá-lo em sua tentativa de assumir o controle da Groenlândia e por não fornecerem apoio militar aos EUA durante a operação contra o Irã.

À tarde, depois de ser informado da reação negativa dos mercados de ações, Trump mudou o tom. Afirmou que a cúpula da Otan foi “muito bem-sucedida” e que havia “muita união” entre os presentes.

Depois de um encontro com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, Trump surpreendeu os jornalistas ao afirmar que apoiava os ataques da Ucrânia a alvos em território russo, classificando-os como uma escalada que poderia ajudar a pôr fim à guerra.

Trump elogiou a bravura da Ucrânia, sinalizou que consideraria conceder a Zelensky uma licença para produzir interceptores de mísseis Patriot dos EUA e disse que consideraria viajar a Kiev no momento oportuno para as negociações de paz. Os comentários representam o seu maior elogio até agora à estratégia militar da Ucrânia.

Mas, para investidores dos EUA, a resolução definitiva do conflito com o Irã é mais prioritário que o afago de Trump a Zelensky.

“A pergunta de um milhão de dólares é se as novas ameaça sde Trump ao Irã marcam um colapso total nas negociações e um retorno às hostilidades, ou apenas um revés temporário”, disse Matthew Ryan, chefe de estratégia de mercado da Ebury, fintech global de pagamentos internacionais e câmbio, controlada pelo grupo Santander.



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Redação

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