CEO global da Stellantis faz alerta sobre avanço chinês: “O Brasil precisa estabelecer prioridades”
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Antonio Filosa, CEO global da Stellantis, alertou sobre o avanço das montadoras chinesas no Brasil, que está reduzindo a demanda por aço nacional e impactando fornecedores locais. Ele enfatizou a importância de políticas que priorizem a produção local, destacando que a indústria automobilística gera muitos empregos diretos e indiretos.
Filosa, que tem experiência no Brasil, afirmou que a Stellantis planeja responder à concorrência chinesa com produção local e parcerias, como com Leapmotor e Dongfeng, em vez de apenas importar. Ele defendeu uma estratégia de multi-energia, oferecendo veículos a etanol, gasolina, híbridos e elétricos.
A Stellantis anunciou R$ 32 bilhões em investimentos na América do Sul, com foco em produtos e tecnologias locais, visando crescer 10% em volume até 2030 e manter a liderança no Brasil e na região.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
O executivo italiano Antonio Filosa assumiu o comando global da Stellantis há pouco mais de um ano com a missão de reverter as perdas e o consumo de caixa de uma das maiores montadoras do mundo. Depois de encerrar 2025 no vermelho, a companhia começou a apresentar sinais de recuperação. No primeiro trimestre de 2026, a receita líquida cresceu 6%, para € 38 bilhões.
Apesar da origem italiania, Filosa construiu boa parte da carreira no Brasil. Foram 15 anos no País, período em que participou, entre outros projetos, da implantação da fábrica da Jeep em Pernambuco. Agora, morando em Detroit, ele voltou a Betim, em Minas Gerais, para celebrar os 50 anos da Fiat e falar sobre os próximos passos da Stellantis.
Em entrevista exclusiva ao NeoFeed, Filosa afirmou que a montadora pretende responder ao avanço das fabricantes chinesas com produção local e parcerias com grupos do país asiático, como Leapmotor e Dongfeng.
Ele também fez um alerta ao governo brasileiro: a expansão dos carros importados e dos modelos montados com kits chineses está transferindo para a China uma demanda que poderia beneficiar siderúrgicas e fornecedores nacionais.
Confira os principais trechos da entrevista:
Quando você assumiu o comando da Stellantis, a companhia enfrentava um dos momentos mais delicados de sua história. Qual foi o principal desafio desse primeiro ano?
Peguei a posição de CEO de uma empresa que queimava caixa e perdia dinheiro. Infelizmente, 2025 terminou com números negativos, tanto na geração de caixa quanto no resultado operacional. O primeiro desafio era reverter esse quadro.
As razões eram múltiplas, mas acredito que conseguimos identificá-las. No nosso plano de negócios até 2030, temos as ações necessárias para fazer essa reversão. Isso começou a aparecer nos números do primeiro trimestre deste ano: nós voltamos à rentabilidade, voltamos ao crescimento e melhoramos muito, até 37% na geração de caixa. Então, estamos no caminho certo. O caminho vai ser ainda longo. Vamos bater em alguns quebra-molas, mas a gente vai continuar.
As montadoras chinesas, somadas, já se aproximam da participação da Fiat no Brasil. As parcerias com Leapmotor e Dongfeng são uma estratégia para enfrentar essa concorrência?
Primeiro, a Fiat é líder de mercado no Brasil e na América do Sul. É verdade que, juntas, as montadoras chinesas estão crescendo muito, mas essa é uma comparação entre uma única marca e várias empresas.
Conhecemos o consumidor brasileiro e temos a capacidade de estar próximos dele. É essa competência que queremos oferecer aos nossos parceiros. Já temos uma parceria consolidada com a Leapmotor fora da América do Sul e começamos agora a desenvolvê-la também na região.
Nossa estratégia não é importar. Queremos produzir aqui, desenvolver fornecedores locais, conversar diariamente com o cliente e oferecer o que ele deseja. Estamos finalizando em Pernambuco uma linha modular para a produção da Leapmotor e podemos fazer o mesmo trabalho com a Dongfeng.
Mais do que colocar marcas para “bater de frente”, nossa receita é a localização. Vamos trazer tecnologias e produtos, trabalhar em conjunto e desenvolver fornecedores no Brasil. O que for produzido aqui será feito por trabalhadores daqui e com componentes e sistemas de fornecedores locais.
“Mais do que colocar marcas para ‘bater de frente’, nossa receita é a localização”
Essa estratégia vale apenas para os veículos elétricos?
Não. Existe mercado para múltiplos tipos de motorização. Os veículos elétricos e eletrificados estão crescendo e terão um espaço muito importante, mas ainda existe um mercado predominante de biocombustíveis e de combustíveis tradicionais.
Nossa estratégia é multi-energy. O consumidor quer liberdade de escolha e um carro adequado à forma como pretende utilizá-lo. Continuaremos oferecendo veículos a etanol, gasolina, híbridos e elétricos.
Com países cada vez mais protecionistas, a exemplo dos Estados Unidos implementando a sua nova política tarifária, na sua visão, qual deveria ser o papel do governo brasileiro no fortalecimento da indústria automotiva nacional?
O ponto central é estabelecer prioridades. A indústria automobilística movimenta centenas de milhares de empregos diretos e quatro, cinco ou seis vezes mais postos indiretos, considerando toda a cadeia de fornecedores. A pergunta é: qual é a prioridade do País?
Os Estados Unidos decidiram priorizar a manufatura automotiva e seus fornecedores. Para isso, estão definindo um sistema regulatório e uma política comercial próprios. A Europa também discute quais regras aplicar ao setor para incentivar e privilegiar a produção local.
O Brasil é um mercado enorme, com grande potencial presente e futuro, e também precisa estabelecer suas prioridades. Este é um momento importante para discutir isso com a política brasileira.
“O Brasil é um mercado enorme, com grande potencial presente e futuro, e também precisa estabelecer suas prioridades”
Isso poderia significar tarifas maiores para empresas que apenas importam componentes ou montam os veículos no Brasil, sem desenvolver uma cadeia local?
Essa é uma decisão da política. Eu trabalho com números. Em junho de 2026, a indústria automobilística brasileira vendeu cerca de 260 mil carros, ante aproximadamente 225 mil em junho de 2025. O mercado cresceu, o que, em tese, deveria significar mais negócios para as montadoras e os fornecedores locais e, consequentemente, mais empregos.
Mas, quando entramos nos números, vemos que a participação das marcas chinesas passou de menos de 10% para cerca de 20%. E cada carro contém entre aproximadamente 900 quilos a uma tonelada de aço. Então, qual é o impacto desse avanço sobre a indústria brasileira do aço?
Considerando os carros importados e os kits trazidos da China, o volume de aço que entrou no Brasil por meio desses veículos passou de aproximadamente 20 mil toneladas, em junho de 2025, para 50 mil toneladas em junho de 2026. Mais do que dobrou.
Isso significa que, mesmo com o crescimento da indústria automobilística brasileira, empresas como Gerdau e Usiminas podem não estar capturando esse aumento da demanda. Quem ganhou mais espaço foram os produtores instalados na China.
Esses números deveriam ser colocados em uma planilha e considerados no processo de decisão. Se a prioridade é continuar desenvolvendo as empresas brasileiras de aço, assim como os fornecedores locais de plásticos, componentes elétricos e eletrônicos, existe um caminho. Se a prioridade for outra, o caminho será diferente. Cabe aos políticos decidir.
A Stellantis anunciou R$ 32 bilhões em investimentos na América do Sul, dos quais R$ 30 bilhões serão destinados ao Brasil. Onde esse dinheiro será aplicado?
Em produtos, tecnologias, desenvolvimento de fornecedores, concessionárias e parcerias. Fundamentalmente, em produto e tecnologia. Nós localizamos a produção, não simplesmente importamos.
Temos marcas muito fortes e um time capaz de entender o que o consumidor deseja e oferecer a tecnologia e o produto que ele vai querer comprar nos próximos meses.
Qual é a meta da Stellantis para a América do Sul até 2030?
Queremos crescer 10% em volume e manter a liderança no continente, tanto com as marcas que já temos quanto com as novas parcerias. Também queremos preservar a liderança no Brasil e ampliar nossa presença em mercados como Chile, Peru, Equador e Colômbia, onde nossa participação ainda está abaixo do nível que temos no Brasil e na Argentina.