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A Acciona ganhou tração no Brasil com metrô e saneamento. Agora, estuda entrar em data centers

Por Redação 14 de agosto de 2026 9 min de leitura


Depois de fazer dos trilhos do Metrô de São Paulo sua maior vitrine no Brasil e avançar nas concessões de saneamento básico, a espanhola Acciona prepara sua entrada nos data centers, uma nova frente de infraestrutura no País que combina engenharia e energia renovável – dois negócios que a companhia tem experiência global.

A Acciona escolheu o Rio Grande do Norte para estudar seu primeiro projeto de data center no Brasil. A ideia, ainda em fase de avaliação, é atuar não apenas como construtora do empreendimento. O modelo desenhado prevê desenvolver toda a infraestrutura, incluindo a unidade de geração renovável que abasteceria o centro de dados, além de participar de sua operação.

“Estamos estudando abrir uma vertical de data center no Brasil”, afirma André De Angelo, CEO da Acciona no País, ao NeoFeed. “O modelo que consideramos ideal integra a geração de energia renovável, a construção e a operação do data center.”

A movimentação coloca a gigante espanhola, que está presente em mais de 40 países e faturou € 10,1 bilhões apenas no primeiro semestre de 2026, em uma corrida que ganhou outra dimensão com o avanço da inteligência artificial e da computação em nuvem.

Segundo estimativa da Brasscom, a associação das empresas de tecnologia da informação, o Brasil tem potencial para atrair US$ 92 bilhões em investimentos em infraestrutura e equipamentos de data centers até 2031. A capacidade instalada no País, de 843 megawatts, poderia chegar a 3,1 gigawatts nesse período.

Na visão de De Angelo, o Brasil ganhou tamanho dentro do mapa global da empresa e hoje figura, ao lado de Estados Unidos e Austrália, entre os três mercados prioritários da Acciona.

A escolha do Nordeste para a primeira investida em data centers também aproxima duas agendas que vêm avançando em paralelo no País. De um lado, a região concentra grande capacidade de geração renovável. De outro, o crescimento das cargas intensivas em energia, como data centers e projetos de hidrogênio verde, exige reforços na infraestrutura elétrica.

Mas De Angelo aponta justamente a infraestrutura de transmissão e os cortes de geração renovável determinados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) entre os gargalos a serem superados. “O desenvolvimento de data centers depende de políticas públicas, como o Redata, e da solução de desafios energéticos”, diz o executivo.

O problema é que a principal política citada por ele ainda não está de pé. A medida provisória que instituiu o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter perdeu validade em fevereiro deste ano. A Câmara aprovou um projeto de lei para recriar o programa, mas o PL 278/2026 continua em tramitação no Senado e aguarda a inclusão para votação.

Para a Acciona, a nova vertical também marcaria sua entrada no setor elétrico brasileiro, uma área em que o grupo já tem presença internacional.

Dos data centers aos trilhos

A segunda avenida de expansão estudada pela Acciona são as ferrovias, uma velha conhecida da companhia fora do País. Dos dois projetos que estão no radar, o mais próximo de sair do papel é a EF-118, o chamado Anel Ferroviário do Sudeste, com cerca de 575 quilômetros de extensão entre Rio de Janeiro e Espírito Santo e investimentos estimados em R$ 7,7 bilhões.

A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) trabalha para realizar o leilão na primeira quinzena de dezembro. Fontes do mercado ouvidas pelo NeoFeed afirmam que, além da Acciona, a Power China e um consórcio formado pelas gestoras 4UM, antiga J.Malucelli, e Opportunity demonstraram interesse pelo projeto.

A outra ferrovia analisada pela espanhola está em estágio mais embrionário – e cercada de controvérsias. É a Ferrogrão (EF-170), projeto de 933 quilômetros concebido para ligar Sinop, em Mato Grosso, ao porto de Miritituba, no Pará, e criar um corredor de escoamento do agronegócio pelo Arco Norte.

Com investimento estimado atualmente na casa de R$ 30 bilhões, a Ferrogrão acumula questionamentos ambientais, críticas à sua viabilidade econômico-financeira e disputas judiciais. O projeto de concessão foi suspenso pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e o Ibama exigiu a atualização de estudos ambientais, empurrando a perspectiva de leilão para além de 2026.

“Pode ser uma ferrovia que vire uma solução para melhorar a competitividade do custo do frete, fazendo com que o produto brasileiro chegue ao seu destino mais barato e, principalmente, por ser um projeto com grande redução de emissões”, afirma De Angelo.

O executivo reconhece, porém, que a expansão das concessões ferroviárias ainda exige amadurecimento dos modelos de negócio e maior clareza sobre a divisão de riscos entre poder público e iniciativa privada.

“A participação pública no Capex é essencial, e a concorrência, inclusive de empresas chinesas, é positiva por validar a atratividade do mercado brasileiro”, diz o CEO.

O interesse por ferrovias não significa que qualquer ativo de transporte cabe na estratégia da Acciona. Hidrovias e rodovias, por exemplo, estão fora do radar neste momento.

No primeiro caso, De Angelo cita a complexidade ambiental e regulatória. No segundo, avalia que o mercado brasileiro já amadureceu a ponto de oferecer hoje muitos projetos de menor porte, enquanto a Acciona procura empreendimentos de Capex elevado e com maior complexidade de engenharia.

Credencial de R$ 19 bilhões

A principal vitrine da Acciona no País é a Linha 6-Laranja do Metrô de São Paulo, uma PPP de R$ 19 bilhões e uma das maiores obras de mobilidade urbana em execução na América Latina.

O projeto prevê 15,3 quilômetros e 15 estações, ligando Brasilândia, na zona norte, a São Joaquim, na região central. As primeiras seis estações entraram em operação assistida em julho deste ano. Quando concluída, a linha deverá transportar mais de 630 mil passageiros por dia e reduzir para 23 minutos um percurso que hoje pode levar cerca de uma hora e meia de ônibus.

“A aquisição da concessão da Linha 6 do Metrô, em 2020, consolidou nosso papel como investidor, operador e construtor de longo prazo”, afirma De Angelo. Além de construir a linha, a Acciona fornece os trens e equipamentos, ficando encarregada da operação e manutenção da concessão por 19 anos após a entrega da última estação, em 2027.

A companhia quer usar essa experiência para continuar crescendo em mobilidade urbana. A Acciona apresentou um PMI — instrumento pelo qual a iniciativa privada elabora estudos para subsidiar a estruturação de um projeto público — para a Linha 16-Violeta do Metrô de São Paulo.

A primeira etapa da nova linha prevê investimentos de R$ 37,5 bilhões, 19 quilômetros de extensão e 16 estações, ligando as zonas leste e oeste da capital. A Acciona também acompanha os estudos da Linha 20-Rosa. A expansão, entretanto, encontra uma limitação fora de São Paulo.

“O principal desafio para novos projetos de mobilidade urbana em outros estados é a dificuldade fiscal dos governos em garantir a contraprestação financeira ao longo de contratos de 30 anos”, afirma o CEO.

A empresa também tem ampliado a sua atuação no setor de saneamento, operando três PPPs  (Pernambuco, Paraná e Espírito Santo). Em maio, venceu o leilão de uma PPP de esgotamento sanitário na Paraíba — surpreendendo o mercado pelo apetite em um setor no qual os grandes players vêm reduzindo interesse.

“O marco do saneamento de 2020 criou uma janela de oportunidade e estamos acompanhando as oportunidades de PPPs e concessões em todo o País”, afirma o executivo, acrescentando que a região Norte-Nordeste é vista como estratégica, pois possui a maior necessidade de investimentos rápidos para atingir a universalização dos serviços até 2033 – numa indicação que deve participar de novos certames.

Brasil no top 3

Segundo De Angelo, essa disposição para aumentar a exposição ao País está menos relacionada ao ritmo da economia brasileira do que à evolução da própria indústria de infraestrutura.

O executivo cita estimativas segundo as quais 85% dos cerca de R$ 280 bilhões investidos em infraestrutura em 2025 vieram da iniciativa privada — reflexo de um processo de concessões e PPPs que atravessou diferentes governos.

“A infraestrutura é um setor que une diferentes espectros políticos no Brasil, garantindo a continuidade da agenda independentemente do governo”, diz ele. “Esse aprimoramento contínuo, junto com a reforma tributária, tem atraído mais investidores.”

Isso não significa ausência de obstáculos. Os juros elevados encarecem a estruturação financeira de grandes projetos e o espaço fiscal reduzido limita a capacidade de governos aportarem recursos ou assumirem contraprestações de longo prazo.

“Os investimentos em infraestrutura também dependem do orçamento público, tornando as previsões mais complexas”, afirma De Angelo.

“Se as verbas das emendas fossem direcionadas aos projetos do governo, não haveria problema, mas a realidade é outra, não existe esse alinhamento”, complementa chamando a atenção para a disputa por recursos dentro do próprio orçamento público.

É justamente por depender de contratos que atravessam décadas que a Acciona, segundo ele, só avança quando considera bem definida a distribuição de riscos entre governo e investidores.

“Em um cenário global instável, o Brasil se destaca como um destino seguro e amigável ao investidor estrangeiro, com regras claras”, afirma De Angelo. “A simplificação tributária em andamento fortalece ainda mais essa posição privilegiada para atrair capital externo.”



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Redação

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