Mercado secundário movimenta concessões de rodovias e atrai Kinea, JiveMauá e YvY Capital
O ciclo de concessões rodoviárias ainda não terminou no Brasil, mas, com os principais ativos já leiloados, o mercado começa a monitorar o que pode ser sua próxima etapa. Depois de uma sequência de disputas que diversificou investidores, o amadurecimento das concessões abre espaço para uma possível consolidação nos próximos anos, com fusões, aquisições e negociações no mercado secundário.
Recentemente, a JiveMauá adquiriu o controle da Rota Verde da Azevedo & Travassos, marcando sua estreia na gestão direta de ativos de infraestrutura rodoviária. A gestora já busca novas oportunidades, tanto em futuros leilões como no mercado secundário, com foco principalmente no Centro-Oeste.
“Estamos buscando atuar nessas duas frentes”, diz Diego Fonseca, sócio e diretor financeiro e de operações da JiveMauá, que explica que há conversas em andamento com investidores interessados em vender participações em concessões operacionais.
Outros investidores também demonstram apetite. É o caso do fundo Atlas, uma parceria entre o Grupo Houer, empresa de engenharia e consultoria especializada em infraestrutura, e a Yvy Capital, gestora fundada pelo ex-ministro da Economia Paulo Guedes e pelo ex-presidente do BNDES Gustavo Montezano.
“Temos capacidade financeira e estamos avaliando todas as oportunidades, inclusive no mercado secundário”, afirma Camillo Fraga, sócio-fundador da Houer.
Neste ano, o Atlas disputou dois leilões de rodovias ligadas ao agronegócio, mas não saiu vencedor. As prioridades para a gestora são ativos voltados ao escoamento da produção agrícola.
Outra marca do setor financeiro que ganhou espaço na infraestrutura é a Kinea. Em parceria com o Grupo Way, arrematou três concessões desde sua entrada nesse mercado e participa de outras duas já operacionais.
A entrada desses novos players ocorreu em meio a uma sequência intensa de leilões. Desde 2023, foram realizadas 24 disputas de concessões rodoviárias federais, entre novos projetos e repactuações de contratos.
Ao longo desse período, gestoras e grupos de construção de menor porte passaram a dividir espaço com nomes tradicionais do setor, como Motiva e EcoRodovias, mudando o perfil de um mercado historicamente dominado por grandes operadoras e construtoras.
Para o sócio e diretor executivo de private equity da Galapagos Capital, Thomas Averbuck, a evolução do ambiente regulatório também ajudou a ampliar a base de participantes. Modelos de leilão mais transparentes e contratos mais estruturados reduziram as “zonas cinzentas” em relação a ciclos anteriores.
“Com mais players ativos, é natural esperar algum movimento de consolidação ao longo do tempo”, afirma Averbuck.
Caminhos da consolidação
A diversidade de investidores também trouxe diferentes horizontes de retorno para o setor. Essa combinação favorece a reciclagem das concessões – já há ativos no mercado em busca de capital ou de novos controladores.
“O investidor que tem capacidade de entrar no início, que envolve riscos de capex mais intensos e de estabilização, pode não ser o mesmo que deseja carregar esse ativo por 30 anos. Por isso, essa reciclagem é muito importante”, diz André Figueira, head do Kinea Equity Infra.
Essa troca de mãos pode envolver diferentes perfis de compradores. Figueira vê espaço para fusões e aquisições entre empresas que já atuam no setor e para a entrada de novos players, entre eles operadores estrangeiros. Ativos mais maduros e contratos robustos e bem desenhados, segundo ele, podem facilitar a chegada desses grupos ao Brasil.
A consolidação também pode ocorrer por meio de combinações societárias. Fonseca, da JiveMauá, vê espaço para reunir concessões de diferentes acionistas sob uma estrutura comum, sobretudo quando houver sinergias regionais. “Fusão de ativos pode ser um caminho bastante importante”, afirma.
O sócio da JiveMauá afirma que algumas das oportunidades em análise ainda envolvem acionistas pressionados pelo endividamento, mas há também investidores que buscam reciclar capital e girar seus portfólios.
O mercado secundário já ganhou força em outros momentos, embora por razões diferentes. O advogado sênior da Manesco Advogados, Rafael Pereira Fernandes, lembra que, durante a Operação Lava Jato, grandes construtoras se desfizeram de concessões em meio à crise.
As próprias repactuações abrem outra frente para a troca de controle das concessões. “É quase como um mercado secundário”, afirma Fernandes sobre as vendas assistidas, mecanismo que permite que contratos repactuados sejam levados novamente a leilão.
Países da Europa e a Austrália já contam com um mercado secundário de rodovias mais desenvolvido. Nos Estados Unidos, onde o setor de concessões é menos maduro, essa dinâmica ainda é incipiente e aparece principalmente como saída para ativos estressados.
Na América Latina, Fernandes considera que o Chile está no estágio mais avançado, enquanto Peru e Colômbia ainda têm mercados menos desenvolvidos.
“A tendência regional é de convergência progressiva ao padrão chileno à medida que os contratos amadurecem e reduzem o risco de renegociação”, diz o advogado sênior da Manesco Advogados.
O ritmo desse movimento, porém, pode variar conforme a maturidade dos ativos. O sócio e managing director da área de assessoria estratégica financeira da G5 Partners, Rodrigo Fraga, pondera que a consolidação pode levar algum tempo.
Fundos de infraestrutura focados em rodovias costumam ter horizontes de sete a dez anos, o que reduz a pressão por desinvestimentos entre aqueles que entraram recentemente no setor.
Para as concessões mais novas, o movimento tende a ganhar força à medida que os investimentos avancem e os riscos diminuam.
“Vamos ver um grande movimento de M&A já daqui a três, quatro anos”, afirma Fraga. No curto prazo, ele enxerga uma maior possibilidade de transações com ativos mais antigos ou que estejam destravando pendências regulatórias.
Leilões ainda no radar
A perspectiva de consolidação não significa o fim dos leilões. A G5 Partners estima que mais de 20 ativos podem chegar ao mercado entre este ano e os próximos dois, incluindo novos projetos federais e estaduais e repactuações de contratos existentes.
Os próximos projetos, porém, devem ter características diferentes dos que marcaram a onda recente de concessões. O CEO da Motiva, Miguel Setas, afirmou recentemente que o leilão da Régis Bittencourt encerrou uma fase do mercado primário. “O pipeline de rodovias continua construtivo, mas agora com um perfil diferente”, disse o executivo durante teleconferência de resultados.
A Galapagos também mantém as duas frentes no radar. Averbuck afirma que a gestora continua interessada nos leilões e, caso surjam boas oportunidades no mercado secundário, pretende aplicar os mesmos critérios de investimento: contratos bem estruturados, previsibilidade na execução das obras e risco adequadamente remunerado.