O que a Justiça encontrou na Fictor após 30 dias dentro da operação
Ler o resumo da matéria
A administradora judicial Laspro identificou, nos primeiros 30 dias de acompanhamento da recuperação judicial da Fictor, uma estrutura altamente dependente de créditos entre empresas do próprio grupo, balanços sem assinatura, extratos bancários ausentes, contas vinculadas a CPFs de acionistas e transferências via PIX para pessoas físicas depois classificadas como empréstimos a partes relacionadas.
Segundo o primeiro Relatório Mensal de Atividades, a Fictor Invest declarava R$ 2,78 bilhões em ativos, dos quais 99,6% eram créditos perante partes relacionadas, incluindo AFACs e contratos de mútuo, sem comprovação de liquidez, vencimento ou amortização. Na OROS Corretora de Seguros, a Laspro apontou R$ 402,5 mil em empréstimos com partes relacionadas e R$ 5,33 milhões em conta vinculada a CPFs de acionistas, o que, segundo a administradora, pode indicar “empolamento” do ativo.
O relatório também cobra explicações sobre uma baixa de R$ 309,7 milhões na Fictor Holding Financeira, atribuída à operação B2B/AMEX, e registra baixa ou nenhuma geração operacional em várias empresas do grupo. Na Fictor Alimentos, a Laspro informou que a unidade de Betim foi devolvida ao antigo proprietário, sem comunicação ao mercado até o fechamento da reportagem.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Uma estrutura altamente dependente de créditos entre empresas do próprio grupo, balanços entregues sem assinatura, extratos bancários ausentes, contas vinculadas a CPFs de acionistas, transferências via PIX para pessoas físicas posteriormente classificadas como empréstimos a partes relacionadas e uma baixa de R$ 309,7 milhões ainda sem uma resposta da companhia.
Esse foi o cenário encontrado pela administradora judicial Laspro nos primeiros 30 dias dentro da Fictor, segundo o primeiro Relatório Mensal de Atividades (RMA) apresentado à Justiça no âmbito da recuperação judicial do grupo.
O RMA aprofunda um diagnóstico que já havia aparecido nos primeiros laudos da Laspro na recuperação judicial, que, conforme publicado pelo NeoFeed, apontavam inconsistências contábeis, indícios de confusão patrimonial e operações entre partes relacionadas.
Agora, já na fase de acompanhamento mensal da RJ, a Laspro mostra que parte desses pontos segue sem esclarecimento e cobra novas explicações.
“A aparente solvência de determinadas entidades é mantida de forma artificial por meio de Adiantamentos para Futuro Aumento de Capital (AFAC) e contratos de mútuo, os quais substituem ativos operacionais por créditos de difícil recuperação perante o próprio ecossistema econômico do Grupo Fictor”, afirma a administradora judicial.
Na Fictor Invest, empresa por meio da qual o grupo captava recursos de investidores em SCPs, a Laspro identificou que, em fevereiro, a companhia declarava R$ 2,78 bilhões em ativos totais, sendo R$ 2,77 bilhões no ativo não circulante. Desse valor, 99,6% estava vinculado a créditos perante partes relacionadas, incluindo R$ 1 bilhão registrado como AFAC e R$ 1,76 bilhão em contratos de mútuo.
Segundo a administradora judicial, não foram apresentados elementos que comprovassem liquidez, vencimento ou amortização material desses valores.
Como mostrou o NeoFeed em abril, o próprio Rafael Góis, sócio-fundador e CEO da Fictor, aparecia entre os nomes ligados a valores registrados a receber pela companhia. No novo relatório, a Laspro volta a apontar movimentações do tipo, agora dentro da OROS Corretora de Seguros, empresa do grupo.
O relatório aponta que a OROS realizou transferências via PIX em 30 de janeiro deste ano para Lucas Kuperman Conte e Felipe Micheloni Pereira, que, segundo a Laspro, são vinculados ao grupo. Posteriormente, a operação foi classificada como “aumento de mútuos ativos”, o que, de acordo com a administradora judicial, “impacta diretamente a liquidez imediata da entidade”.
No fim de fevereiro, a OROS registrou R$ 402,5 mil em “Empréstimos com Partes Relacionadas”, valor equivalente a 99,03% de seu ativo circulante realizável. Os principais devedores eram a Fictor Holding, com R$ 202,5 mil, e Felipe Micheloni Pereira, com R$ 200 mil.
Outro ponto apontado pela Laspro foi a existência de uma conta denominada “Bancos Conta Vinculada”, no valor de R$ 5,33 milhões. O valor aparecia vinculado aos CPFs dos acionistas Diego Ricardo Nascimento, com R$ 4,54 milhões, e Ana Paula Carmesini, com R$ 789,7 mil.
“Sob a ótica contábil, a manutenção de saldos expressivos vinculados a CPFs de acionistas no Ativo Circulante, sem evidência de liquidez imediata ou destinação operacional clara, sugere ‘empolamento’ do ativo, com potencial efeito de mascaramento da real erosão patrimonial e do capital circulante”, diz a Laspro no relatório.
Na prática, o “empolamento” citado pela Laspro se refere a ativos registrados no balanço que, segundo a administradora judicial, não tinham substância econômica aparente ou liquidez comprovada.
Na Fictor Holding, a Laspro atribui ao mesmo “empolamento” uma baixa de cerca de R$ 580 milhões no ativo total, de R$ 4,07 bilhões para R$ 3,49 bilhões, entre 31 de dezembro de 2025 e 1º de janeiro de 2026.
O ajuste, segundo o relatório, decorreu da eliminação de lançamentos cruzados com a Fictor Invest, descritos pela administradora judicial como “sem substância econômica aparente”.
As inconsistências também aparecem na comparação entre demonstrativos. Na Fictor Holding Financeira, a DRE de janeiro apontava prejuízo de R$ 310,2 milhões, enquanto o balancete do mesmo período reportava patrimônio líquido positivo de R$ 297,2 milhões.
Na FW SPE Solar 1 LTDA, outra empresa do grupo, a Laspro faz um “alerta de fidedignidade histórica”, ao apontar discrepância entre o patrimônio líquido de 31 de dezembro de 2025 e o saldo de abertura de janeiro de 2026, com alteração da base histórica de lucros ou prejuízos acumulados sem documentação comprobatória suficiente.
A Laspro também cobra explicações sobre uma baixa de R$ 309,7 milhões na Fictor Holding Financeira, reconhecida em janeiro de 2026 como “Despesa com Cartão” e atribuída à operação B2B/AMEX. Segundo o relatório, a companhia mantinha em 2025 saldos relevantes ligados a colaterais e faturas da operação, que só foram efetivamente zerados em janeiro de 2026, com o reconhecimento da despesa.
A operação com cartões já havia sido citada nos primeiros laudos da administradora judicial, revelados pelo NeoFeed em abril. Nos documentos de fim de 2025 analisados pela Laspro, a Fictor Holding registrava R$ 506,9 milhões a receber vinculados a operações com cartões B2B da American Express. A American Express constava na lista de credores com R$ 800 milhões a receber, embora já tenha negado ser credora da Fictor.
Redução de atividade e falta de aviso ao mercado
Ao longo do RMA, a Laspro ainda identifica baixa ou nenhuma geração operacional em diferentes empresas do grupo — incluindo a Fictor Holding, a Fictor Invest, SPEs de energia e empresas agroindustriais. Em alguns casos, valores registrados como receita decorriam de estornos, provisões ou receitas financeiras, e não de faturamento ligado à atividade empresarial.
A redução da atividade também aparece na Fictor Alimentos, única empresa listada do grupo, que chegou à bolsa por meio de um IPO reverso, em 2024.
Segundo o RMA, em diligência realizada em 27 de abril de 2026 no endereço da Fictor Alimentos Betim, em Minas Gerais, a administradora judicial foi informada de que a unidade antes arrendada pela companhia havia sido devolvida ao antigo proprietário.
Diferentemente da contratação do arrendamento, anunciada ao mercado por fato relevante em julho de 2025, a devolução da unidade não foi comunicada aos investidores até o encerramento desta reportagem. De acordo com o relatório, a Fictor confirmou a desmobilização e o encerramento das atividades da UPI Mellore naquele endereço.
A recuperação judicial da Fictor inclui 43 empresas do grupo. A companhia atribuiu a crise ao abalo reputacional após a tentativa de compra do Banco Master e à corrida por resgates de investidores de SCPs, que teria chegado a cerca de R$ 3 bilhões, segundo documentos do processo.
Procurada pelo NeoFeed, a Fictor não respondeu aos questionamentos da reportagem até a publicação desta matéria.