Ancelotti diz que Seleção pode ser seu último trabalho e revela que treina para cantar o hino na Copa
Carlo Ancelotti é o treinador com mais títulos da Liga dos Campeões da Europa e é o único técnico a vencer as cinco maiores ligas no Velho Continente: a da Alemanha, da Espanha, da França, da Inglaterra e da Itália. “Foi sorte”, ele desconversa, modestamente, quando perguntado sobre o tema.
O fato é que o atual técnico da Seleção Brasileira e uma das grandes esperanças da torcida canarinho tem uma carreira de triunfos. O que o país todo espera é que ele traga a sexta estrela, a do hexa, na Copa do Mundo de 2026.
Trabalhar com brasileiros não é novidade para ele, que já jogou com Falcão e Toninho Cerezo, na Roma, e depois treinou ícones como Dida, Cafu, Rivaldo, Kaká, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Vini Jr. Hoje, vive na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, com a mulher Mariann e a enteada Chloe.
Esta última, aliás, está produzindo um documentário sobre a vida esportiva do padrasto na infância, em Reggiolo, na Itália, e como isso se conecta com sua carreira. Ele ainda escreve livros sobre futebol, já atuou como ator em filmes na Itália e nos EUA e, sempre que pode, escapa para Madri e Vancouver para descansar.
Não conseguiu pisar nas areias cariocas neste período vivendo por aqui, mas afirma que tem muita vontade de ir à praia. A missão de trazer a taça, contudo, vem na frente. “
Todo treinador precisa ter sorte. Mas a chave do sucesso é a paixão pela profissão. Estou completando agora 30 anos como treinador e ainda sou muito apaixonado pelo futebol”, ele diz.
Confira trechos da entrevista, na sede da CBF, no Rio de Janeiro.
Carlo, você tem uma história com esportes desde a infância, em Reggiolo, na Itália. Você saberia precisar como e quando se entendeu como atleta?
Futebol na minha vida entra como uma paixão. Era o que se podia praticar naquele tempo. Voltava da escola, me encontrava com outros jovens e jogava todos os dias no verão. Mantenho esse interesse até hoje. Morava com meu pai, minha mãe, minha irmã, meu avô e minha avó. Era uma família unida. Minha mãe não queria que eu saísse de casa, mas mesmo assim fui embora. Me mudei para Parma com 15 anos, e ainda conciliava o esporte com a escola.
E para um menino que gostava dos gramados na década de 1970, havia muita referência de futebol brasileiro na televisão?
A primeira recordação que tenho do Brasil é a da final de 1970, quando a Seleção venceu a Itália por
4 a 1. Eu tinha 11 anos, mas me lembro bem do Pelé, Jairzinho, Tostão, Carlos Alberto… o Brasil tinha uma grande equipe. Era também a primeira vez que se podia ver uma partida pela televisão e todo mundo estava encantado. Havia expectativa por parte dos italianos, mas o Brasil estava muito bem.
“Existe uma pressão muito grande e o jogador precisa superar o medo de errar, afinal ninguém é perfeito. Uma Copa do Mundo não é conquistada por uma equipe perfeita. Ganha um Mundial a equipe que é capaz de reagir às adversidades”
Você se tornou profissional jogando pelo Parma, fazendo sucesso muito rápido. Como foi esse seu início de carreira?
Comecei jogando na terceira divisão, quando era treinado pelo Cesare Maldini, que falou do meu talento para o Nils Liedholm, técnico da Roma, na Série A italiana. Ele se interessou, foi me ver jogar e, com 20 anos, fui para a Roma. Era 1979. Fiquei por lá por oito anos, até 1987, e passei por muitas coisas, incluindo lesões nos joelhos. Uma delas me tirou da Copa de 1982 e fiquei muito mal. Foi o ano em que a Itália foi campeã, ganhou daquele time incrível do Brasil… [a Seleção Brasileira, do técnico Telê Santana, que tinha Zico, Falcão e Sócrates, venceu seus quatro primeiros jogos e encantou o mundo até ser eliminada pela Itália na derrota por 3 a 2 na segunda fase].
Em 1987 você foi para o Milan. Foi ali seu melhor momento como jogador? Esperava ter tanto sucesso por lá?
Tudo começou com um visionário, que era o Silvio Berlusconi, então presidente do Milan. Ele buscou um treinador com uma nova mentalidade e trouxe o Arrigo Sacchi, que estava treinando um clube na segunda divisão italiana, e contratou os holandeses Van Basten, Gullit e Rijkaard, que ajudaram a construir aquele time vitorioso. Graças ao trabalho fantástico de Sacchi, que era inovador, tivemos um período positivo e que fez história.
Assim que você parou de jogar, já veio a ideia de virar treinador?
O Arrigo Sacchi saiu do Milan em 1991 e me disse: “Quando você terminar a sua carreira, gostaria que você fizesse parte da minha comissão técnica na Seleção Italiana”. O projeto dele era preparar a Itália para a Copa do Mundo de 1994 e acabei aceitando integrar o grupo.
“Eu entendia que a estratégia de uma equipe era mais importante do que a individualidade de um atleta. Mas percebi que estava errado. O mais importante é o jogador. Um treinador precisa, de fato, se adaptar ao estilo de jogo de um craque, e não o contrário”
Na final da Copa do Mundo de 1994, entre Brasil e Itália, há uma imagem sua, já na comissão técnica, consolando o Roberto Baggio, que perdeu o pênalti decisivo que acabou dando o tetra para a Seleção Brasileira. O que falar para um craque nessa hora?
Antes da disputa por pênaltis você precisa falar com o jogador, saber se ele quer bater ou não. É uma pergunta normal, mesmo para um grande atleta. Nessa hora, o aspecto psicológico é o mais importante. Alguns se sentem confiantes, outros não. Falei que isso faz parte do futebol. Quem nunca perdeu um pênalti é aquele que nunca cobrou. Aqueles que já bateram já perderam também. Você pode ter um aproveitamento perfeito nos treinamentos, mas na hora de bater, a pressão é muito grande. A parte emocional influencia demais. O lado psicológico fala mais alto do que o aspecto técnico nessa hora.
Entrevistei o Kaká para a Velvet há um ano e ele falou muito da sua influência no crescimento profissional dele no Milan, que o levou a ser o melhor do mundo em 2007. Kaká foi um jogador especial para você?
Kaká foi um dos primeiros meio-campistas com a capacidade de aliar o talento com a parte física. Sua intensidade em campo, seu ritmo de jogo para um meia foi algo raro de se encontrar nos jogadores da posição nos anos anteriores. Ele foi o primeiro a aproveitar esse conceito do futebol moderno: talento e intensidade.
E o Ronaldo Fenômeno? Como foi sua relação com ele?
Ronaldo, para mim, foi o melhor jogador que já treinei. Foi um talento puro, jogador de muita qualidade técnica. E isso considerando todos os atletas que já comandei, inclusive os estrangeiros.
Os jogadores brasileiros têm um talento natural e sabem improvisar como poucos. Na Europa, a parte tática sempre falou mais alto e nossos jogadores acabaram se aprimorando por lá nesse sentido. Para a próxima Copa do Mundo, é melhor priorizar essa qualidade técnica dos jogadores ou aprimorar o lado tático para termos êxito?
Essa é uma boa pergunta. Eu penso que a criatividade e o talento têm que ser mantidos em todos os aspectos. É preciso trabalhar sempre em cima disso. O talento não pode ser construído. Por mais que eu trabalhe um jogador, nunca vou conseguir extrair isso dele se ele não tiver essa qualidade. Já para o atleta talentoso, você pode dar muitas ferramentas para que seu futebol fique melhor coletivamente. Mas é preciso tomar cuidado, pois quando se foca muito na parte tática, acaba podando a criatividade.
“Para mim, todo jogador brasileiro é especial. A capacidade do país de produzir atletas tão talentosos é impressionante. Acho que o clima, a praia, a cultura, essa soma faz com que esses jogadores sejam diferenciados”
A parte tecnológica, como as análises de desempenho, ajuda também?
Sim, recebo todo tipo de análise estatística, me ajuda bastante, mas isso não é o mais importante. É preciso analisar também os dados físicos dos atletas, o que acaba sendo primordial. Sabemos quantos metros eles correram nas partidas e isso nos ajuda a planejar a carga de treinamentos. A parte técnica das estatísticas nos mostra o desempenho, como chutes a gol, passes, mas isso não tem uma correlação direta na hora da convocação.
Depois de quase 30 anos como técnico de clubes, você assumiu o comando de uma seleção. E o que percebemos aqui é que tem sido difícil nossos melhores jogadores repetirem o bom desempenho que têm na Europa. Como trabalhar isso agora nesse outro lado?
Já treinei jogadores italianos, franceses, alemães, espanhóis, argentinos e muitas vezes eles me falaram que estavam sobrecarregados, que as viagens eram cansativas e que gostariam de pedir uma folga para os técnicos das seleções nacionais. Mas isso nunca aconteceu com um jogador brasileiro. Nunca! Todos querem jogar muito mais pela seleção nacional do que pelo clube. Eles têm muita vontade de representar o país, mas precisamos trabalhar isso também. Já são 24 anos sem título de Copa do Mundo. Os jogadores do Brasil têm mais pressão do que os de outras seleções. Todo o país espera uma conquista e cobra muito isso dos jogadores. A pressão em cima deles é alta. A chave é transformar tudo isso em motivação.
Vinicius Junior é o único jogador de futebol patrocinado pela Vivo e, quando fechamos esse contrato, ainda não havia tanta pressão nos ataques racistas em cima dele na Espanha. Hoje, quatro anos depois, vemos episódios frequentes e você, quando estava no Real Madrid, se posicionou muito contra esses atos. O que dizer a um atleta nessa hora e como combater o racismo?
É preciso sempre apoiá-lo, obviamente. Junior sofreu muito com esse tema. No início, como você disse, ele não se dava conta disso. Mas depois, pouco a pouco, na Espanha, ele passou a ser tratado muito mal pelos torcedores rivais. O Real Madrid sempre deu muito apoio a ele e acredito que grande parte da imprensa local também. Depois de tudo o que aconteceu contra o Vinicius, acho que houve uma melhora nos casos de racismo por lá. E Vini foi sem dúvida um responsável muito grande por isso. Mas tudo o que passou foi muito pesado. Com seu caráter e sua seriedade, ele vem conseguindo ganhar essa luta. E segue sendo humilde, o que é uma qualidade muito rara para um jogador consagrado no futebol mundial.
“O trabalho tático só ganha do talento quando o talento não trabalha. Por isso é fundamental que o jogador habilidoso trabalhe mais, corra, seja altruísta e entregue tudo para a equipe. O mais importante é que o futebol é coletivo. Não é um esporte individual”
O brasileiro anda insatisfeito com o futebol da Seleção nos últimos anos e, até por uma questão política, não existe mais aquele orgulho de vestir a camisa. Você sente que a Seleção ainda está distante do torcedor brasileiro?
De modo geral, acho que os torcedores perderam um pouco aquela atração pelas seleções nacionais. O calendário de jogos está cheio agora. Na Europa, por exemplo, nem sempre as grandes seleções vão enfrentar grandes adversários e isso acaba tirando o interesse do torcedor. Mas aqui na América do Sul eu acho que ainda não é assim por conta da rivalidade no futebol que existe entre todos os países. Aquele sentimento de torcer para o seu país se mantém vivo, sim.
Seu filho Davide, e seu genro, Mino, trabalham com você. Como é ter a família por perto também na parte profissional
Nunca daria uma responsabilidade grande para o meu filho se ele não fosse capacitado. Ele se formou em Educação Física, estudou bastante, depois virou assistente e já trabalha comigo há muitos anos. O marido da minha filha é formado em Nutrição, Suplementação e se especializou em preparação física. Entendo que estou cercado de gente muito competente na CBF. Tanto no aspecto físico, médico, de logística e de análises. Tudo isso é muito importante para uma seleção nacional. E tenho percebido que tem sido muito bom trabalhar com brasileiros no staff técnico. Eles são diferentes dos ingleses, dos franceses e dos alemães. O brasileiro é humilde. Não quero criticar os outros, mas o brasileiro tem também muito conhecimento e não é arrogante.
Como você vê o momento da Seleção Italiana fora da terceira Copa do Mundo seguida?
É um problema de geração. Nos últimos anos não saíram bons atacantes. O futebol italiano sempre teve também como ponto forte seu sistema defensivo e agora isso se perdeu um pouco com a tentativa de se igualar ao futebol moderno e globalizado. As grandes equipes italianas, Milan, Inter, Juventus e Roma, não têm atacantes italianos. Todas têm atacantes estrangeiros.
Você está treinando para cantar o Hino Nacional Brasileiro?
É muito difícil, mas na Copa do Mundo eu vou cantar. 100%! Aqui na Seleção Brasileira os jogadores que são convocados pela primeira vez precisam cantar o hino na frente de todos os seus companheiros. E muitos erram, e começam de novo, porque é muito difícil.
O trabalho na Seleção Brasileira vai ser o último na sua carreira?
Creio que sim, só não sei ainda quando. Se vai ser em 2034, 2038 ou 2042 [risos].
*Christian Gebara é presidente da Vivo e diretor artístico da revista Velvet