ETFs alavancados estouram “bolha” de ações de IA (na Coreia do Sul)
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A Bolsa de Seul enfrentou uma correção severa, com queda de 16% em dois dias, após um período de euforia impulsionado por lucros extraordinários de gigantes de semicondutores, como Samsung e SK Hynix. Apesar de resultados financeiros impressionantes, as expectativas irreais levaram a uma onda de vendas, especialmente após a SK Hynix reportar um lucro abaixo do esperado.
A situação foi exacerbada pelo desmonte de ETFs alavancados, que multiplicaram perdas e atraíram investidores amadores. O número de contas de negociação de ações disparou, refletindo uma febre especulativa. A liquidação forçada de ativos resultou em perdas significativas para muitos investidores, levando o governo a considerar restrições aos ETFs alavancados. A turbulência afetou também outros mercados, com preocupações sobre o crescimento excessivo do setor de semicondutores e a possibilidade de uma oferta excessiva.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
A Coreia do Sul viveu nos últimos dois dias uma das mais violentas correções de mercado de sua história recente — um choque que começou no setor de semicondutores, se espalhou por toda a bolsa de valores e agora acende um alerta global sobre a vulnerabilidade dos mercados ao boom da inteligência artificial (IA).
O episódio revela como expectativas infladas, lucros extraordinários e produtos financeiros altamente arriscados podem criar uma combinação explosiva, capaz de derrubar até as empresas mais lucrativas do mundo.
Em apenas 48 horas, período no qual duas das maiores fabricantes de chips de inteligência artificial do país registraram aumento de lucros operacionais exorbitantes no segundo trimestre, na comparação anual – Samsung Electronics, de 1.800%, na quinta-feira, 30 de julho; e SK Hynix, de 577%, na véspera -, o índice Kospi da Bolsa de Seul despencou 16%, acumulando quase 40% de baixa desde o pico de junho.
O movimento de queda ocorre após um início de ano marcado por euforia. Impulsionado pela demanda global por chips de memória e pela valorização histórica da Samsung e da SK Hynix, o índice Kospi mais que dobrou, atraindo dezenas de milhões de investidores de varejo.
Muitos deles, por sinal, recém-chegados ao mercado e dispostos a usar empréstimos com margem para ampliar ganhos, além de ETFs alavancados – fundos que usam dívida para multiplicar os movimentos da bolsa, fazendo as ações subirem ou caírem muito mais rápido do que o normal.
Para se ter uma ideia da ciranda financeira criada na Bolsa de Seul, o número de contas individuais de negociação de ações chegou a 110 milhões, o equivalente a duas por cidadão, um sintoma claro da febre especulativa alimentada pela IA.
Essa euforia, porém, virou pânico. A queda na bolsa sul-coreana foi tão abrupta que mecanismos de interrupção de negociação foram acionados, e o mercado entrou em um ciclo de liquidações forçadas. Mesmo após a correção, Samsung e SK Hynix ainda acumulam altas de 70% e 112% no ano — o que reforça a dimensão da bolha que se formou.
O ponto de ruptura veio com os resultados da SK Hynix, segunda maior fabricante de chips de memória do mundo. A empresa reportou um lucro operacional equivalente a US$ 42 bilhões no segundo trimestre — um salto de 557% em relação ao ano anterior.
Em qualquer mercado, esse número seria celebrado como extraordinário. Na Coreia do Sul, foi considerado decepcionante. A expectativa era ainda maior: analistas projetavam US$ 55 bilhões de lucro. A frustração desencadeou uma onda de vendas que derrubou as ações da empresa em 20% intradiários, fechando com queda de cerca de 10% na quarta, 29.
A Samsung divulgou na quinta, 30, resultados históricos: receita equivalente a US$ 119 bilhões (aumento de 130%) e lucro operacional de US$ 62 bilhões, crescimento superior a impressionantes 1.800% em relação ao segundo trimestre do ano anterior.
Suas ações, que haviam caído 5,2% na véspera, tiveram uma recuperação modesta apesar dos resultados da empresa, fechando o dia com valorização de 1,44%. Os papéis da SK Hynix voltaram a desabar, com queda de 9,6% no pregão do dia.
Gatilho
A contradição é evidente: lucros fantásticos estão sendo punidos por expectativas irreais — mas esse não é o único fator.
O verdadeiro gatilho da crise foi o desmonte dos ETFs alavancados, aprovados pelos reguladores no fim de maio. Foram lançados 16 produtos que replicavam, com alavancagem, o desempenho da Samsung e da SK Hynix.
Esses fundos multiplicam tanto ganhos quanto perdas e se tornaram febre entre investidores amadores. Quando as ações subiam, os ETFs disparavam; quando caíram, o efeito foi devastador. A maioria desses produtos perdeu mais de 60% desde o lançamento.
“O desmonte dos ETFs alavancados está causando ondas de choque no mercado, com muitos investidores vendo seu capital principal quase zerado”, revelou Namuh Rhee, presidente do Fórum Coreano de Governança Corporativa, citado pelo jornal britânico Financial Times.
A dívida de margem – dinheiro que o investidor toma emprestado da corretora para comprar mais ações do que conseguiria com o próprio capital, usando os papéis que já possui como garantia – caiu de US$ 27 bilhões para US$ 23 bilhões em poucos dias, refletindo liquidações forçadas que aceleraram a queda. Fóruns de corretoras foram inundados por relatos de perdas de 70% a 80%, com investidores perguntando “quando vou sair desse inferno?”.
A pressão levou o Ministério das Finanças a convocar uma reunião de emergência e anunciar restrições ao acesso a ETFs alavancados. Reguladores afirmaram que esses produtos estavam “amplificando a volatilidade do mercado”.
O Banco Central sul-coreano alertou para o risco crescente do endividamento das famílias, enquanto parlamentares discutem isenção de imposto sobre transações para investidores que sofreram grandes perdas.
A turbulência se espalhou para outros mercados asiáticos e para os Estados Unidos ainda na quarta, 29, com empresas como Sandisk, Arm e AMD registrando quedas. A preocupação aumentou após reportagem da Reuters, no início da semana, indicando que a China pode iniciar a produção em massa de máquinas de litografia DUV, essenciais para chips avançados — um movimento que pode alterar o equilíbrio global do setor.
Apesar dos resultados robustos, analistas alertam que o setor de semicondutores pode ter crescido “rápido demais”. A SK Hynix, por exemplo, que havia se valorizado sete vezes em um ano, já perdeu mais da metade do valor desde o pico de junho. Ou seja, a combinação de custos crescentes, risco de excesso de oferta e expectativas irreais sobre a demanda por IA cria um cenário de incerteza que vai além da Coreia do Sul.