No Brasil, Mercado Pago ganha margem, fatura US$ 2,2 bilhões e passa a Caixa em cartões
Enquanto investidores tentavam entender por que as margens do Mercado Livre encolheram 2,8 pontos percentuais no segundo trimestre de 2026, para 40,9%, uma operação dentro da companhia de US$ 92,8 bilhões de valor de mercado anda na direção oposta. “Aqui, no Mercado Pago, a margem subiu”, afirma André Chaves, vice-presidente sênior do Mercado Pago no Brasil, ao NeoFeed.
No Brasil, o Mercado Pago conseguiu aumentar a rentabilidade justamente enquanto acelerava a expansão do crédito, dos cartões e da adquirência. Embora Chaves não possa apresentar o indicador, outros números ajudam a entender o momento da operação financeira brasileira.
A fintech alcançou receita líquida de US$ 2,2 bilhões no segundo trimestre de 2026 no Brasil, crescimento de 63% em relação ao mesmo período de 2025.
O Brasil já responde por mais da metade dos US$ 4,4 bilhões faturados pelo Mercado Pago na América Latina. A base local de usuários ativos mensais avançou 38% e o volume total de pagamentos da adquirência cresceu 32%, em base neutra de câmbio.
No Mercado Pago brasileiro, a expansão da margem veio, segundo Chaves, da combinação entre uma carteira de crédito saudável, inadimplência controlada e o crescimento da adquirência acima do restante do mercado.
Mas isso não significa que a fintech tenha deixado de subsidiar produtos ou de investir para conquistar clientes. Uma das apostas é a conta remunerada, que pode render 105% do CDI ao dia.
Outra é o cartão de crédito, uma vertical na qual o Mercado Pago está acelerando as emissões mesmo sabendo que os novos clientes pressionam a rentabilidade inicial das carteiras.
A companhia emitiu 2,6 milhões de novos cartões no segundo trimestre, ante 1,6 milhão um ano antes. No Brasil, o Mercado Pago tornou-se o sexto maior emissor do país, de acordo com dados internos da empresa e o ranking anual da CardMonitor. Desde 2023, avançou nove posições.
“A rápida expansão dos cartões de crédito continua sendo um elemento central da estratégia de ecossistema do Mercado Livre”, escreveram Luiz Guanais, Yan Cesquim, Beatriz Cendon e Bruno Carrenho, analistas do BTG Pactual.
“Ultrapassamos quase todos os players que eu chamaria de médios”, afirma Chaves. “Estamos atrás dos quatro grandes bancos e do roxinho. Ultrapassamos até a Caixa Econômica.”
A aceleração tem um preço no início do relacionamento. No consolidado do grupo, os cartões passaram a representar 47% da carteira, ante 43% um ano antes. A margem financeira líquida depois das perdas com crédito (Nimal, na sigla em inglês) da vertical de cartões saiu do ponto de equilíbrio no segundo trimestre de 2025 para 2,5% negativo.
Para os analistas Danniela Eiger, Pedro Caravina e Laryssa Sumer, da XP Investimentos, “esse movimento [da margem negativa dos cartões] é atribuído à diluição das novas safras, e não à qualidade dos ativos”.
Segundo explicação no balanço do Mercado Livre, essa queda decorreu da diluição causada por safras novas e ainda pouco maduras, e não de uma piora da qualidade dos ativos. Com o amadurecimento dessas carteiras, a expectativa é que a rentabilidade aumente.
No conjunto do crédito, o Nimal teve movimento contrário: avançou 2,9 pontos percentuais na comparação sequencial, de 17,8% para 20,7%, com a normalização das provisões no crédito ao consumidor no Brasil. A inadimplência entre 15 e 90 dias ficou em 7% na carteira total e em 4,6% nos cartões, níveis próximos das mínimas históricas.
Cartões e relacionamento principal
A aposta nos cartões não se resume à receita financeira. O produto tem um papel central na tentativa de transformar uma conta secundária em relacionamento principal.
Os clientes do cartão Mercado Pago têm entre duas e três vezes mais probabilidade de permanecer ativos no ecossistema do que os usuários que não possuem o produto.
Mais importante é onde o cartão da marca está sendo utilizado. Apenas cerca de um quarto de todo o gasto ocorre dentro do Mercado Livre. Os outros três quartos são realizados fora do marketplace.
“Para o cliente ideal, queremos alguém que use muito o Mercado Livre, mas que também use o cartão fora. E temos conseguido”, diz Chaves.
Na lógica do Mercado Pago, o cartão deixou de ser apenas um mecanismo de financiamento das compras no marketplace e começou a disputar espaço com os produtos dos bancos tradicionais e das outras fintechs.
Com 75% dos gastos fora da plataforma, o Mercado Pago captura receita financeira e dados de comportamento em um universo muito maior de transações.
Parar de pé
Essa lógica do ecossistema do Mercado Livre não parte da obrigação de o usuário consumir todos os seus produtos. Segundo Chaves, a estratégia começa pela construção de duas plataformas capazes de competir de maneira independente.
“O Mercado Livre tem que ser bom o suficiente sem o Mercado Pago, e o Mercado Pago tem que ser bom o suficiente sem o Mercado Livre”, afirma o vice-presidente.
Os dois negócios conseguem “parar de pé” porque a integração entre as marcas passa a gerar valor adicional. A quantidade de usuários que utilizam com frequência os dois aplicativos cresceu 37% em um ano.
De acordo com os dados divulgados pela companhia, clientes presentes nas duas pontas movimentam, em média, 70% mais volume bruto de mercadoria (GMV, na sigla em inglês) no Mercado Livre e quase 90% mais volume total de pagamentos (TPV, na sigla em inglês) no Mercado Pago do que aqueles que utilizam apenas uma das plataformas.
O Meli+, por exemplo, tornou-se uma das peças dessa engrenagem. Para o Mercado Livre, é um programa de assinatura com vantagens em frete, velocidade e descontos. Para o Mercado Pago, funciona quase como um segmento bancário. “Os bancos tradicionais têm os segmentos e nós temos o cliente que está dentro ou fora do Meli+”, diz Chaves.
Para os assinantes, o teto de remuneração do cofrinho tradicional sobe de 115% para 120% do CDI. O cartão oferece cashback, inclusive em gastos externos, e benefícios adicionais em parceiros como Petrobras, McDonald’s e Assaí. O assinante tende a utilizar mais o cartão, manter mais depósitos e interagir com mais produtos financeiros.
Para manter esse ecossistema aquecido, a companhia prepara um mecanismo para manter esse dinheiro circulando dentro de seu sistema. O chamado Cofre do Mercado Livre vai oferecer rendimento de 140% do CDI.
Mas com uma condição: o saldo acumulado só pode ser utilizado em compras no marketplace. O produto já estava sendo testado por “algumas centenas de milhares de clientes e terá um lançamento em massa ainda em agosto”, conta Chaves.
A ideia nasceu da observação de que muitos usuários já criavam cofrinhos com nomes como “celular” ou “geladeira”. O Mercado Livre resolveu remunerar mais esse dinheiro em troca da garantia de que ele será gasto dentro da plataforma.
“É uma oportunidade para esse cliente juntar o dinheiro rendendo mais e para a gente fechar o loop dentro do sistema”, afirma o executivo.
Adquirência e o mundo digital
A expansão da adquirência representa outra frente de rentabilidade. No Brasil, o TPV da operação cresceu 32%, em base neutra de câmbio, em um momento em que empresas do segmento enfrentam a comoditização das maquininhas e o avanço do Pix.
O Mercado Pago começou sua operação atendendo comerciantes muito pequenos, alguns com menos de R$ 2 mil em vendas mensais, que podiam ser conquistados quase integralmente pelos canais digitais. Para chegar a negócios maiores, precisou aumentar a presença física.
“A venda passa a ser híbrida. Uma parte é digital e outra parte é feita com gente com mochilinha na rua”, diz Chaves.
A fintech ampliou sua força comercial e passou a ter cobertura física em cidades onde antes operava apenas de forma digital.
Esse movimento permite alcançar empresas com maior volume transacionado e necessidades mais complexas, aumentando tanto o TPV quanto a possibilidade de vender crédito, seguros e ferramentas de gestão financeira – sem flexibilizar os critérios de crédito.
“O risco manda no resto. Se a gente não tolera determinado risco, não tolera, independentemente do impacto que aquele cliente teria no ecossistema”, diz o executivo.
A fintech pode usar a rentabilidade de outros produtos para oferecer um cupom na primeira compra do cartão ou uma taxa mais agressiva em um empréstimo pessoal. Mas Chaves afirma que isso ocorre dentro do apetite de risco já definido.
O Mercado Pago também reforçou a estrutura de capital no Brasil. A companhia realizou uma capitalização de aproximadamente R$ 2 bilhões na operação local em junho deste ano.
Segundo Chaves, a carteira é financiada por instrumentos como CDBs e fundos de direitos creditórios, sem utilizar os depósitos mantidos pelos clientes. “Balanço não é uma restrição. A restrição sempre será o mercado”, diz ele.
Educação financeira pela IA
A inteligência artificial ocupa dois papéis diferentes na estrutura do Mercado Pago. A primeira tem quase 10 anos: a utilização de modelos de IA na concessão de crédito.
Essa ferramenta começou a ser utilizada em 2016 e seu sistema analisa mais de 2,5 mil variáveis, combinando informações do comportamento do cliente no Mercado Livre, no Mercado Pago e em bases externas.
O segundo papel da IA é a redução do custo de servir o cliente e, no limite, assumir a gestão cotidiana de suas finanças.
No consolidado do Mercado Livre, o investimento em inteligência artificial aumentou em cerca de US$ 80 milhões na comparação anual (um número do grupo, não apenas do Mercado Pago brasileiro).
No Mercado Pago, Chaves estima que entre 80% e 90% dos atendimentos já sejam feitos com inteligência artificial. Esse mesmo sistema que responde a dúvidas e soluciona problemas está sendo transformado em um assistente financeiro pessoal.
Desenvolvida integralmente dentro de casa, a ferramenta foi criada primeiro no Brasil e posteriormente levada a mercados como México e Argentina. O assistente reúne mais de cem serviços e opera dentro do aplicativo do Mercado Pago, com acesso, mediante autorização, a dados do Open Finance.
Hoje, já consegue executar ações de conveniência, como iniciar um Pix por comando de voz ou interpretar um boleto encaminhado pelo usuário. A ambição, entretanto, é ir além da execução de ordens.
“Ele começa a ajudar as pessoas a organizar o orçamento, as despesas e a programar a vida financeira”, diz Chaves.
“As pessoas têm mais alternativas de crédito e investimento, mas não necessariamente a educação financeira para utilizá-las. Acreditamos que essa ponte será feita por um assistente muito potente”, complementa.
Uma das próximas funções a ficar disponíveis será o gestor de contas. A IA do Mercado Pago identificou que o comportamento do cliente é receber o salário e pagar imediatamente todas as despesas para saber quanto dinheiro restará para o mês. Com isso, abrem mão dos rendimentos que poderiam obter mantendo os recursos aplicados até as datas de vencimento.
A primeira versão da ferramenta já alerta clientes que deixam contas vencerem mesmo tendo dinheiro disponível. A etapa seguinte fará o movimento inverso: reservará em um cofrinho os valores necessários para água, luz, telefone, escola e outras despesas, mantendo o dinheiro remunerado até o último dia possível para o pagamento.
O cliente verá na conta apenas a quantia efetivamente disponível para gastar. Ao fim do período, o aplicativo mostrará também quanto ele ganhou por ter deixado o dinheiro aplicado antes de quitar as obrigações.
“Ele faz sem precisar ir para uma aula de matemática financeira. Isso ainda é a versão 0.1 do que a tecnologia pode fazer”, afirma Chaves.