Gus, o T. rex de US$ 50 milhões: a pré-história tem dono?
Gus morreu há 67 milhões de anos. Até 2021, seus restos permaneceram ocultos no solo onde hoje fica o condado de Harding, no estado americano de Dakota do Sul. Na terça-feira, 14 de julho, porém, o Tyrannosaurus rex (T. rex) deixou de ser apenas um registro científico da evolução da vida na Terra para se transformar também em objeto da cobiça (e da vaidade) de colecionadores ultrarricos.
Durante dez minutos, na Sotheby’s de Nova York, cinco licitantes disputaram, lance a lance, o esqueleto. Pouco depois das quatro da tarde, o martelo da leiloeira bateu: Gus acabara de se tornar o fóssil de dinossauro mais caro do mundo.
Por telefone, um comprador anônimo arrematou aquele conjunto monumental de ossos por US$ 50,13 milhões — um valor cerca de 70% acima das estimativas da casa de leilão.
Com 11,6 metros de comprimento e 3,8 metros de altura, Gus é um dos maiores e mais bem conservados T. rex já encontrados. Os 183 ossos recuperados, além de 31 dentes e 30 das 32 costelas abdominais, representam cerca de 61% do esqueleto original.
A descoberta de Gus começou graças à curiosidade do pecuarista Gary “Gus” Licking, dono da fazenda de gado onde o T. rex foi encontrado. Há tempos ele recolhia dentes e pequenos fragmentos de ossos espalhados pela propriedade. Convencido de que havia algo maior enterrado sob suas terras, contratou, em 2021, o paleontólogo Thomas Heitkamp para investigar a área.
Licking morreu um ano depois do início das escavações, mas sua esposa Dana deu prosseguimento aos trabalhos de recuperação do fóssil.
O rancho fica na Formação Hell Creek. Considerada um laboratório a céu aberto, a região oferece um retrato bastante preciso do ecossistema terrestre pouco antes da queda do asteroide que resetou a vida no planeta.
Naquela época, a área era cortada por rios e dominada por planícies alagadas — o que facilitou a fossilização de animais e plantas e fez de Hell Creek uma das maiores fontes de fósseis de T. rex do planeta.
Se a geologia explica como os restos do T. rex foram preservados desde o Cretáceo Superior, o mercado ajuda a entender por que seu esqueleto passou a valer dezenas de milhões de dólares. O recorde alcançado por Gus consolida os fósseis de dinossauros como uma nova categoria do colecionismo de alto luxo.
O movimento ganhou força no fim da década de 1990, quando a própria Sotheby’s intermediou a venda de Sue. Também um exemplar de T. rex. Ao ser arrematado por US$ 8,36 milhões, ajudou a levar os fósseis pré-históricos a um novo patamar. Hoje, o esqueleto vale, no mínimo, US$ 66 milhões, nas contas de analistas da Sotheby’s.
A partir dali, as grandes casas de leilão passaram a criar departamentos especializados em história natural, e novos recordes começaram a ser quebrados — um depois do outro (veja na sequência de imagens abaixo os fósseis mais valiosos).
Para bem poucos
Hoje, possuir os restos de animais pré-históricos é um dos símbolos mais exclusivos de prestígio, sobretudo entre bilionários da tecnologia, gestores de fundos de hedge e celebridades de Hollywood.
Em julho de 2024, o investidor Ken Griffin, fundador do Citadel, por exemplo, arrematou um estegossauro por US$ 44,6 milhões, também em um leilão da Sotheby’s. Na ocasião, o herbívoro do jurássico estabeleceu o recorde mundial para um esqueleto de dinossauro — derrubado agora por Gus (veja na sequência de imagens abaixo os fósseis mais valiosos).
Em 2008, o ator Russell Crowe comprou um crânio de mosassauro de Leonardo DiCaprio por US$ 35 mil. Usado para decorar o quarto de brinquedos dos filhos, uma década depois, o fóssil foi vendido por US$ 65 mil.
Nicolas Cage não teve a mesma sorte. Em 2015, ele foi obrigado a devolver o crânio de um Tyrannosaurus bataar, o primo asiático do T. rex, adquirido oito anos antes por US$ 276 mil em uma galeria de Beverly Hills. O exemplar havia sido escavado ilegalmente no deserto mongol de Gobi.
Uma das maiores fragilidades do mercado de fósseis pré-históricos é justamente essa: quem é o dono de um dinossauro?
Na Mongólia, China, Argentina e Itália, por exemplo, as peças são consideradas patrimônio nacional — independentemente de quem seja o proprietário do terreno ou quem as tenha encontrado. No Brasil, uma lei de 1942 determina: a coleta, a pesquisa e a remoção de fósseis dependem de autorização do poder público, e a comercialização de exemplares é proibida.
Na prática, porém, as restrições não impedem o comércio ilegal. Embora o Brasil adote uma das legislações mais rigorosas do mundo, exemplares continuam a sair do país na clandestinidade. Em dezembro de 2023, por exemplo, o governo concluiu a repatriação de 998 fósseis retirados ilegalmente da bacia nordestina do Araripe. Escondidas em um carregamento de quartzo destinado à França, as peças permaneceram onze anos apreendidas até retornarem ao Ceará.
Nos Estados Unidos, fósseis encontrados em propriedades privadas pertencem ao dono da terra — e ele faz o que bem entender com o material. Não à toa o mercado americano é o mais consolidado do mundo, com uma cadeia envolvendo paleontólogos comerciais, laboratórios e lojas especializadas, casas de leilão e colecionadores particulares.
“Uma covardia”
Mas o que é um ótimo negócio para os novos “donos da pré-história” pode representar um apagão de dados para a ciência.
Um exemplar como Gus “não é um troféu ou uma obra de arte. É um arquivo científico insubstituível”, escreve a paleontóloga americana Kristi Curry Rogers, professora de biologia e geologia no Macalester College, no artigo What science loses when T. rex becomes a trophy?, para a plataforma The Conversation.
O conhecimento científico sobre um fóssil nunca se encerra no momento da sua descoberta. Novas tecnologias têm o poder de decifrar mistérios que antes pareciam inacessíveis. Exames de tomografia, análises químicas e estudos microscópicos já permitiram desvendar como os dinossauros ouviam, se movimentavam, cresciam, se alimentavam e até detalhes sobre sua reprodução — perguntas que os primeiros paleontólogos nem sequer tinham ferramentas para formular.
Em mãos privadas, contudo, o acesso dos cientistas aos ossos não é garantido. Em um estudo publicado na revista Palaeontologia Electronica, Thomas D. Carr, professor do Carthage College, nos Estados Unidos, revela: em 2025, existiam 61 fósseis de T. rex em acervos públicos, outros 71 estavam em mãos privadas.
Com os preços na casa dos milhões de dólares, as instituições de pesquisa e os museus não têm como competir com os proprietários particulares.
“Com US$ 50 milhões, nós montaríamos um museu espetacular aqui no Brasil, capaz de receber um milhão de pessoas por ano para conhecer, estudar e aprender”, diz o paleontólogo Luiz Eduardo Anelli, em conversa com o NeoFeed.
“O que esses colecionadores fazem é uma covardia com o patrimônio científico mundial”, completa o coordenador do Grupo de Estudos “USP nas Escolas”, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo — Polo São Carlos.
O pesquisador, no entanto, não é contra o comércio de fósseis. A proibição total e inflexível, como a adotada no Brasil, leva a outro tipo de asfixia científica.
Ao vetar qualquer forma de comércio, doação ou permuta, o país impede, por exemplo, a troca de peças excedentes e bem catalogadas por exemplares pouco estudados no país.
“Um corpo de cientistas poderia avaliar cada exemplar e decidir: estes podem ser comercializados, estes precisam permanecer nas coleções públicas”, sugere Anelli. “Assim, enriquecemos os museus de forma legal e transparente.”
Há 67 milhões de anos, Gus desapareceu da superfície da Terra. Agora, ele volta como um ativo de US$ 50 milhões. Resta saber se o T. rex de Harding será lembrado como o troféu de um colecionador ou como uma fonte permanente de conhecimento sobre o passado do planeta.
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