Rodízio de brigadeiro viraliza e faz confeitaria faturar R$ 300 mil por mês em Porto Alegre
Leandra Wink, 27 anos, e Andreus Gavião, 30, não esperavam que um rodízio de brigadeiros mudaria a história do seu negócio. Em outubro de 2025, o casal tocava uma confeitaria de 20 metros quadrados na Cidade Baixa, em Porto Alegre, com movimento fraco nos fins de semana e contas que, nas palavras deles, viviam “penando”. Hoje, a Brigadeiros da Li fatura R$ 300 mil por mês, atende entre 400 e 600 pessoas nos fins de semana e declina cerca de 100 reservas por semana por falta de espaço.
A virada veio de uma ideia simples e, na opinião de Gavião, que ele mesmo diz que não acreditou de cara. “Amor, vamos fazer um rodízio de brigadeiro”, disse Wink numa tarde de outubro. Ele não ficou muito animado, mas topou. O que aconteceu a seguir foi além do que qualquer um dos dois tinha calculado.
A história da Brigadeiros da Li começa em 2016, quando Wink deixou Santa Rosa, no interior do Rio Grande do Sul, e foi para Porto Alegre terminar o ensino médio e se preparar para a faculdade. Filha de pais comerciantes, ela sabia que o dinheiro seria apertado na capital. A saída foi vender docinhos — primeiro na escola, depois na rua, carregando as embalagens no ônibus.
O ritmo não parou quando ela entrou para a faculdade de Engenharia de Minas. As encomendas de festa cresciam, e conciliar os dois lados ficou cada vez mais difícil. “Eu já tinha trancado a faculdade para ficar só vendendo os docinhos e os brigadeiros. Não estava conseguindo conciliar os dois”, conta Wink.
Em 2019, ela deu o próximo passo e entrou no delivery. O movimento cresceu porque a vizinhança já a conhecia. Com a pandemia em 2020, as festas pararam, as ruas esvaziaram e as encomendas precisaram ser devolvidas. Mas o delivery seguiu funcionando — e bem o suficiente para que ela juntasse os primeiros R$ 20 mil e abrisse uma loja física, ainda em plena crise sanitária. O espaço era pequeno, voltado só para retirada de pedidos e entregas. O apartamento dela, que antes dividia espaço com caixas de leite condensado, finalmente voltou a ser um apartamento.
Por quatro anos, o negócio se sustentou assim: delivery, encomendas de festa, e uma loja que raramente enchia. “Em um final de semana muito bom circulava pela loja, no total, 20 pessoas entre sábado e domingo”, lembra Gavião. “Sempre com alguma promoção para bater as contas.”
Em maio de 2024, as enchentes que devastaram boa parte do Rio Grande do Sul chegaram perto — mas não dentro — da Brigadeiros da Li. A loja ficou ilhada, sem água e sem luz. O estoque inteiro foi assado ou frito nos fornos e distribuído para as equipes de resgate que circulavam pela região. As encomendas foram devolvidas novamente, e a loja ficou fechada por um mês e meio.
Quando o delivery voltou, veio mais forte do que antes. Em setembro de 2024, o casal decidiu transformar o espaço de retirada numa cafeteria, com sete mesas e um salão pequeno. O movimento melhorou, mas ainda estava longe do que imaginavam. Até outubro de 2025.
No dia 20 de outubro de 2025, Wink propôs o rodízio de brigadeiros. A ideia era simples: pagar um valor fixo e comer à vontade. Gavião não ficou entusiasmado, mas não vetou. Gravaram um vídeo na sexta à noite e postaram nas redes sociais. Chegaram a 700 curtidas ainda na madrugada — um número animador, mas sem alerta.
No sábado seguinte, uns dez clientes fiéis apareceram. Comeram, no máximo, dez brigadeiros cada um. O problema ficou evidente: o rodízio custava R$ 44,90, e uma caixa com 15 brigadeiros saía por R$ 48. Por três reais a mais, o cliente levava mais para casa. Não fazia sentido. O feedback foi direto: enjoativo, sem variedade, sem valor percebido.
Sábado à noite, o casal já estava repensando o formato. A solução veio de Gavião: “Dá para acrescentar mais coisa. Dá para botar salgadinho de festa, cachorro-quente.” Wink achou graça: “Então é uma festa infantil.” Estava dado o conceito.
No domingo, ligaram para um casal de amigos — os criadores do perfil Poa Food, no Instagram. “A gente não pagou nada para eles. Só ligou para contar a ideia. Eles toparam gravar”, diz Gavião. No mesmo domingo à tarde, o casal gravou o vídeo. À noite, postaram.
Na segunda-feira de manhã, o contador já marcava 1 milhão de visualizações. Emissoras de TV ligavam. Rádios pediam entrevista. Os seguidores não paravam de entrar. “Viralizou de uma forma surreal. A gente não sabia nem o que estava acontecendo”, diz Gavião.
O problema imediato era concreto: Wink tinha 80 reservas confirmadas e a loja comportava 20 pessoas. Não havia copos, pratos nem talheres para tanta gente. “Eu olhei para a cara dela. Como que tem 80 reservas? A gente não tem nem 80 copos”, lembra Gavião.
Com o salário que havia recebido no dia 20, ele passou tudo para Wink e disse: “Compra o que achar necessário.” Ligaram para a Coca-Cola, para a Pepsi, para a Fiuza — qualquer fornecedor que pudesse ajudar com cadeiras e mesas. Ninguém atendeu. Bateram na porta do proprietário do imóvel ao lado e pediram para usar a calçada. “Se der tudo certo, a gente aluga sua peça depois”, disseram. Ele concordou. Em cinco dias — de segunda a sexta —, o casal alugou 50 mesas e 130 cadeiras para um espaço que antes tinha sete mesas vazias.
Na sexta à noite, as filas chegaram até a rua. Tudo que tinham comprado para durar o fim de semana inteiro acabou em quatro horas. Os pratos e copos de vidro deram lugar a descartáveis de festa infantil em 20 minutos. Não havia fritadeiras suficientes. A rede elétrica não aguentou o equipamento e a luz caiu. Não havia ar-condicionado. Os garçons não tinham experiência em atendimento de salão. “Tinha cliente querendo nos matar. Reclamando de tudo possível”, resume Gavião.
A semana seguinte foi de correção acelerada: compraram fritadeiras, reformaram a rede elétrica, instalaram ar-condicionado, trocaram os descartáveis por louça e treinaram a equipe. “A partir dali, ficamos, entre aspas, sem vida — porque era o dia inteiro correndo atrás do que podia melhorar.”
A Brigadeiros da Li tem hoje um cardápio de 60 tipos de brigadeiros. No rodízio, são servidos 25: 15 fixos — os tradicionais, branquinho e outros que, como diz Gavião, “todo mundo quer e eu não posso tirar” — e 10 rotativos, escolhidos entre os outros 45 disponíveis. As opções incluem brigadeiro de chimarrão, mirtilo, limão, maracujá e outras combinações que variam conforme o dia.
Além dos doces, o rodízio oferece cerca de 12 tipos de salgadinhos de festa — croquete, rissole, coxinha, pastéis de queijo — com opções para vegetarianos (brócolis com queijo, tomate seco). Completam o menu cachorro-quente e batata frita. O público que lota a casa nos fins de semana é variado: famílias com crianças, jovens que gostam da comida de festa sem precisar de uma festa, mulheres que não têm sobrinho ou afilhado para levar.
O rodízio adulto custa R$ 54,90; o infantil (até 10 anos), R$ 29. O serviço funciona às sextas, das 18h30 às 23h, e aos sábados e domingos, das 14h às 22h. O tíquete médio fica entre R$ 65 e R$ 70 por pessoa. Há quem fique meia hora e há quem passe o dia — no domingo anterior à entrevista, uma mesa de três pessoas entrou às 14h e foi embora às 20h.
Durante a semana, a equipe fixa é de dez pessoas. Nos fins de semana, chegam a 35, com reforço de freelancers. A preparação começa na quinta-feira.
O casal está no meio de outra reforma. Desta vez, a cozinha de doces vai se mudar para um imóvel na esquina, e o espaço que ela ocupa dentro da loja vai virar salão. A cozinha de salgados permanece no endereço atual. O investimento total está estimado em R$ 110 mil — contra os R$ 20 mil da primeira reforma e os R$ 40 mil da segunda, ambas feitas praticamente sem contratar empresas.
A expansão deve abrir mais 80 lugares e permitir que o casal aceite até 80 reservas por rodízio — número que hoje é inviável. A projeção é crescer o faturamento em 25%, chegando perto de R$ 375 mil mensais.
Wink quer abrir uma unidade em Gramado ou Canela, na Serra Gaúcha — um cenário que, na avaliação dela, combina com o que a confeitaria representa. Gavião pensa em franquias. Pedidos de interessados já chegam pelo Instagram, e investidores já bateram à porta. Até agora, o casal recusou todos. “A gente está querendo estruturar muito mais. O dia que a gente olhar para a cara do outro e falar ‘agora chegamos no padrão que queremos’, aí sim a gente começa a pensar numa outra loja e depois em franquias”, diz Gavião. “A demanda pelo Brasil todo tem. Só faltou a gente conseguir fazer.”
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